Carol Pimentel e a arte de resistir com histórias

Há momentos em que o propósito de um projeto se ilumina de maneira especial — e a entrevista com Carol Pimentel foi um desses. Quando li a mensagem dela, repleta de generosidade e entusiasmo, senti que o Cultura & Resiliência ganhava um novo fôlego. Carol aceitou participar com doçura e simplicidade, dizendo que achou o projeto lindo e que se sentiu encantada com o convite. Sua resposta veio acompanhada de uma humanidade que emociona. Esse gesto tão cotidiano e real me lembrou do que há de mais essencial no projeto — o encontro entre pessoas que vivem a arte com verdade, conciliando criação, trabalho e vida.

A mulher que mudou o universo dos quadrinhos

Carol Pimentel é um nome que marcou profundamente a história dos quadrinhos no Brasil. Foi a primeira mulher a ocupar o cargo de editora-chefe da Marvel no país, um espaço que por décadas foi dominado por homens. Além disso, é mestre em tradução de histórias em quadrinhos, autora do livro Tradução de Histórias em Quadrinhos: Teoria e Prática (2018). Mas, mais do que títulos, sua trajetória é feita de escolhas movidas por paixão e coragem — escolhas que refletem a essência do Cultura & Resiliência: a arte como força de continuidade e recomeço.

Durante a conversa, Carol contou que sua relação com os quadrinhos nasceu na infância, num tempo sem computador ou celular, quando a leitura era um hábito cultivado

“Na minha época não tinha computador ou celular, então a gente lia muito e quadrinho era uma coisa mágica. Voce ganhava nas férias e voce ia ficar com ele um tempão. Ia ler e reler muitas vezes.”

Da Astrofísica ao mundo das HQs

Ainda assim, a vida a levou por outros caminhos: formou-se em Física pela USP e chegou a ser diretora da Escola Municipal de Astrofísica em São Paulo. Mas foi justamente ali que percebeu algo essencial — ao tentar organizar uma semana de ficção científica e ter sua ideia vetada, entendeu que não poderia seguir em um ambiente que limitava sua criatividade. Assim, decidiu retornar ao que mais amava: os quadrinhos.

Com a base em Exatas, precisou cursar diversas disciplinas na área de Letras até ser aceita para o mestrado em tradução de HQs. Foi um recomeço exigente, mas também libertador. Sua trajetória mostra que resiliência não é apenas resistir, mas transformar a resistência em caminho criativo.

Histórias que curam e denunciam

Ao longo da entrevista, Carol destacou duas obras que a marcaram: Núbia pra Valer, da DC Teens, e Selvagem Litoral. A primeira, sobre uma jovem heroína negra, é um retrato poderoso da luta contra o racismo e a violência nas escolas. A segunda, uma graphic novel de tom histórico, retrata os europeus da Companhia das Índias Orientais como invasores — uma leitura crítica e delicada da colonização. Em ambas, a arte dos quadrinhos cumpre um papel essencial: traduz o mundo e suas feridas com sensibilidade, levando esperança, crítica e empatia a leitores de todas as idades.

“Eu tenho o costume de ler todo o material antes de uma tradução, para sentir aonde a história está indo, nomes e temas, coisas que preciso mais atenção.

O momento mais tocante da entrevista foi quando Carol falou das dificuldades que enfrentou ao assumir a edição oficial das linhas Homem-Aranha e X-Men da Marvel. Foi alvo de ataques virtuais, muitos de cunho machista, questionando sua competência e insinuando que só havia conseguido o cargo por meios antiéticos. Chegou a encerrar sua conta no Facebook e quase desistiu. Mas resistiu. E sua resposta aos agressores foi clara e digna: “Que esqueçam o gênero e vejam o trabalho”.

Essa frase sintetiza não apenas sua postura, mas o próprio espírito da arte — seguir criando mesmo quando o mundo tenta silenciar. Carol seguiu editando, traduzindo e inspirando. Continuou abrindo espaço e provando que o talento não tem gênero, apenas voz.

A arte como origem e destino

Os quadrinhos, assim como a música, a literatura ou a pintura, são maneiras de traduzir o indizível. São arte popular e, ao mesmo tempo, arte profunda. São resistência em papel, cor e palavra.

“Arte é fundamental, li isso certa vez “Antes de falarmos, cantamos; antes de escrevermos, desenhamos”. O ser humano é artístico por natureza e muitas vezes é tolhido pelos anos, por moldes que tentamos nos encaixar e que nos é colocado e aos poucos vamos minando a arte dentro de nós. E os quadrinhos tem mensagens maravilhosas. Um exemplo lindo disso é Mauricio de Sousa que encantou gerações.”

O Cultura & Resiliência se fortalece com histórias como a de Carol Pimentel. Porque cada entrevista não é apenas um registro — é um encontro. E cada encontro é uma lembrança viva de que, mesmo em tempos difíceis, a arte continua sendo o fio invisível que sustenta o sentido de existir.


Texto: Priscilla Novaes
📍 Entrevista realizada no projeto Cultura & Resiliência — Novembro de 2025