
Hoje em uma nova empreitada de pesquisas, escrevendo sobre a entrevista que fiz com Pancho Alvarez ( que sairá semana que vem) pude, finalmente, completar assistindo ao documentário “Florêncio o cego dos villares” e fui impactada por essa historia.
Entre tantas vozes que mantiveram viva a tradição galega, uma se destaca com brilho singular: a de Florencio López Fernández, conhecido como “o cego dos Vilares”. Nascido em 13 de abril de 1914, em uma família agrícola, Florencio enfrentou desde cedo desafios extraordinários. Além de uma paralisia na infância, ele perdeu a visão devido à varíola, uma doença cruel que, naquele tempo, deixava marcas físicas e sociais profundas.
Apesar dessas adversidades, Florencio encontrou na música um caminho não apenas de sobrevivência, mas de expressão e celebração da vida. Nos anos em que a assistência social para pessoas cegas era limitada, muitos se dedicavam à música como forma de sustento e realização pessoal. Centros como a Escola para Surdos e Cegos de Santiago de Compostela ofereciam instrução musical, e jovens talentosos aprendiam com outros músicos cegos, criando uma rede de saber e tradição que atravessava gerações.
Florencio tornou-se mestre do violino, capaz de tocar muiñeiras, xotas e cantigas galegas com uma destreza impressionante. Mas sua habilidade técnica não era o único traço marcante: sua alegria contagiante e capacidade de socialização transformavam qualquer encontro em festa. Era comum vê-lo percorrendo vilas e cidades, acompanhado por amigos ou acolhido por famílias que reconheciam seu talento, levando música, histórias e sorrisos a todos os cantos. Cada apresentação sua era um evento: ele cantava, contava anedotas, dançava com o público e fazia com que as pessoas se sentissem parte daquela celebração.
Um dos aspectos mais impressionantes da sua prática era a independência artística. Florencio conseguia animar bailes inteiros sozinho, seu violino sustentando a festa e seu canto conduzindo a dança. Ao mesmo tempo, mantinha um repertório extensivo, que incluía romances, canções populares, instrumentais e improvisações que muitas vezes imitavam sons do cotidiano, como o movimento de carroças ou o ritmo do trabalho rural. Essa capacidade de improvisação e adaptação, herdada de uma tradição oral secular, o tornava único e insubstituível.
Além de músico, Florencio era um verdadeiro guardião da memória cultural da Galícia. Sua teca — a caixa onde guardava o violino e seus instrumentos — era quase sagrada, carregando consigo não apenas o objeto, mas as histórias, aventuras e vivências de toda uma vida dedicada à música. Por onde passava, deixava um legado de esperança, alegria e resistência cultural, sendo lembrado com carinho e admiração por todos que o conheceram. Ele não apenas tocava música; ele sustentava a identidade de um povo, transmitindo tradição e orgulho em cada nota.
Hoje, o nome de Florencio ressoa como um símbolo de resiliência musical e cultural, um exemplo de como a arte pode iluminar caminhos, superar limites e manter vivas as raízes de uma comunidade. Sua vida e obra nos lembram que, mesmo diante das maiores adversidades, a música é uma forma poderosa de resistência, capaz de transformar dificuldades em celebração e solidificar a memória coletiva de um povo.
Hoje, sinto-me profundamente grata por poder conhecer histórias tão incríveis. Histórias que me surpreendem, me emocionam e me motivam na minha própria arte. Cada narrativa, cada vivência, é uma inspiração que ecoa dentro de mim, lembrando-me do poder da música e da cultura para transformar vidas.
E comecei a pensar: como é maravilhoso que, com a internet, hoje possamos nos conectar com pessoas de outros países e culturas — algo que, em outro tempo, seria quase impossível. Por meio dessa invenção tão singular, pude mergulhar na trajetória de Florencio, Pancho, Vítor, Guieldu, Carlos Núñez e tantos outros. Cada uma dessas vidas me tocou de um jeito único, e tenho a sensação de que levarei um pouquinho de cada uma dessas histórias comigo, guardado no coração e traduzido em minha própria arte.
A internet, então, não é apenas uma ferramenta: é uma ponte mágica que nos permite viajar pelo mundo, atravessar séculos de tradições e nos conectar com a essência de pessoas que, de outro modo, talvez jamais tivéssemos encontrado. E eu me sinto privilegiada por poder carregar um pouco dessa riqueza dentro de mim.
