
🌑 12 de Novembro — A época imunológica, o excesso de positividade e o cansaço invisível
Passei o dia mergulhada no Sociedade do Cansaço e, enquanto eu lia, sentia aquela sensação estranha — como se alguém estivesse descrevendo exatamente o mundo que tenho visto, vivido… e questionado desde 2024.
Han começa falando da tal “época imunológica”. Gostei dessa metáfora: a sociedade como um corpo que cria anticorpos, fronteiras, muros. No século XX tudo era “nós contra eles”: inimigo, estrangeiro, o outro ameaçador. Era o tempo das proibições, das paredes, dos “nãos”.
Mas ele diz que esse mundo acabou. Que agora vivemos numa sociedade sem fronteiras, hiperconectada, onde tudo se mistura e nada mais se defende.
E, ao invés de lutar contra um inimigo externo, lutamos contra nós mesmos.
Fiquei pensando nisso.
Às vezes parece mesmo que ninguém mais “resiste” a nada.
Tudo é absorvido, consumido, transformado em conteúdo.
Até o estranho vira atração turística.
Depois, Han fala de algo que me acertou diretamente: a escassez de negatividade.
Nunca tinha pensado que o “não” pode ser saudável.
Mas faz sentido: sem limites, sem pausa, sem contradição, a gente se perde no excesso.
O excesso do “sim”:
sim, eu consigo;
sim, eu tenho que produzir;
sim, eu preciso aparecer;
sim, eu tenho que estar disponível.
E é exatamente esse “sim” que adoece.
A sociedade disciplinar criava loucos e delinquentes.
A sociedade do desempenho cria depressivos, ansiosos, esgotados.
A agressão vem de dentro — uma autoexigência que nunca acaba.
Hoje foi impossível não lembrar do documentário O Dilema das Redes, da Zuboff, do Lanier… tudo parece parte da mesma denúncia.
Tanta produtividade, tanta conexão… e tão pouco sentido.
Han usa a expressão:
“Morremos de tanto sim.”
E eu senti isso como um soco.
Quantas vezes me forcei a ser “positiva”, “produtiva”, “disponível”?
Quantas vezes transformei o meu próprio tempo numa tarefa?
Talvez por isso eu tenha me aproximado tanto da história, da música antiga, das raízes — porque tudo isso me devolve um “não”, um limite, um silêncio.
🌿 13 de Novembro — O tédio profundo, a contemplação e o espanto perdido
Hoje entrei no capítulo do tédio profundo.
Que coisa linda.
Han diz que existe um tédio que não é vazio, mas descanso espiritual.
É aquele estado em que a mente desacelera, sonha, respira — o “ninho do pássaro onírico”, como Benjamin chamou.
É triste pensar que esse ninho está desaparecendo.
Hoje quase ninguém fica parado.
Ninguém contempla.
Tudo é estímulo, notificação, urgência.
Percebi que quando fico longe das redes e da correria, quando estou no meu jardim, ou estudando história antiga, ou ouvindo minhas músicas medievais… algo dentro de mim se rearruma.
É como se o pensamento voltasse a tecer com calma — e isso é exatamente o que o Han diz que estamos perdendo: tecer e fiar o pensamento.
Ele cita Nietzsche:
“Por falta de repouso, nossa civilização caminha para uma nova barbárie.”
Como isso é atual!
Vivemos numa geração inquieta, elétrica demais — e por isso vazia.
A imagem da dança me encantou.
A dança como resistência ao tempo linear, ao desempenho.
Porque dançar é quebrar a linha reta — é dar corpo ao contemplativo.
E quando ele fala do espanto… senti meu coração aquecer.
O espanto é justamente o que eu sinto estudando culturas antigas, cantigas medievais, rituais andinos, histórias da Espanha.
É aquele primeiro olhar — puro, curioso, maravilhado.
Han diz que a modernidade matou o espanto.
Mas eu não quero perdê-lo.
Quero cultivá-lo como quem cultiva uma chama.
E sinto que meu livro Cultura e Resiliência nasce desse lugar:
o desejo de recuperar aquilo que o mundo acelerado está apagando.
