Wardruna (guardião dos segredos): A arte como ponte entre humanidade e natureza

O chamado ancestral em Bjørnesyster, Bjørnebror — Wardruna

Há músicas que carregam um poderosa mensagem.
Quando Bjørnesyster, Bjørnebror começa, sentimos que não ouvimos apenas sons — ouvimos uma lembrança antiga, uma pulsação que atravessa os séculos e nos convida a retornar.

“Bjørnesyster, Bjørnebror / Eg leitar støtt, finn berre spor…”
“Irmã Ursa, Irmão Urso / Eu procuro sempre, mas só encontro rastros.”

Assim se abre a canção do grupo norueguês Wardruna, liderado por Einar Selvik. Com raízes na espiritualidade nórdica, o projeto é mais do que música: é uma tentativa de reatar o elo entre humanidade, natureza e sagrado.

 O som e o lugar

O videoclipe de “Himinndotter (Sky-Daughter)” do Wardruna foi gravado no Parque Nacional de Rondane, na Noruega. O clipe foi filmado para o álbum Birna, que tem como tema central os guardas florestais e os cuidados com a natureza. 

Einar Selvik já disse em entrevistas que compor é uma forma de “ouvir o que o vento e as pedras dizem”. Em Bjørnesyster, Bjørnebror, essa escuta se transforma em rito sonoro: cada nota parece um passo dentro da mata, cada pausa, um sopro do invisível.

A letra é uma busca espiritual: o eu lírico procura a “irmã da floresta”, a Birna — palavra que em nórdico antigo significa ursa.

“Vis meg kven eg var og er…”
“Mostra-me quem eu fui e quem sou.”

É um pedido que atravessa o tempo: conhecer-se de novo à luz da natureza, reencontrar o elo perdido entre corpo e a natureza.

A ursa e a ancestralidade

Na tradição nórdica e sámi, o urso é símbolo de força, sabedoria e parentesco. Era considerado irmão dos homens, guardião das florestas, e sua caça exigia ritos de respeito e gratidão.
Ao evocar a “Irmã Ursa”, a canção nos lembra que a natureza não é objeto, mas parente. Que o selvagem, o intuitivo, o misterioso fazem parte daquilo que nos constitui.

“Før elva vart temt / Og mannahugen vendt”
“Antes que o rio fosse domado / E o coração humano se desviasse.”

Nesse verso, a canção toca a ferida da modernidade. Quando o rio foi domado — símbolo da força vital contida — o humano desviou o coração.
O progresso que prometia controle trouxe esquecimento. A natureza, antes espelho do divino, tornou-se recurso.

Wardruna, porém, não canta para condenar o presente, mas para lembrar que ainda há caminho de volta.

O retorno à escuta

“Himinndotter, mi syster i skogen / Hold mi hand, lat oss vandra steg for steg gjønå mørket og ljos.”
“Filha do Céu, minha irmã na floresta / Segura minha mão, vamos caminhar passo a passo através da escuridão e da luz.”

Aqui, a floresta se torna guia — não como paisagem externa, mas como espelho da alma. A travessia “entre a escuridão e a luz” é também interior: a reconciliação entre razão e instinto, entre progresso e poesia, entre humano e sagrado.

O olhar da antropologia cultural

A antropologia cultural ensina que uma civilização pode ser compreendida pela forma como trata a terra que a sustenta. Para os povos antigos, o território não era posse, mas extensão da alma. Entre os povos nórdicos e originários do Norte, essa relação era de reciprocidade. Vivendo em climas rigorosos, eles dependiam de um equilíbrio delicado com o ambiente.

🌿 Caça e coleta: os primeiros povos nórdicos eram caçadores e coletores. Caçar uma rena, pescar ou colher frutos não era um ato trivial — era parte de um ciclo sagrado de sobrevivência. Cada gesto trazia gratidão. Nada se desperdiçava.

Navegação: esses povos tornaram-se exímios navegadores, capazes de cruzar mares gelados guiando-se pelas estrelas e pelo vento. A experiência da viagem era também espiritual: navegar era confiar nos elementos, conhecer o ritmo do mar e do sol da meia-noite.

❄️ Relação com o ambiente: o clima extremo moldou um senso de comunidade e de interdependência. Cada floresta e cada rio possuíam um nome, uma história e um espírito guardião.

Esses modos de vida não eram “primitivos”, mas profundamente ecológicos e simbólicos. Eles revelam o que a antropologia contemporânea redescobriu: a natureza é também uma construção cultural — um espelho das crenças e valores humanos.

Da escuta ancestral à urgência contemporânea

Hoje, os países nórdicos continuam a nutrir uma forte consciência ecológica e muitos outros se unem nessa mesma missão. Enfrentam os desafios da poluição e das mudanças climáticas com políticas de preservação e ciência aplicada. Pesquisadores colaboram para proteger o Ártico, reduzir emissões e eliminar substâncias químicas perigosas do ambiente.

Esses esforços, embora científicos, guardam algo da antiga sabedoria dos bardos e dos druidas: a noção de que tudo está interligado. Que o equilíbrio do planeta depende do equilíbrio humano.

Em Bjørnesyster, Bjørnebror, a arte cumpre a mesma função. Ela não condena o presente — ela recorda. Convida à escuta. É como se dissesse: “Volta, lembra quem tu és.”

O retorno à Terra

A antropologia cultural mostra que toda cultura começa com um gesto: o cuidado.
Cuidar da terra é cuidar do espírito. Os povos antigos sabiam disso. Nós, modernos, ainda estamos aprendendo de novo.

Hoje, artistas, cientistas e povos indígenas unem suas vozes para preservar o que resta: florestas, rios, oceanos — e a própria memória da Terra. São herdeiros de um mesmo chamado: o de reatar o elo que se rompeu.

Wardruna nos recorda que a cura começa pela escuta.
Escutar o vento, o som da água, o ritmo das estações — e entender que neles pulsa o mesmo coração que um dia se desviou. Quando o canto e a floresta voltarem a respirar no mesmo ritmo, talvez possamos, enfim, dizer que reencontramos o caminho.

 O que essa canção nos lembra

Em tempos de algoritmos e pressa, Bjørnesyster, Bjørnebror nos convida a desacelerar. A lembrar que há essa sabedoria anterior às máquinas — a linguagem silenciosa da terra, dos ciclos, do vento.

Outros artistas também se erguem com a mesma consciência. Da Noruega ao Brasil, da poesia dos povos originários às trilhas sonoras meditativas do norte europeu, artistas transformam a dor da Terra em voz. Essas vozes que a escutam se multiplicam. Músicos, escritores, cineastas e poetas entendem que a arte é uma forma de defesa da vida. Através de cada som, cor e palavra, erguem-se pontes entre o humano e o planeta — pontes que talvez ainda nos salvem.

E quando a humanidade enfim compreender que cuidar da Terra é cuidar de si mesma,
quando o canto e a floresta voltarem a respirar no mesmo ritmo —
então, talvez, possamos dizer que reencontramos o caminho.


Música&Linguagens | Histórias & Música– Novembro 2025