Há fios da história que parecem invisíveis — até que a memória os ilumina. Entre a Irlanda e o Chile, dois extremos do mundo atlântico, existe um desses fios: uma conexão celta que atravessou mares, impérios e séculos, deixando marcas sutis no tecido da América do Sul.
Poucos sabem que o Chile no tempos da America Espanhola, teve um vice-rei nascido na Irlanda. Ambrosio O’Higgins, natural de Ballynary, no condado de Sligo, emigrou ainda jovem para a Espanha em busca de oportunidades. Católico em tempos de repressão britânica, serviu à Coroa Espanhola e, em 1788, foi nomeado governador do Chile. Alguns anos depois, chegou ao posto máximo do vice-reinado do Peru. O destino, porém, reservava à sua linhagem um papel ainda mais simbólico: seu filho, Bernardo O’Higgins, seria um dos líderes da independência chilena, herdeiro tanto do sangue celta quanto do espírito libertário que marcou o início do século XIX.
Irlandeses no exílio e nas independências
A trajetória dos O’Higgins é mais do que um episódio isolado. Ela integra um fenômeno mais amplo — o de irlandeses que, fugindo da dominação inglesa, encontraram na Espanha e em suas colônias um espaço de sobrevivência e ascensão. Homens de origem celta serviram como oficiais, engenheiros e administradores no exército espanhol, trazendo consigo tradições de resistência e fé que moldaram parte do imaginário do período. Alguns, como Francisco Burdett O’Connor, tornaram-se generais nas guerras de independência sul-americanas. Outros, anônimos, trabalharam como artesãos e construtores nas fronteiras coloniais do Chile, sob a orientação do próprio Ambrosio O’Higgins.
Há também o caso dos San Patricios, batalhão formado por irlandeses católicos que desertaram do exército norte-americano para lutar ao lado do México na guerra de 1846–1848. Sua história, imortalizada em músicas e livros, ecoa como símbolo de solidariedade entre povos oprimidos.
A presença galesa no Cone Sul
No extremo sul, outra presença celta floresceu: os galeses que, no século XIX, se estabeleceram na Patagônia argentina, fundando colônias como Y Wladfa, onde até hoje se fala o galês e se celebra o Eisteddfod — um festival poético de raízes milenares.
Essas presenças — irlandesas, galesas e hispânicas — desenham um mapa alternativo da América Latina: um mapa de encontros invisíveis, de culturas que se cruzam em silêncio, sem deixar monumentos, mas legando memórias. No caso do Chile, a herança celta não se expressou em músicas ou danças, mas na força simbólica de personagens como os O’Higgins, que transformaram o exílio em destino e o deslocamento em pontes.
Hoje, tanto no Chile quanto na Irlanda, há instituições e famílias que celebram essa ligação — mais espiritual do que política — entre as duas terras. Reencontros da família O’Higgins, intercâmbios culturais e estudos históricos mantêm viva a lembrança de uma irmandade atlântica. Uma herança que nos recorda: as histórias humanas raramente cabem dentro das fronteiras — elas fluem como o mar, ligando continentes, línguas e esperanças.
Chiloé: a “Nova Galícia”
A Ilha de Chiloé, no Chile, é um desses lugares em que o mistério parece respirar entre as águas. Inicialmente batizada pelos espanhóis como “Nueva Galicia” (Nova Galícia), recebeu esse nome durante o período de exploração e conquista.
Em 1553, o navegador Francisco de Ulloa explorou suas costas, e, em 1557, Martín Ruiz de Gamboa tomou posse da região em nome da Coroa Espanhola, nomeando-a em homenagem à Galícia, no noroeste da Espanha — uma terra que, desde a Antiguidade, se considera herdeira das tradições celtas da Península Ibérica.

Com o passar do tempo, o nome espanhol foi substituído pelo indígena “Chiloé”, que na língua Huilliche significa “lugar de gaivotas”. Essa fusão de nomes — europeu e nativo — simboliza o encontro de mundos: a Galícia dos conquistadores e o universo espiritual dos povos originários.
A ilha, com sua capital Castro, é até hoje um território de lendas, brumas e encantamentos. Para muitos chilenos, Chiloé é o coração do imaginário mítico nacional: o lar das bruxas, dos espíritos do mar e das barcas fantasmas.
O arquipélago de Chiloé, antigo “Nova Galícia”, parece condensar em suas águas o mesmo espírito lendário que habitava os montes e as aldeias da antiga Europa celta.
O som do “arpín” e a lenda irlandesa
Mas há um detalhe ainda mais curioso nessa herança musical e simbólica. No Chile, toca-se até hoje uma pequena harpa conhecida como “arpín”, instrumento de timbre suave e intimista.
Alguns estudiosos atribuem sua origem a um irlandês que viveu no país, cuja arte teria sido absorvida pela tradição popular chilena.
É difícil saber se o “arpín” realmente nasceu desse encontro, mas o fato de a lenda existir já é revelador: ela mostra que, de algum modo, o som das cordas celtas encontrou eco no coração andino.
Ecos de uma irmandade atlântica
Essas histórias — dos O’Higgins, dos San Patricios, dos galeses da Patagônia e dos ecos galegos em Chiloé — formam um mosaico cultural quase invisível. Elas revelam que o Atlântico não foi apenas um oceano de separações, mas também de pontes espirituais.
A América do Sul, com sua geografia de extremos e sua riqueza de mitos, tornou-se solo fértil para a ressonância das antigas vozes celtas.
E o Chile, com suas harpas pequenas e suas ilhas de neblina, guarda talvez o mais poético desses ecos — um lembrete de que a cultura, assim como o mar, nunca cessa de entrelaçar as margens do mundo.
📚 Referências
CERDA OTÁROLA, Nicole. De Irlanda a Chile: el legado de los inmigrantes irlandeses y su impacto cultural en la actualidad. [S.l.]: [s.n.], [s.d.].
https://www.memoriachilena.gob.cl/602/w3-article-92152.
BUSTAMANTE OLGUÍN, F. Inmigración irlandesa en Chile: éxodo, realización y excepcionalidad. 2019.
FANNING, Tim. Paisanos: los irlandeses olvidados que cambiaron la faz de Latinoamérica. Buenos Aires: Editorial Sudamericana, 2017.
NÚÑEZ, Carlos. La Hermandad de los Celtas. Madrid: Espasa, 2018.
SEPÚLVEDA, H.; CATALÁN, V.; GONZÁLEZ, M. Orígenes: una mirada a nuestro pasado. Córdoba: Editorial Tinta Libre, 2023.

Texto: Priscilla Novaes
📍 Música&Linguagens | Cultura Celta — novembro de 2025
