RUINAS QUE FALAM: A memória viva dos Povos Andinos

As ruínas de Machu Picchu, descobertas pelo professor norte-americano Hiram Bingham em 1911, tornaram-se um dos símbolos mais reconhecidos da civilização inca. No entanto, a própria ideia de “descoberta” revela um olhar eurocêntrico: por séculos, as comunidades andinas já habitavam e veneravam aquelas montanhas.

Essa contradição — entre o “descoberto” e o “já vivido” — expressa um dilema recorrente da história latino-americana: quem tem o direito de narrar o passado? Este artigo busca discutir como as narrativas indígenas, muitas vezes filtradas por cronistas coloniais, continuam ecoando como memória viva e resistência simbólica.

Esta foto é de capa é o Machu Picchu. As impressionantes ruínas incas só foram “descobertas” pelo mundo ocidental em 1911, quando o professor americano Hiram Bingham chegou ali numa expedição arqueológica.

Mas… será que podemos mesmo chamar isso de descobrimento?

Por séculos, os povos andinos já conheciam aquelas montanhas, já viviam, construíam, sonhavam ali. Assim como aqui no Brasil, quando aprendemos na escola que “a história começou em 1500”, com a chegada dos portugueses. Mas havia muito antes disso.

Povos originários como Incas, Quéchuas, Mapuches, Guaranis e tantos outros já escreviam — com palavras, símbolos, tecidos e cantos — suas próprias histórias. Ricas, profundas, sábias. Histórias que não começaram com a chegada dos colonizadores.

Muitos ainda olham para a cultura latino-americana buscando apenas influências europeias, mas esquecem das raízes mais antigas e profundas — aquelas que vêm da terra, da floresta, dos Andes, dos rios e das comunidades originárias.

A verdadeira História não começou em 1500. Ela já estava sendo vivida, cantada e transmitida — geração após geração — muito antes de 1492 ou 1500.

A cidade viva nas montanhas

Machu Picchu, erguida por volta de 1450 durante o governo do imperador Pachacutec, não era um refúgio perdido, mas uma comunidade viva e complexa. Estima-se que tenha abrigado mais de 150 edifícios entre recintos, templos, pontes, plataformas e escadas. Sua arquitetura desafiava a geografia acidentada, transformando a montanha em morada.

O engenheiro americano Kenneth Wright mostrou que a maior parte de Machu Picchu é subterrânea: os incas escavaram e encaixaram pedras nas profundezas do solo, criando uma base sólida para resistir aos séculos e às chuvas. A engenharia inca dialogava com a natureza — não a dominava, mas a integrava.

Entre seus recintos mais emblemáticos estão o Intihuatana, o Templo do Sol, o Templo da Lua, o Templo das Três Janelas, o Templo Principal, o Templo do Condor, o Intipunku (Porta do Sol) e a Rocha Sagrada. A maior parte dessas construções fica no setor urbano, mas trilhas e escadas levam aos picos do Huayna Picchu e da Montanha Machu Picchu, onde há outros conjuntos de plataformas e templos menores.

E ainda hoje, o local guarda segredos. Em 2010, os pesquisadores franceses David Crespy e Thierry Jamin afirmaram ter encontrado uma porta selada sob o solo, possivelmente conduzindo a uma tumba real — talvez a do próprio Pachacutec. As autoridades peruanas, porém, proibiram a escavação, temendo danos ao sítio arqueológico. A “porta secreta” permanece fechada, alimentando o mistério e o imaginário sobre o coração espiritual da cidade perdida

Pachacutec: o arquiteto do império

Pachacutec, o primeiro e mais importante imperador inca, foi o visionário que transformou Cusco em capital imperial e ordenou a construção de Machu Picchu como seu local de descanso com a família e sacerdotes.

Durante seu reinado (1438–1470), o império viveu uma expansão vertiginosa, alcançando os atuais territórios do Peru, Bolívia, Equador, Colômbia, Chile e Argentina. Cronistas espanhóis registram que Pachacutec foi sepultado em suas terras de Patallaqta — que alguns acreditam ser o verdadeiro nome de Machu Picchu.

Mas sua tumba jamais foi encontrada. As teorias variam: alguns estudiosos acreditam que repousa sob o hospital de San Andrés, em Lima; outros, como Crespy e Jamin, sustentam que ela está por trás da porta selada de Machu Picchu. O cronista Juan de Betanzos, por sua vez, menciona o setor Toqocachi, em Cusco, como seu local de sepultamento. Nenhuma das hipóteses, porém, foi confirmada. Assim, o corpo de Pachacutec, o “Augusto dos Andes”, permanece tão misterioso quanto as pedras que mandou erguer.

A chegada dos espanhóis e o silêncio que se seguiu

Quando os espanhóis chegaram a Cusco em 1533, o império já estava enfraquecido por disputas internas. Nesse mesmo ano, Manco Inca se rebelou contra os invasores e fugiu para Vilcabamba, de onde liderou a resistência. Parte dos habitantes de Machu Picchu se uniu ao exército rebelde, e a cidade começou a ser esvaziada.

Por causa do difícil acesso, os espanhóis nunca chegaram a Machu Picchu — e por isso seus templos sobreviveram relativamente intactos. Mas em 1570, após acordos entre o inca Titu Cusi Yupanqui e as autoridades coloniais, missionários evangelizadores subiram à cidade. O antropólogo Luis Guillermo Lumbreras lembra que provavelmente foram eles os responsáveis por incendiar parte do Templo do Sol.

Com a derrota final de Vilcabamba em 1572, os últimos habitantes deixaram a montanha. A selva tomou conta das construções, cobrindo-as de silêncio. Até que, séculos depois, um explorador americano anunciou ao mundo aquilo que os descendentes dos incas jamais haviam esquecido.

Relatos e vozes: entre o Andes e a Mesoamérica

Enquanto refletia sobre Machu Picchu, mergulhei também na leitura de Relatos Astecas da Conquista, de Tzvetan Todorov e Georges Baudot. Embora trate da Mesoamérica, o livro ilumina o mesmo dilema: o das vozes silenciadas pela colonização.

Frei Diego Durán, um cronista espanhol do século XVI, tentava “respeitar a verdade” ao registrar tanto as grandezas quanto as atrocidades da conquista. Sua decisão de deixar “nas sombras e no silêncio” o massacre de Cholula revela a dor de quem presenciou o horror humano e não encontrou palavras.

Durán, assim como Diego Muñoz Camargo — cronista tlaxcalteca que escreveu o Descrição das Cidades e Províncias de Tlaxcala —, viveu entre dois mundos: o europeu e o indígena. Camargo, influenciado por Sahagún e Motolinía, combinou erudição clássica e sabedoria nativa, preservando fragmentos de uma memória que o poder colonial tentou apagar.

Esses cronistas mestiços e religiosos foram, paradoxalmente, pontes e filtros. Em seus textos ainda ressoam vozes que nos pedem escuta — vozes de resistência, fé e sobrevivência.

Escutar as ruínas

Hoje, cada pedra de Machu Picchu fala. Sob a névoa dos Andes, as escadas, as pontes e os templos guardam uma sabedoria antiga — a de um povo que construiu o céu sobre a terra.

A verdadeira História não começou em 1500. Ela já era vivida, cantada e transmitida muito antes disso — e continua sendo escrita por quem busca, nas ruínas e nas palavras, as vozes que a História tentou silenciar.

Escutar Machu Picchu é escutar o próprio continente: uma memória viva, feita de terra, resistência e sonho.


📚 Referências

Texto: Priscilla Novaes
📍 Música&Linguagens | História & Arqueologia — Agosto de 2025

Publicado por Priscilla Rubio Novaes

Priscilla Rubio Novaes é musicista e historiadora com raízes hispano-americanas. Sua música e escrita se entrelaçam para criar uma experiência sensorial única, uma jornada através do tempo, onde história e arte se encontram. Priscilla compartilha suas reflexões em seu blog, explorando a interseção entre história, literatura e arte. Seu desejo é conectar as pessoas ao poder transformador da música e da narrativa, trazendo à tona memórias ancestrais e histórias que ecoam através do tempo.

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