Antes de ser país, o Brasil foi sonho. Da ilha mítica dos celtas às canções do sertão, a história revela um fio invisível que une gaitas, violas e memórias — um Atlântico sonoro onde o passado ainda ressoa. Essas lendas que atravessam oceanos antes de se tornarem geografia. O nome Brasil, antes de ser o país que conhecemos, já existia nas cartas e sonhos da Idade Média europeia — uma ilha mítica, “terra dos bem-afortunados”, “ilha da felicidade”, como lembram os antigos mapas célticos. Muito antes de Cabral, o Brasil já era imaginado, não como colônia, mas como promessa.
Nos mapas medievais da Europa, entre brumas e monstros marinhos, aparecia uma ilha a oeste da Irlanda: Hy-Brasil, O’Brasil, Ilha dos Bem-Afortunados. Um nome celta que evocava a “terra dos felizes”, o lugar prometido aos que buscavam o além do mundo conhecido. Era o eco de um imaginário onde o mar era fronteira e mistério, onde a geografia se confundia com a esperança.
Séculos depois, quando os navegadores portugueses lançaram seus olhos sobre o Novo Mundo, esse nome ancestral parecia já os esperar. Talvez tenham sentido que aquela costa tropical — exuberante, quente, misteriosa — era o reflexo da antiga ilha das lendas. E o nome ficou. O que antes era uma utopia do Ocidente se tornou o nome de uma terra real.
Essa origem simbólica do “Brasil” é mais do que curiosa; ela revela como as culturas se entrelaçam através do tempo. O mito celta da “terra dos bem-aventurados” se fundiu ao sonho português de uma “Terra de Santa Cruz”. Entre o sagrado e o mítico, o país nasceu de uma fusão de imaginários — europeu, indígena e, depois, africano. Um caldeirão de memórias e espiritualidades que moldaria nossa identidade.
Hoje, quando tentamos compreender quem somos como povo, talvez valha resgatar esse sentido primeiro: o Brasil como ilha dos bem-aventurados, como promessa de beleza e renovação. Não um paraíso ingênuo, mas um território onde culturas dialogam, resistem e florescem e continua a contar a história.
Entre as ondas do Atlântico, muito antes de as caravelas portuguesas tocarem o litoral da Bahia, viajavam não apenas homens e mercadorias, mas também sons, ritmos e memórias. É possível que, ao pisar nestas terras, o primeiro português tenha trazido consigo uma gaita — e com ela, o sopro ancestral da Europa celta.
A Carta de Pero Vaz de Caminha, de 1500, menciona um gaiteiro tocando diante dos povos indígenas. Esse pequeno gesto — o som que uniu mundos pela primeira vez — é símbolo de algo maior: o início de uma ponte musical entre o Velho e o Novo Mundo. A gaita não veio sozinha; vieram também as formas de expressão do mundo galego, ibérico e medieval que se reinventariam aqui, nos sertões e nas vilas do Brasil.
Segundo Caminha, no quinto dia após a chegada, ou seja, no domingo, 25 de abril [de 1500], o capitão foi com uma equipe até perto da praia de onde os índios lhe acenavam e, satisfeita a curiosidade – conforme escrevia:
“viemo-nos às naus, a comer, tangendo trombetas e gaitas, sem mais os constranger”. Mais tarde, ainda nesse domingo, resolveram descer em terra para tomar conhecimento de um rio que ali desaguava, “mas também para folgarmos” e, então, um antigo almoxarife de Santarém chamado Diogo Dias, por “ser homem gracioso e de prazer”, resolveu atravessar o rio para o lado em que se encontravam os índios: “E levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se a dançar com eles, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam, e andavam com ele muito bem ao som da gaita” (grifo nosso).
A gaita que dançou com o povo
Pesquisadores como Norberto Pablo Cirio, nosso sempre querido José Ramos Tinhorão e músicos como Carlos Núñez, demonstram que a gaita galega não desapareceu quando chegou à América. Pelo contrário: ela se misturou, ressurgiu em festas religiosas, ecoou nas mãos de escravos libertos, de indígenas, de camponeses.
Esses sons contam que o Brasil não nasceu apenas da cruz e da espada, mas também da música e da convivência. O ritmo da gaita misturou-se ao batuque africano, ao canto indígena e, séculos depois, ao acordeão que os sertanejos chamariam de sanfona — palavra irmã da gaita. Assim, o instrumento medieval se dissolveu na paisagem sonora do Nordeste, tornando-se parte da alma popular.
Do sertão à Galícia: a mesma saudade
O mundo medieval que atravessou o Atlântico não se limitou à música. Trouxe consigo um modo de sentir o tempo e a terra. Nas canções do sertão, Ariano Suassuna ouvia “a música modal”, herdeira dos modos gregorianos da Idade Média. Na viola caipira, Almir Sater reconhecia o mesmo espírito da antiga viola das cantigas galego-portuguesas. A afinação aberta, os bordões e as melodias em terças são parentes diretos do alaúde e da harpa celta.
A viola, como a gaita, guardou o mistério das coisas simples. Seu som não é apenas harmonia: é memória. E talvez por isso o sertanejo — mesmo transformado em fenômeno pop — continue evocando algo ancestral, um eco de aldeia, uma nostalgia que não se explica, apenas se sente.
A herança galego-portuguesa na música brasileira
Quando estudamos a formação da música brasileira, percebemos que há uma base muito antiga por trás de tudo isso — algo que vem da própria estrutura modal europeia medieval. Na música tradicional, chamamos de modo ou modalidade aquilo que antecede o sistema tonal moderno (dó maior, lá menor etc.). É o mesmo princípio que encontramos no canto gregoriano e nas canções barrocas populares, transmitidas de geração em geração.

Esses modos e formas medievais chegaram ao Brasil por meio da tradição galego-portuguesa, que foi decisiva na formação da cultura lusitana. Essa herança, mesmo que de modo inconsciente, continua muito presente na música brasileira de hoje — especialmente no Nordeste.
Ainda que não se perceba logo de início, há uma influência profunda desses antigos modos melódicos e poéticos.
O escritor Ariano Suassuna falava frequentemente sobre isso: sobre como a língua galega e a portuguesa antiga compartilham raízes comuns, e como essa herança linguística e musical se manifesta na cultura nordestina. Ele via no repente, no aboio, no maracatu e no coco um eco dos cantos medievais galego-portugueses — como as cantigas de amigo e as cantigas de amor.
Para Suassuna, o Nordeste seria uma espécie de “ponte viva” entre a Iberia medieval e a América contemporânea. O som da viola, o canto melismático, o ritmo marcado e o lirismo poético do sertão lembram, em essência, o espírito das tradições galegas e portuguesas. Ele via nessa continuidade não apenas um traço folclórico, mas uma prova de resistência cultural, uma maneira de afirmar que o Brasil não nasceu do nada — ele brota de uma longa linhagem artística e espiritual que atravessa séculos e oceanos.
Assim, quando ouvimos uma toada nordestina, um baião ou mesmo um repente, podemos perceber — por baixo da superfície moderna — a presença antiga de modos gregorianos, escalas modais e harmonias herdadas da música europeia pré-clássica. Essa fusão entre o erudito e o popular, entre o sagrado e o profano, é um dos sinais mais belos da nossa identidade cultural mestiça, onde o som do passado continua vivo, reinventado pelo tempo e pelo povo.
A viagem que nunca terminou
A música, mais do que qualquer documento, guarda as pegadas dessa travessia. Na rabeca nordestina ecoa o violino medieval; no pandeiro e na sanfona, o pulsar das festas ibéricas; na voz sertaneja, o trovador que narra, como faziam os bardos. É o mesmo fio que une Caetano Veloso e Gilberto Gil a Milton Nascimento e Hermeto Pascoal — músicos que, como notou a professora Ermelinda Paz, mantêm viva a herança modal e medieval dentro da MPB, transcendendo o rótulo de “folclore” e transformando-o em linguagem universal.
Perceber isso é compreender que o Brasil é mais antigo do que imagina. Por baixo das camadas coloniais e modernas, há um chão sonoro que vem da Galícia, de Portugal, da Bretanha e da Irlanda. Um chão de gaitas, violas e rezas, de festas que misturam o sagrado e o profano, de danças que giram como o tempo.
A arte como travessia
Para nós, artistas e estudiosos, esse legado é mais do que uma curiosidade histórica: é um chamado. O “mundo medieval” que chegou à América continua vivo em cada canção que nasce da terra e do coração. Ser uma voz cultural hoje é continuar essa viagem — não de conquista, mas de reconexão.
Quando um músico do sertão toca sua viola, quando um gaitero galego sopra seu instrumento em Buenos Aires, ou quando uma cantora brasileira mistura o timbre andino ao celta, a história se refaz. As distâncias desaparecem, e o Atlântico deixa de ser fronteira para se tornar espelho.
Porque, no fundo, a música sempre soube o que a história às vezes esquece: somos filhos de uma mesma melodia que atravessou oceanos.
Conclusão
No fim, talvez o Brasil seja exatamente isso: uma melodia que nunca terminou. Uma terra sonhada por navegadores e poetas, cantada por gaitas e violas, reinventada por cada voz que se levanta para contar sua história. O Atlântico, que um dia separou mundos, hoje soa como um grande instrumento, onde cada povo toca sua nota — e é dessa mistura que nasce o nosso som.
Enquanto o mundo corre atrás do novo, há quem ainda escute o antigo que nos sustenta: o sopro da gaita, o dedilhar da viola, o chamado do mar. É esse o Brasil que permanece — não o dos mitos adormecidos, mas o que desperta sempre que alguém transforma memória em canção. Porque, no fim das contas, ser artista é continuar atravessando oceanos, com o coração afinado entre passado e esperança.
📚 Referências
FUNARI, Pedro Paulo A. “‘Brasil’, um nome celta que habitava o imaginário medieval.” Folha de S. Paulo, 1997.
TINHORÃO, José Ramos. História social da música brasileira. São Paulo: Editora 34, 1998.
HAYWOOD, John. Os Celtas: a história e a cultura de um povo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.
CARDIM, Fernão. Tratados da terra e da gente do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1980.
LUPI, João. Os brasileiros celtas. Artigo do Programa de Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas, Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), 2018.
Revista da Academia Nacional de Música – Volume X
• O Modalismo e suas incursões no universo da criação musical brasileira

Texto: Priscilla Novaes
📍 Música&Linguagens | História & Música — Outubro de 2025
