🌿 Entre o Silêncio e o Ruído: Como Recuperar o Humano em Tempos de Aceleração

Esta semana estou mergulhada na leitura do livro Sociedade do Cansaço de Byung-Chul Han, e o que ele escreveu tem muito a ver com os temas de Cultura e Resiliencia.

Vivemos em uma era em que o descanso verdadeiro se tornou quase uma relíquia. Não falo do descanso físico — esse ainda tentamos cumprir entre uma notificação e outra — mas do descanso espiritual, aquele que Walter Benjamin chamava de “o ninho de repouso do pássaro onírico”. Esse ninho, feito de silêncio, imaginação e profundidade, está desaparecendo. E com ele, desaparece também nossa capacidade mais humana: a de contemplar o mundo.

Ao longo da história, o tédio profundo era entendido como um tempo sagrado. Ele permitia que a consciência respirasse, que ideias amadurecessem como frutos no escuro, que imagens internas encontrassem forma. Aquele tédio que parecia um “pano cinza por fora”, diz Benjamin, era por dentro revestido da seda mais colorida que existe — o tecido dos sonhos, das intuições e da criatividade que nasce devagar, como quem floresce ao sol do fim da tarde.

Hoje, porém, vivemos no oposto disso. A instabilidade dos olhos — esse hábito moderno de nunca repousar em nada — dispersa o pensamento antes mesmo que ele possa brotar. Caminhamos de estímulo em estímulo, como se cada segundo de silêncio fosse uma ameaça. Somos ativos, inquietos, produtivos… e profundamente exaustos.

Byung-Chul Han traduz esse fenômeno com precisão cirúrgica: a sociedade contemporânea expulsou todo elemento contemplativo e o substituiu pela hiperatividade. Nietzsche, já no século XIX, havia percebido o perigo: “por falta de repouso, nossa civilização caminha para uma nova barbárie”. O alerta soa ainda mais alto hoje, quando a aceleração se tornou norma, e quando o valor de uma pessoa parece medir-se pela velocidade com que responde mensagens, publica conteúdos ou se reinventa diante do algoritmo.

A consequência é visível: perdemos a capacidade de tecer pensamento. Não se “tece mais e não se fia”, escreve Han, retomando Benjamin. Tecer exige continuidade. Fiar exige repetição calma, cadenciada. Nada disso é possível quando a mente vive em estado permanente de fuga, saltando como um pássaro preso numa sala sem janela.

E, no entanto, é justamente nesse espaço abandonado que a arte vive. A arte não é filha do excesso, mas do intervalo. Não nasce do correr, mas da dança — essa dança interior em que o corpo se abre ao mundo, sem metas, sem utilidade, sem desempenho. A dança é, como diz Han, um luxo que escapa totalmente ao princípio da produtividade. Por isso ela salva. Por isso ela cura.

Recuperar a contemplação é mais do que uma nostalgia romântica; é uma urgência histórica e espiritual. É um gesto de resistência contra o capitalismo da vigilância descrito por Shoshana Zuboff, que tenta converter cada pensamento em dado. É um antídoto às redes sociais que, como alerta Jaron Lanier, corroem nossa empatia, nossa memória e até nosso comportamento. É, sobretudo, um caminho de volta para nós mesmos — para o ser, e não para o fazer; para o espanto, e não para a eficácia.

Num mundo onde tudo nos empurra para fora de nós, a contemplação é o ato mais revolucionário. É escolher, no meio do barulho, ouvir o silêncio. É resgatar o direito de não produzir, de não performar, de simplesmente estar. É cultivar jardins, escrever à mão, escutar música devagar, caminhar, observar o céu, ler sem pressa, criar sem urgência — e perceber que a vida, quando desacelera, revela uma profundidade que a velocidade jamais permitirá.

Talvez a grande tarefa do nosso tempo seja essa: reaprender a repousar, a descansar, para que o pássaro onírico possa voltar a fazer seu ninho dentro de nós. Porque sem esse ninho, podemos até sobreviver — mas jamais viver plenamente.

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