Arte, crises ambientais e resiliência: o que esquecemos de ouvir da terra

Vivemos um tempo em que os desastres parecem se suceder sem pausa. Enchentes, deslizamentos, incêndios, colapsos ambientais. Costumamos chamá-los de “tragédias naturais”, mas, cada vez mais, sabemos que não o são. A natureza reage. O que vemos é, muitas vezes, consequência direta do nosso próprio desmazelo, da negligência acumulada, da ruptura profunda entre humanidade e território.

Ao longo da história, isso nem sempre foi assim. Povos antigos — celtas, andinos, povos originários das Américas — mantinham uma relação íntima com a terra. Sabiam ler sinais: o vento, o silêncio dos animais, o comportamento das águas. Não porque dominassem a natureza, mas porque pertenciam a ela. Havia escuta, cuidado e responsabilidade coletiva. Perdemos essa escuta. E, com ela, perdemos também parte da nossa capacidade de prever, proteger e preservar.

Toda travessia exigia escuta.

É impossível não perceber o contraste com o mundo de hoje. Avançamos tecnologicamente de forma admirável: mapas precisos, previsões, sistemas complexos, ferramentas que salvam vidas. E é importante reconhecê-lo. Mas, em meio a esses avanços, algo se perdeu — a consciência profunda de que somos terra, e não apenas seus usuários. Cuidar da casa comum deixou de ser prioridade para se tornar discurso tardio, muitas vezes acionado apenas depois da catástrofe.

Entrevistei a alguns meses atras a Elton Cunha e pude compreender ainda mais sobre tudo isso ( A entrevista completa com Elton Cunha está disponível aqui). Elton atua justamente onde o risco deixa de ser teoria. Sua trajetória na gestão de crises e desastres revela algo essencial: os desastres fazem parte da existência humana, mas a insistência em ignorá-los, adiá-los ou varrê-los para debaixo do tapete amplia suas consequências.

Há falhas que não são da natureza — são sociais, políticas e éticas. E cada um de nós precisa fazer sua parte.

Ao longo da entrevista, ficou claro que enfrentar crises exige mais do que protocolos técnicos. Exige responsabilidade coletiva, preparação e, sobretudo, humanidade. Não se trata apenas de reagir quando tudo desmorona, mas de aprender a olhar antes, de reconhecer sinais, de assumir o papel de cidadão que cobra, colabora e se prepara.

É nesse ponto que a arte surge — não como adorno, mas como ferramenta silenciosa de resistência. A música tem a capacidade de dizer o que muitas vezes não conseguimos ouvir por outros meios. Ela conforta, mas também confronta. Humaniza. Cria pontes de consciência onde discursos prontos falham.

Foi dessa mesma reflexão que nasceu minha canção Terras Desconhecidas ( Terras Desconhecidas — vídeo oficial Assista aqui) . Ela fala de atravessar sem mapas seguros, de caminhar em meio à incerteza, de reconhecer que não controlamos tudo — mas podemos escolher como atravessamos. A vida não oferece respostas fáceis; ela convida à escuta. Da terra, do tempo, do outro.

Na antiguidade, atravessar era um ato coletivo e ritualizado. Hoje, atravessamos crises globais acreditando que improviso e pressa bastam. Mas a história insiste em nos lembrar que nada que envolve vida pode ser improvisado. Prevenção, cuidado e respeito não são obstáculos ao progresso — são sua base.

Louvar os avanços tecnológicos não significa abandonar a consciência ancestral. Pelo contrário: talvez o maior desafio do nosso tempo seja integrar conhecimento técnico com sabedoria antiga, ciência com ética, progresso com pertencimento.

Cultura & Resiliência nasce exatamente desse encontro. Entre passado e presente. Entre técnica e arte. Entre a necessidade de agir e a urgência de escutar. Porque atravessar crises não é apenas sobreviver a elas.
É aprender, finalmente, a cuidar da casa enquanto ainda estamos nela.


Texto: Priscilla Novaes
📍 Diário de bordo | Cultura & resiliência — dezembro de 2025