Na imensidão da cultura latino-americana, algumas vozes não apenas ecoam — elas resistem, reinventam-se e se tornam trincheiras vivas diante das transformações do mundo. A chilena Fabiola Ritchie, artista da voz, locutora e dubladora, é uma dessas vozes. Formada em Artes pela Universidade do Chile, sua trajetória reflete o caminho de quem compreendeu que a arte não se esgota em um único formato: ela se expande, se adapta e desafia os limites impostos pelas circunstâncias.
Descobrir-se no universo da dublagem não foi um acaso. Vinda da formação teatral, Fabiola logo percebeu que o palco era apenas uma das muitas paisagens possíveis da interpretação. A locução radiofônica, a publicidade televisiva e, finalmente, o mergulho profundo no mundo da dublagem internacional foram etapas de uma mesma busca: a de colocar a voz como instrumento vivo, capaz de contar histórias, emocionar e atravessar fronteiras invisíveis.
“Como artista da voz, me deparo diariamente com diferentes desafios. Para mim, o principal foi perceber que devo estar sempre preparada para abranger a maior quantidade de formatos possíveis e não me prender apenas a um. Por isso, por exemplo, procuro realizar o máximo de publicidade possível para rádio, TV e meios digitais. Em consequência, estou todos os dias me candidatando a castings.”
Mas o que mais impressiona é como sua fala revela a consciência de que a arte não sobrevive apenas da inspiração. Ela exige disciplina, investimento, aprendizado constante e um equilíbrio delicado entre criação e sobrevivência. Fabiola fala dos bastidores sem glamour, lembrando que manter um estúdio próprio, lidar com softwares, correr atrás de castings e alimentar redes sociais são desafios tão reais quanto o ato de interpretar. É nesse terreno, árduo e cotidiano, que se prova a resiliência do artista contemporâneo.
“A reflexão é que precisamos nos treinar e nos aperfeiçoar para que o nosso serviço como artistas da voz e o resultado do nosso trabalho nos diversos projetos sejam muito melhores que uma IA. Você e eu, como pessoas, temos infinitas possibilidades de oferecer matizes, humanidade, sensibilidade, ponto de vista e subtextos no trabalho interpretativo. E nisso temos nos apoiado muito entre colegas.”
Em tempos em que a inteligência artificial avança sobre territórios antes exclusivos das vozes humanas — audiolivros, publicidade, descrições de filmes —, Fabiola não se coloca como vítima da mudança, mas como alguém que enfrenta o desafio com lucidez. “O aprendizado contínuo é vital”, afirma, lembrando que a grande diferença humana está naquilo que nenhuma máquina é capaz de entregar: matizes, sensibilidade, subtexto, humanidade. É a arte como resistência diante da homogeneização tecnológica.
“Acredito também que é importante compreender a relevância do trabalho em grupo, do coletivo, de estar em contato com colegas dentro e fora do seu país. Isso abre a mente, enriquece a análise e abre portas além das próprias fronteiras. Para mim, como artista chilena, isso é superimportante, porque pertenço a uma sociedade que não é muito grande, onde muitas coisas estão centralizadas na capital. É extremamente necessário que a rede de contatos seja a mais ampla possível, sobretudo no campo da dublagem.”
Fabiola reconhece a importância da organização, do contato com colegas e da ampliação de redes além das fronteiras nacionais. Cita a experiência do México como referência e destaca a relevância da associação CHILEVOCES, que reúne artistas em busca de melhores condições. Sua postura é clara: resistir é também se unir, aprender com os outros, abrir caminhos coletivos.
O testemunho de Fabiola Ritchie nos lembra que a arte da voz é mais do que técnica — é ato político, cultural e humano. Sua trajetória mostra que reinventar-se diante das crises e dos novos tempos não é um gesto isolado, mas uma força que brota da consciência de que a cultura é, acima de tudo, um território de resiliência.
No Cultura & Resiliência, sua entrevista ecoa como um convite: a nunca esquecer que, diante de máquinas, algoritmos ou fronteiras, a voz humana segue sendo insubstituível.

Texto: Priscilla Novaes
📍 Entrevista realizada no projeto Cultura & Resiliência — Agosto de 2025
