Hoje à tarde caiu uma boa chuva aqui em Sampa, daquelas que há tempos eu não via. Chuva farta, contínua, quase bonita de observar. Mas, como quase sempre acontece por aqui, junto com a chuva vêm os problemas: muitos bairros alagados, trânsito complicado, aquela sensação de cidade que não foi feita para suportar seus próprios excessos.
Hoje foi um dia atípico, estranho, pesado no ar. Seguimos para a visita marcada com a imobiliária para conhecer a casa. A casa, à primeira vista, estava realmente bonita. Dava para ver o cuidado: pintura nova, tudo arrumado, um esforço claro dos proprietários para deixá-la pronta para receber alguém. Mas, à medida que fomos entrando, algo começou a ficar errado.
A corretora percebeu um portãozinho que dá acesso ao terraço, claramente arrombado. E, conforme avançávamos, o cenário foi se revelando — e era triste. Durante o período das festas de fim de ano, com a casa vazia e os vizinhos também ausentes, alguém entrou ali. Muito provavelmente pessoas em situação de uso de drogas. Rasuraram a casa inteira. Quebraram a porta, os vidros, arrancaram toda a fiação, destruíram o vaso sanitário. Depredação total. Um prejuízo enorme.
A corretora ficou visivelmente abalada. Ligou na hora para a imobiliária, fez vídeos, registrou tudo. Comentou conosco que a dona da casa é idosa e está doente, e que teria de falar primeiro com o filho antes de avisá-la. Disse que não sabia qual seria a reação dela. Aquilo me comoveu profundamente. Saber que alguém se dedicou tanto a reformar, pintar, cuidar de cada detalhe — e ver tudo assim, destruído — foi realmente doloroso.
Mesmo em meio a tudo isso, tentei analisar a casa com lucidez. E alguns pontos começaram a pesar. Primeiro, a questão da invasão. É verdade que a casa estava vazia e as casas vizinhas também, mas a facilidade com que entraram, saquearam e depredaram tudo nos fez pensar. Segurança importa, e muito. Segundo ponto: a lavanderia dava acesso ao terraço, e dali era possível ver claramente a janela de cima do vizinho e a janelinha do banheiro dele voltadas diretamente para o nosso quintal. Não é uma sensação boa. Não sabemos quem mora ali, como é a rotina, se há privacidade. Esse tipo de coisa pesa no dia a dia, mesmo que pareça pequeno no começo.
Diante de tudo isso, descartamos essa casa. Foi uma decisão serena, apesar da tristeza do episódio.
Sendo bem sincera, depois de hoje, não sei se é o momento de ter pressa para mudar. Os aluguéis estão muito caros, e não é simples encontrar uma casa que seja realmente melhor, sem riscos de invasão, sem problemas estruturais, sem estar em área de enchente. Talvez seja preciso mais tempo, mais calma, mais observação.
Por agora, nosso foco precisa se voltar para o que é concreto e imediato: o início das aulas, os uniformes, a nova escola do Calebe, a limpeza do quintal, a organização da casa onde estamos. Seguimos por aqui. Um passo de cada vez. Com atenção, cuidado e, acima de tudo, discernimento.
Priscilla
