Assisti a uma palestra da Facultad de Geografía e Historia Salamanca Mesa redonda sobre La manipulación de la colonización de América:
Abertura e enquadramento
O encontro inicia com uma referência ao 26 de abril, aniversário do bombardeio de Guernica, para iluminar como memórias traumáticas são debatidas publicamente (inclusive com pedidos de “perdão” por parte de governos). A mesa propõe discutir a relação entre história e política, aplicada ao caso específico da colonização da América, destacando seu uso com fins propagandísticos e de instrumentalização política.
Participantes
- Prof. Carlos (História da América, Univ. de Vigo): autor de manuais de História da América e História Contemporânea, com experiência de vida e pesquisa na Europa e nas Américas.
- Juan Carlos Iragorri (jornalista colombiano-espanhol): trajetória em grandes veículos, cobertura de conexões entre narcotráfico e política, atuação como correspondente em Madrid e nos EUA; dirige o blog em espanhol do Washington Post.
- Representante da faculdade: responsável por explicar aos estudantes os processos de colonização.
História e política: o marco conceitual (exposição do decano)
Há relações constantes entre historiadores e poderes em qualquer época. Mesmo buscando imparcialidade, a história impacta sociedade, cultura e mentalidades, configurando identidades e consciências. Políticos de diferentes matizes recorrem à história para alimentar e construir memórias úteis aos seus projetos.
Assim, a história pode converter-se em instrumento político, fornecendo argumentos para formar identidades — cada memória combina fatos, vivências e promessas de futuro. Embora as esferas do historiador e do político sejam distintas, não são independentes.
Na reconstrução do passado, há seleções enviesadas: exaltam-se vitórias e esquecem-se derrotas e abusos. Os manuais escolares mudam conforme o país, ressaltando “suas” batalhas. Também se exageram aspectos do passado para estimular vitimismo ou condenar adversários atuais.
A história cumpre papel formativo e deve ser explicada com rigor, sem justificar violências do passado como “coisas da época”. Há um compromisso contemporâneo com um registro democrático, tolerante, inclusivo e igualitário.
Outras áreas (sociologia, ciência política, economia, antropologia, direito, filosofia) e, hoje, a internet — com sua mistura de informação, desinformação e “bulos” — moldam identidades. Daí a importância de filtrar conteúdos e evitar discursos manipulados.
O uso político da história é generalizado: no caso espanhol, invocam-se Reconquista, Império dos Habsburgo, conquista e colonização da América, Guerra da Independência (como luta contra o invasor, nem sempre como nascimento do constitucionalismo). Certas retóricas projetam a Espanha como inimiga histórica do Islã, defendem uma suposta homogeneidade cultural e mascaram xenofobia sob defesa de “valores liberais”.
Observa-se, por exemplo, a diferença entre VOX (ênfase em Idade Média/Império, apagamento da tradição liberal) e Partido Popular (autodeclarado liberal-conservador). Mitos como Covadonga são usados contra “inimigos da Espanha”, independentemente de críticas historiográficas. Conclusão: não é “só lá fora” que se abusa da história; aqui também.
A “guerra de memórias” e a crítica à simplificação (profª Izaskun Álvarez)
A professora agradece o convite e estrutura sua fala em dois blocos: (1) lenda negra e colonialismo; (2) quem impulsiona o debate atual na Espanha.
1) Lenda negra, colonialismo e as distorções atuais
Manipular e falsificar o passado tem efeitos graves. A história da América foi lançada numa centrífuga que mistura conquista/colonização, Inquisição, derrubada de estátuas, pedidos de perdão, “cancelamentos”, teorias de substituição populacional e devolução de objetos de museus — um redemoinho ideológico útil a políticos dos dois lados do Atlântico e a divulgadores sem formação.
A lenda negra é frequentemente distorcida por direitas e esquerdas, na Espanha e nas Américas. O problema central hoje é sua instrumentalização: a direita/extrema-direita a usa para reanimar um orgulho patriótico imperial (heróis, batalhas, bandeiras como a Cruz de Borgonha), enquanto acusa “inimigos” de manter a lenda viva.
Critica-se também o negacionismo do colonialismo, que invoca a existência jurídica dos Reinos de Índias para negar a dominação. Isso ignora que se enfrentaram sociedades milenares (astecas, incas etc.) em territórios não vazios, e que houve imposição administrativa (Requerimiento; mita e encomienda como coerções laborais; legislação das Leis de Índias).
Rebate-se a narrativa “civilizadora” simplista (“construímos estradas, escolas, universidades; ensinamos o espanhol; debatemos se indígenas tinham alma”), por apagar resistências, hibridações e adaptações regionais. Faltam estudo em arquivos e rigor metodológico.
A professora critica produtos midiáticos (ex.: España, la primera globalización; anúncio de Doña Marina: el nacimiento de Hispanoamérica) e seus apoios institucionais, por promoverem uma visão romantizada.
Por outro lado, a iconoclastia (derrubar/grafitar estátuas de conquistadores, missionários, Colón, Pizarro, Cortés) produz negação acrítica do passado quando feita sem contextualização e pedagogia.
Ela questiona silêncios curriculares: poucas páginas sobre conquista/colonização e omissão do passado escravista espanhol; agendas políticas no México que minimizam repressões a povos indígenas; silêncio sobre conquistas genocidas na Argentina ou matanças no Chile. Conclui pedindo pedagogia histórica sem maniqueísmos e formação sólida para evitar que a sociedade seja manipulável por políticos e mídia.
2) Quem impulsiona o novo discurso na Espanha
A tendência recente é associada ao hispanismo filosófico ligado a Gustavo Bueno (anos 1990), com tese antieuropeísta e reforço da “hispanidade” e de sua continuidade imperial, difundida por sua Fundación Gustavo Bueno (Oviedo), acusada de sectarismo e proximidade com a extrema-direita. Menciona-se a colaboração de Gustavo Bueno Jr. com Santiago Abascal (VOX) em En defensa de España (2014) e a fundação DENAES (“Defensa de la Nación Española”), bem como a Fundación Disenso (think tank do VOX), que reativa slogans como hispanidad/iberoesfera.
Cita-se ainda Elvira Roca Barea (Imperiofobia y la leyenda negra; Fracasología), cujas obras geraram uma onda de réplicas e contrarréplicas.
Mesa redonda (parte 2): livros, polêmicas e mitos nacionais
1) Obras recentes e a “caixa de Pandora”
A palestrante retoma a crítica a livros parciais e pouco acadêmicos que reabriram uma polêmica que a historiografia considerava superada. Segundo ela, a historiografia espanhola e o americanismo (na Espanha e fora dela) não têm a “lenda negra” como foco atual; quem deseja compreender o tema seriamente precisa voltar a autores de referência (como Miguel León-Portilla, entre outros).
2) “Fracasología” e a narrativa do declínio
Em Fracasología, Elvira Roca Barea sustenta que, desde o século XVIII, a ideia de Espanha passou a ser associada a decadência, fracasso e excepcionalidade, alimentando um conflito das elites com o próprio país (intensificado após as Guerras Napoleônicas). Essa “febre” reativou a edição de Julián Juderías (La leyenda negra), cuja noção é mais antiga, mas que se tornou rótulo de debates públicos desde fins do século XIX.
A palestrante lembra, ainda, o papel da propaganda (caricaturas e jornalismo sensacionalista de Hearst e Pulitzer) na Guerra de Cuba — como exemplo de opinião pública moldada por campanhas midiáticas.
3) Nicho editorial e hispanismo ideológico
A partir de Imperiofobia, multiplicaram-se títulos de tom apocalíptico e combativo (ex.: Madre Patria; La leyenda negra desde Bartolomé de las Casas hasta el separatismo catalán). Destaca-se Marcelo Gullo (ligado a posições pan-hispânicas) e sua frase-síntese: “Espanha não conquistou a América; Espanha libertou a América” — apresentada como exemplo de reversão retórica. Menciona-se o apoio e a circulação desses autores em fundações e think tanks (DENAES, Disenso), e elogios públicos que substituem historiadores de ofício por divulgadores com agenda ideológica (o caso Ramón Tamames, e referências a Roca Barea, Gullo e Pablo Victoria).
Exemplos citados:
- Pablo Victoria (filósofo/economista colombiano, títulos como España contraataca, El terror bolivariano).
- Francisco Núñez del Arco (Quito fue España), prólogo de Pablo Victoria.
- Alberto Ibáñez (La leyenda negra: historia del odio a España; La guerra cultural), com tom conspirativo e alarmista.
4) O que a história crítica deve ser
A palestrante lista princípios para um tratamento profissional da conquista/colonização:
- Escrita por especialistas, não por advenedizos e polemistas.
- Sem complacências nem ódios.
- Sem lendas negras ou douradas (nem demonização, nem glorificação).
- Pesquisa precisa, resultados objetivos, distantes de clichês e populismos reacionários.
- História transatlântica, dialogada e comparada, assumida por todas as partes.
Ela conclui que a única resposta às manipulações é boa prática de pesquisa e divulgação. Questiona, no entanto, se vale a pena deixar a “torre de marfim” para debater com polemistas que buscam visibilidade — reafirmando seu compromisso com arquivos, documentação e método.
5) Intervenção do Prof. Carlos: como (não) aprendemos história
O professor agradece e muda o foco para os males do ensino de história. Recorda manuais escolares marcados por viés religioso e omissões (por exemplo, ignorar evolução ao tratar de pré-história), e uma narrativa insular: enfileirar “ilhas” de fatos e heróis, ocultando processos e contextos.
Reconquista, um rótulo problemático
Ele compara a rapidez da expansão espanhola nas Américas (c. 1522–1560, do Vale do Anáhuac ao Bío-Bío) com a lentidão secular da chamada Reconquista na Península (de Covadonga a Granada, c. 700 anos). O contraste serve para relativizar o termo “reconquista”, sem negar avanços dos reinos cristãos — mas cobrando terminologia mais adequada.
Lenda negra e debates esquecidos
Aponta que Holanda e Inglaterra amplificaram um debate nascido na própria Espanha, quase tão antigo quanto o “descobrimento”. Lamenta que se fale muito de Las Casas e pouco de Antón de Montesinos (sermões de 1511), fundamentais para o início da reflexão crítica.
América como chave da identidade espanhola
Sublinha que a descoberta/conquista/colonização tem pouco espaço nos manuais, embora sem ela a Espanha teria outra estatura histórica. Pede uma revisão honesta, com luzes e sombras, assumindo o passado como história nacional.
6) Nações, mitos e o “Outro”
Toda história nacional se apoia em mitos fundacionais que funcionam como justificativa identitária. Exemplo didático: o caso hondurenho de Lempira (herói indígena). Um documento de arquivo (pedido de hidalguia a Felipe II) contradiz a versão escolar de que teria sido morto “à traição” — mas a reação emocional em sala de aula mostra como mitos resistem às evidências.
A lição: identidades constroem-se contra um “Outro”. Para as nações americanas, o “outro” foi (e às vezes é) a Espanha; para os espanhóis, foram “os índios” (na gramática histórica do período). De ambos os lados, produzem-se discursos justificativos e críticos. O professor encerra apontando que assistimos, hoje, a um revival do indigenismo, sinal de que a disputa pela memória segue viva.
