Hoje trago uma conversa que me marcou profundamente. Tive a honra de entrevistar Elton Cunha — mestre em gestão de desastres, professor, consultor, e alguém que, além de toda a trajetória acadêmica e profissional em momentos críticos, encontra na música um espaço silencioso de cura e resistência.
Elton não se considera artista. Mas é impossível não perceber como sua ligação com a flauta e a gaita de foles traduz exatamente o espírito deste projeto: a arte como força que atravessa tempos difíceis, sustentando a vida mesmo fora dos palcos.
Ele contou que sua paixão pela gaita começou ainda em 1995, ao assistir ao filme Coração Valente:
“Me encantei com a sonoridade e o design instantaneamente. Mas foi depois de muitos anos que realmente tive contato direto com uma gaita de foles e comecei a estudar a mesma.”
Sua pesquisa o levou a descobrir que a gaita de foles não era exclusiva da Escócia. Na Península Ibérica, sobretudo em Portugal e na Galícia, existem versões ancestrais do instrumento — algumas até mais antigas que as escocesas. Hoje, Elton toca não apenas flauta doce como prática de base, mas também gaitas galegas, inclusive uma GG2 e uma GG3. Ele lembra ainda que o primeiro instrumento musical europeu registrado no Brasil foi justamente uma gaita de foles, citada na Carta de Pero Vaz de Caminha.
Mas a conversa não parou na música. Perguntei como cultura e arte podem ajudar a atravessar crises, e Elton respondeu com uma força que não se esquece:
“A música tem um papel fundamental em uma sociedade. Muitas vezes a música é um grito de liberdade, de socorro, de omissão e amor. Falta muito isso no Brasil. Os desastres fazem parte de nossa existência, mas preferem ignorar esse fato e varrer para debaixo do tapete.”
Para ele, a arte não deveria estar à margem das políticas de prevenção e reconstrução. Pelo contrário:
“É na arte, é na música que aceitamos ouvir o que precisa ser ouvido, não através de políticos demagogos e promessas não realizadas. A arte conforta, a arte confronta o sistema, a arte muda sua visão de mundo, a arte te deixa mais humano.”
Na reta final, pedi que deixasse uma mensagem para quem se sente perdido diante das tantas crises atuais. Sua fala ecoa como um chamado à responsabilidade coletiva:
“Primeira coisa, enfrentar o desastre de frente, olho no olho. Todos temos responsabilidades sociais nos riscos de desastres. O principal de uma sociedade é ser cidadão de fato: cobrar, colaborar, denunciar, pressionar e se preparar.”
E encerrou com uma citação que parece escrita para os dias de hoje, retirada do primeiro Manual de Defesa Civil no Brasil (1942):
“Em matéria de Defesa Civil nada pode e nem deve ser improvisado. Tudo deve e pode ser previsto e organizado antes que o perigo seja desencadeado, pois que, em face do perigo, a improvisação equivale a uma irrecorrível sentença de morte.”
Com Elton Cunha, o projeto Cultura & Resiliência reafirma que a arte não é luxo ou distração. Ela é voz, é denúncia, é memória — e, sobretudo, é uma das maiores forças humanas para atravessar crises.

Texto: Priscilla Novaes
📍 Entrevista realizada no projeto Cultura & Resiliência — Agosto de 2025
