Nesta semana, mais um encontro que me marcou profundamente. Entre as tantas vozes que entrevistei para o projeto Cultura & Resiliência, a de Juninho Vitório trouxe um peso especial — talvez porque sua história fale diretamente ao coração daqueles que, como ele, já passaram por abismos e encontraram na música uma ponte para a luz.
Juninho é músico, cantor, compositor e também alguém que caminha com fé. Não uma fé ingênua ou moldada por discursos prontos, mas uma fé forjada na dor e no esforço de seguir mesmo quando tudo à volta parecia ruir. Ao longo da nossa conversa, pedi que ele compartilhasse o momento mais desafiador da sua vida — não apenas como artista, mas como ser humano. A resposta veio como um testemunho intenso, que me fez lembrar por que este projeto existe.
A música e a coragem
Ele contou sobre sua adolescência marcada por turbulências familiares. Aos 16 anos, viu sua casa se desestruturar. O pai, ausente desde os quatro, deixou marcas profundas. As traições conjugais e a perda de estabilidade familiar atingiram também sua mãe, que havia abandonado o trabalho para cuidar dele. Sem apoio, Juninho teve que amadurecer cedo demais. Trabalhou desde novo, enfrentou a solidão de morar sozinho ainda adolescente e aprendeu, na marra, a ser resiliente.
“A música se tornou um refúgio e um propósito: ajudar pessoas que, como eu, carregam dores, rejeições e aflições. Esse, sem dúvida, foi o maior desafio da minha vida”
Foi nesse cenário que nasceu Dores, a canção que ele descreve como a mais importante da sua vida. Não apenas por marcar o início de sua trajetória musical, mas por ter sido o grito que ele precisava dar ao mundo — e a si mesmo. “Naquele momento, pensei em desistir de tudo”, me contou, com os olhos firmes e a voz embargada. “Mas encontrei em Deus e na música uma razão para continuar.”

A arte, aqui, não foi um mero enfeite da vida, mas um recurso de sobrevivência. A música se transformou em abrigo, bússola e missão. Juninho compreendeu, a partir dessa experiência, que poderia tocar outras pessoas por meio das marcas que também carrega. E foi isso que fez: transformou sua dor em canção, sua rejeição em voz, sua solidão em testemunho.
“Lidar com essa mistura de sentimentos tão cedo, com poucos recursos, e ainda assim me manter de pé e encontrar um caminho. E esse caminho veio através da fé e da música.”
Histórias como a de Juninho Vitório revelam algo essencial: que a arte não apenas resiste ao caos — ela o transforma. E que por trás de cada artista há, muitas vezes, um sobrevivente.
A arte que sobrevive nos bastidores do mundo
Em tempos de crises sociais, econômicas e emocionais, é comum as pessoas acharem que os grandes nomes da música e da arte estejam distantes das dores cotidianas da maioria. Mas existe uma legião silenciosa de músicos, compositores, poetas e cantores que, nos bastidores de suas próprias lutas, renascem em força trazendo a beleza e a esperança com suas canções. São vozes que não se calam.
Juninho Vitorio é um desses poetas resilientes. Sua história nos lembra que a cultura não sobrevive apenas pelas instituições e pelas cifras. Ela persiste nos becos das cidades, nas igrejas, nas ruas, nas rodas de conversa e nos shows em que alguém decide compartilhar sua dor, sua fé e sua alegria em forma de som. São esses artistas que ajudam a manter viva a chama da humanidade.

Texto: Priscilla Novaes
📍 Entrevista realizada no projeto Cultura & Resiliência — Julho de 2025
