Hoje vivi mais um daqueles momentos que fazem o Cultura & Resiliência ganhar ainda mais sentido. Recebi a confirmação da Carol Pimentel, primeira mulher a ser editora-chefe da Marvel no Brasil, e uma das maiores referências quando se fala em tradução e edição de quadrinhos no país. Ela também é mestra em tradução de histórias em quadrinhos, autora do livro Tradução de Histórias em Quadrinhos: Teoria e Prática (2018) e vencedora de três prêmios HQ MIX.
Quando li a resposta dela, senti uma alegria imensa. Carol foi extremamente gentil e receptiva — escreveu dizendo que achou o projeto lindo, que ficou encantada com o convite e que topava participar da entrevista. Mencionou que está com uma filha pequena, por isso prefere se comunicar por e-mail ou WhatsApp. Essa resposta tão humana e próxima me fez lembrar do quanto o Cultura & Resiliência tem sido também um espaço de encontro entre pessoas que vivem a arte com verdade, mesmo em meio às demandas e desafios da vida cotidiana.
Enviei o e-mail com um tom leve e acolhedor, propondo uma conversa sobre sua trajetória e o papel da arte — especialmente dos quadrinhos e da tradução — como força de criação e resistência cultural. Ofereci duas opções de formato: entrevista por escrito (que tem sido a preferida de outros convidados) ou por videochamada, deixando ela à vontade para escolher o que for mais confortável.
Enquanto escrevia, pensei em como os quadrinhos são uma forma poderosa de arte resiliente. Eles unem imagem e palavra, transitam entre mundos e falam com pessoas de todas as idades, alguns foram criados e escrito em meio á guerras e tempos de caos. A Carol, com sua trajetória, representa muito bem esse elo entre cultura popular e resistência — uma mulher que abriu caminhos e construiu pontes entre linguagens, países e leitores.
Essas pequenas trocas, esses “sim” que chegam cheios de afeto, me lembram por que comecei este projeto: para mostrar que a arte, em todas as suas formas, é um fio de esperança e continuidade. Mesmo em meio às crises, seguimos contando histórias.
Entrevista Carol Pimentel
- Como nasceu a sua relação com o universo dos quadrinhos? Em que momento você percebeu que queria seguir esse caminho e transformar essa paixão em uma trajetória profissional? -A paixão por quadrinhos começou na infância, numa época sem computador ou celular, onde a leitura era um hábito forte e os quadrinhos eram considerados mágicos. A narradora lia e relia muitos gibis, incentivada por seu pai, guardando e valorizando cada exemplar.Apesar da paixão inicial, o contato com os quadrinhos foi perdido durante a faculdade, quando a narradora se formou em Física pela USP. Posteriormente, ela trabalhou como diretora da Escola Municipal de Astrofísica em São Paulo.Ao tentar organizar uma semana de ficção científica na Escola de Astrofísica, abordando temas como teletransporte e raios gama, a ideia foi vetada. Essa frustração a levou a perceber que não podia mais trabalhar em algo que a impedia de explorar suas paixões, decidindo então voltar ao que mais gostava: os quadrinhos. Com sua formação em Exatas, a narradora buscou um mestrado em tradução de quadrinhos. Foi necessário cursar diversas disciplinas adicionais na área de Letras para ser aceita e reconhecida, culminando na obtenção do mestrado especializado em tradução de quadrinhos.
- Quadrinhos sempre dialogaram com o mundo ao redor. Há alguma obra que você editou ou traduziu que te marcou especialmente por trazer uma mensagem de esperança, coragem ou crítica social? – Carol destaca dois quadrinhos que a marcaram profundamente durante seu trabalho de tradução. O primeiro é ‘Núbia pra Valer’ da DC Teens, uma linha da DC voltada para o público adolescente. O segundo é ‘Selvagem Litoral’, descrito como uma graphic novel com tema mais adulto.Este quadrinho é elogiado por ser muito interessante, delicado e sutil. A oradora costuma ler todo o material antes de traduzir para ter uma visão geral. Ela notou uma mensagem na página de créditos que alertava sobre gatilhos de conteúdo, o que a levou a reproduzir essa frase na tradução. A história, sobre uma irmã da Mulher-Maravilha, é descrita como uma crítica social forte, abordando temas como atiradores em escolas e racismo, sendo muito emocionante e impactante para a oradora.O segundo quadrinho, ‘Selvagem Litoral’, é classificado mais como uma graphic novel e possui um tema adulto. A oradora achou a obra maravilhosa por sua correspondência histórica, onde os europeus da Companhia das Índias Orientais são tratados como invasores.
- Como mulher que conquistou um espaço tão importante no universo dos quadrinhos, houve um momento que voce teve que ser bem resiliente? Pode contar? – Carol descreve o início de sua carreira como muito difícil, especialmente quando assumiu a edição oficial das linhas Homem-Aranha e X-Men da Marvel. Nesse período, ela foi alvo de uma série de ataques pessoais em redes sociais, como o Facebook.Os ataques eram predominantemente de homens, insinuando que ela havia conseguido o emprego de forma antiética, questionando ‘o que tinha feito’ e ‘com quantas pessoas tinha saído’ para obter a posição, fazendo referência ao ‘teste do sofá’.Diante da severidade dos ataques, a narradora fechou sua conta no Facebook, perdendo fotos e postagens. Ela chegou a pensar em sair do trabalho, mas decidiu se afastar das redes sociais. Sua resposta aos agressores foi um desejo de que eles ‘esquecessem o gênero e passassem a ver o trabalho’.Apesar de ser a única mulher em uma equipe de 16 homens na época, a narradora recebeu muito apoio e gentileza de seus colegas de trabalho, o que foi fundamental para ela lidar com a situação.
5. Na sua visão, qual é o papel da arte — especialmente a arte dos desenhos, quadrinhos e histórias — na vida humana?- A arte é fundamental e inata ao ser humano, manifestando-se antes mesmo da fala (cantar), da caminhada (dançar) e da escrita (desenhar). No entanto, a sociedade muitas vezes reprime essa expressão natural, encaixando as pessoas em ‘caixinhas’ e moldes que sufocam a arte interior.A palestrante considera-se sortuda por poder trabalhar exclusivamente com arte, reconhecendo que muitos precisam se desdobrar em outras áreas para sobreviver. Ela vê como mágico poder continuar a apreciar e produzir arte, mantendo viva essa paixão.Os quadrinhos são apresentados como uma forma maravilhosa de arte, capazes de ensinar e transmitir mensagens profundas. Mauricio de Souza é um exemplo de como eles alfabetizaram milhares de pessoas. Além disso, os quadrinhos abordam temas complexos e importantes, como momentos históricos de conquista, questões homossexuais, discussões sobre atiradores em escolas e temas raciais, consolidando-se como um meio de transporte artístico duradouro.Há uma grande admiração por artistas que conseguem sintetizar ideias complexas em poucas tiras. Laerte é destacada por sua habilidade em condensar cenários políticos em apenas três quadros, e João Montanar também é citado como um artista muito admirado.
