Carlos Cabezas: música como ponte entre tradição e modernidade

Carlos Cabezas é músico, compositor, multi-instrumentista e tenor. Como vocalista do lendário grupo Los Jaivas, ele ocupa um espaço fundamental na cena musical chilena e latino-americana. Além da carreira artística, Cabezas também é aluno do Instituto de Música da PUCV (IMUS), onde vem desenvolvendo um forte vínculo com a comunidade universitária. Nos últimos anos, aproximou a música folclórica das novas gerações com inúmeras apresentações em faculdades e, mais recentemente, participou da jornada de bienvenida +Arte +Cultura, em março de 2025. Como ele mesmo afirma:

“As novas gerações têm que conhecer a nossa cultura e a única forma é ir tocar nos lugares onde estão os jovens.”

Para compreender a dimensão de sua trajetória, é preciso lembrar a história de Los Jaivas. Fundada em 1963 na cidade de Viña del Mar, a banda nasceu da ousadia de unir o rock progressivo às sonoridades andinas, ao folclore latino-americano e à poesia de autores como Pablo Neruda e Gabriela Mistral. Ao longo de mais de seis décadas, transformou-se em um dos grupos mais importantes da música do continente, deixando canções que atravessaram gerações e se tornaram parte da identidade cultural do Chile.

Na entrevista, Cabezas recorda episódios marcantes. A dolorosa perda de Gato Alquinta revelou a importância de seu legado e a união com o público:

“Sim a partida do Gato Alquinta foi terrível… vimos o quanto era importante o seu legado na banda e o apoio incondicional do povo. Outro momento inesquecível foi o concerto em Machu Picchu, em 2011, quando a própria história se tornou palco.”

Esses acontecimentos mostram como a música da banda sempre esteve conectada com a vida coletiva. Isso se evidencia também em tempos de crise. Carlos lembra da solidariedade após o terremoto de 2010 e do papel da música no Estallido Social de 2019, quando milhões de chilenos saíram às ruas exigindo mudanças sociais, políticas e econômicas. Nesse contexto, a arte se converteu em voz de resistência: Nos momentos de crise… tocamos para ajudar o povo e também em alguns eventos no estallido social.”

Com olhar atento ao presente, Cabezas defende a importância de unir tradição e modernidade:

“Eu acredito que os autores e intérpretes devem se atrever a mergulhar na música dos povos originários… Eu fiz isso: um DJ de Trance me pediu uma colaboração e eu gravei umas quenas, e ficou perfeito.”

Às novas gerações de músicos, seu conselho é direto: Que as formas dos sistemas mudam e que não deixem de compor, gravar, porque a música não deve parar.”
E sobre a resiliência, ele acrescenta: “Sempre é bom fazer silêncio para ouvir o outro, saber como está, o que pensa, e estender a mão.”

Assim, Carlos Cabezas nos recorda que Los Jaivas não são apenas uma banda, mas um verdadeiro patrimônio cultural da América Latina. Sua música continua sendo ponte entre passado e presente, tradição e modernidade, resistência e esperança — prova de que, mesmo em tempos de crise, a cultura segue florescendo e mantendo viva a identidade dos povos.

Essa entrevista se insere no projeto Cultura & Resiliência, que busca justamente compreender e compartilhar histórias de artistas que, em tempos de crise, transformaram sua arte em refúgio, resistência e ponte entre pessoas. Ao ouvir Carlos Cabezas, vemos como a música pode ser raiz e, ao mesmo tempo, flor — firme na tradição, mas aberta ao novo.

É nesse diálogo entre memória e futuro, tradição e modernidade, que encontramos o sentido mais profundo da resiliência: a capacidade de continuar criando, cantando e acreditando, mesmo quando tudo parece ruir. E é dessa força que queremos continuar falando, porque, como bem disse Carlos, “a música não deve parar”.


Texto: Priscilla Novaes
📍 Entrevista realizada no projeto Cultura & Resiliência — Agosto de 2025