Há descobertas que mudam não apenas o rumo da ciência, mas também a forma como enxergamos a nós mesmos. Foi isso que senti ao mergulhar no curso de Caio Fábio, O Futuro é Pré-Diluviano e nas descobertas arqueológica de Göbekli Tepe, na Turquia. Não se trata apenas de arqueologia ou curiosidade acadêmica; é um convite a revisitar as origens mais profundas da humanidade e a repensar a trajetória que nos trouxe até aqui.
No coração da Turquia, repousa Göbekli Tepe — um enigma talhado em pedra há mais de 11 mil anos. Ali, caçadores-coletores, supostamente “simples” e “primitivos”, ergueram monumentos monumentais que até hoje nos deixam sem fôlego. Como povos sem agricultura consolidada, sem roda e sem escrita, conseguiram mobilizar tamanha engenhosidade e sofisticação? Essa pergunta é mais do que um mistério arqueológico: é uma provocação à nossa visão de progresso linear.
Göbekli Tepe: o enigma de 11 mil anos
Caio lembra que “o topo da civilização humana está enterrado”. E, de fato, cada escavação parece revelar não apenas pedras e símbolos, mas também as falhas das nossas certezas históricas. O que chamamos de “origem” pode ser apenas um reinício. O que julgamos como “avanço” pode estar sobre ruínas de esplendores anteriores.
Göbekli Tepe e tantas outras descobertas nos colocam diante de uma tapeçaria de culturas soterradas — preservadas pelo tempo, pelo acaso ou até mesmo por escolhas humanas, como o enterro intencional daquele templo. Quando mito e arqueologia se encontram — seja no Dilúvio de Noé, em Gilgamesh, ou nas memórias ameríndias de inundações — percebemos que a história são todas essas memórias compartilhadas que atravessam milênios. Como discutimos em RUINAS QUE FALAM: A memória viva dos Povos Andinos, cada descoberta arqueológica desafia nossa percepção de progresso.
Esse diálogo entre ciência e mito, razão e imaginação, nos convida a superar as simplificações: nem o ser humano surgiu em um sopro há poucos milhares de anos, nem o passado pode ser reduzido a uma linha reta de evolução previsível. Cada pedra escavada revela que a humanidade sempre foi mais complexa, criativa e resiliente do que ousamos imaginar.
O futuro, então, não está apenas adiante de nós: ele pulsa nas camadas soterradas que aguardam ser redescobertas. Revisitar o passado é, em certa medida, projetar possibilidades para o amanhã. Se o futuro é “pré-diluviano”, como sugere Caio, talvez a nossa maior tarefa seja escutar o eco desse passado remoto, permitindo que ele nos ensine humildade, grandeza e o espanto diante do mistério humano.
Göbekli Tepe e o Véu da História
Se Göbekli Tepe já nos confronta com a necessidade de rever tudo o que pensávamos sobre os primórdios da civilização, precisamos ir ainda mais fundo: Isso nos mostra como a própria forma de narrar o passado molda o que chamamos de “verdade histórica”. A História, longe de ser apenas uma coleção de datas e fatos, é sempre atravessada por narrativas. Os lugares, os nomes e até as escavações arqueológicas são pontos de partida — mas a interpretação que fazemos deles é o que dá vida, sentido e impacto ao passado.
Göbekli Tepe, considerado um dos sítios arqueológicos mais antigos do mundo, é detalhado em estudos da UNESCO.
Assim, quando olhamos para Göbekli Tepe, não estamos apenas diante de pedras erguidas há 11.600 anos. Estamos diante de um abrir de véu, como Caio descreve. Uma nesga de luz que, uma vez revelada, muda para sempre a forma como enxergamos a humanidade: “o mundo inteiro nunca mais vai ser o mesmo, nem a história humana, nem a percepção de nada na mente e no coração de nenhum de nós.”
Esse é o ponto crucial: não é apenas sobre arqueologia, mas sobre como cada descoberta ressignifica nossa própria visão de mundo. O templo soterrado na Turquia não fala apenas do passado remoto — ele questiona o presente e projeta o futuro.
Se a verdade histórica também é narrativa, então nossa responsabilidade é dupla: cavar com rigor, mas também narrar com integridade. Cada pedaço de pedra, cada símbolo esculpido, cada mito antigo que ressoa nas tradições, é matéria-prima para construir não apenas a história acadêmica, mas a compreensão existencial de quem somos.
Narrativas da arte do passado
Entre os achados mais impressionantes de Göbekli Tepe — e dos sítios vizinhos como Karahan Tepe e Sayburç — despontam obras que desafiam nossa noção de “primitivo”. Não são simples relevos ou estátuas casuais: são declarações visuais poderosas de um passado que já via arte, narrativa e simbolismo com clareza, ( voce pode ler mais a fundo neste artigo na The art NewsPaper)

Recentemente, uma estátua em tamanho real de um javali (wild boar) foi descoberta no chamado “Estrutura D” de Göbekli Tepe. Feita de calcário, medindo cerca de 1,35 metros de comprimento por 0,70 metros de altura, ela está assentada sobre um banco de pedra decorado com relevo — símbolos entrelaçados: um H misterioso, um crescente lunar, duas serpentes e rostos humanos ou máscaras.
O que torna essa estátua ainda mais extraordinária é que foram encontrados resíduos de pigmento: vermelho, branco e preto adornam partes do corpo: a língua tingida de vermelho, e outras cores em detalhes da superfície. É a primeira estátua pintada conhecida desse período em Göbekli Tepe.
Paralelamente, em Sayburç (também no sudeste da Turquia), arqueólogos identificaram um conjunto de relevos gravados em bancos de pedra de um edifício comunal que formam possivelmente a cena narrativa mais antiga já registrada.
Nessa cena, figuras humanas são representadas interagindo com animais ferozes — dois leopardos, um touro — e numa das cenas, um homem segura seu pênis, em atitude frontal, sem reboque ou enfeite: uma assertividade visual crua. Outro indivíduo parece segurar uma serpente ou objeto ritualístico, talvez um chocalho, mostrando que não se trata apenas de representação anatômica, mas de narrativa, de simbologia e relação com o mundo animal, possivelmente com temas como poder, fertilidade, perigo, transcendência.
Um final que se abre em horizonte
Talvez seja essa a grande lição da História: não estamos apenas diante de ruínas antigas, mas diante de um espelho. E o reflexo que ele nos devolve é o de uma humanidade capaz de se reinventar, de sobreviver às águas, de reconstruir narrativas e, ainda assim, carregar consigo memórias que atravessam milênios.
O passado, quando desvelado, nunca é neutro. Ele transforma. E, ao transformar nossa percepção, abre horizontes que nenhum futuro pode apagar.
Conclusão
Göbekli Tepe é mais do que pedras antigas; é um testemunho da criatividade, da espiritualidade e do saber humano. Ao estudá-lo, não apenas aprendemos sobre nossos antepassados, mas também nos inspiramos a valorizar o conhecimento, a cultura e a história que moldam nosso presente e futuro.
📚 Referências
- Schmidt, K. (2010). Göbekli Tepe: A New Vision of Prehistoric Religion. Current Anthropology, 51(6), 735–768.
- Collins, B. (2019). The Archaeology of Early Temples in the Near East. Cambridge University Press.
- UNESCO. (2023). Göbekli Tepe World Heritage Site. Link

Texto: Priscilla Novaes
📍 Música&Linguagens | História & Arqueologia — Agosto de 2025
