
Hoje mergulhei numa descoberta que me abalou profundamente. Ao buscar a origem de uma frase atribuída a Pablo Picasso — “A pintura não é feita para decorar apartamentos. É uma arma ofensiva e defensiva contra o inimigo” — deparei-me com um fato que, até então, me escapava: Picasso viveu em Paris durante a ocupação nazista. E decidiu ficar.
Sim, ele recusou-se a abandonar a cidade, mesmo sendo estrangeiro, mesmo podendo retornar à Espanha. Uma Espanha que, sob Franco, também vivia sob repressão e censura. Mas Picasso não escolheu o caminho da fuga: ele permaneceu em silêncio — e em resistência.
Ida á Paris
Após iniciar como estudante de arte em Madrid, Picasso fez sua primeira viagem a Paris (1900), a capital artística da Europa. Lá morou com Max Jacob (jornalista e poeta), que o ajudou com a língua francesa. Max dormia de noite e Picasso durante o dia, ele costumava trabalhar à noite. Foi um período de extrema pobreza, frio e desespero. Muitos de seus desenhos tiveram que ser utilizados como material combustível para o aquecimento do quarto.
Em 1901 com Soler, um amigo, funda uma revista Arte Joven, na cidade de Madri. O primeiro número é todo ilustrado por ele. Foi a partir dessa data que Picasso passou a assinar os seus trabalhos simplesmente “Picasso”, anteriormente assinava “Pablo Ruiz y Picasso”.
Picasso conheceu um selecto grupo de amigos célebres nos bairros de Montmartre e Montparnasse: André Breton, e Guillaume Apollinaire ( que foi um escritor e crítico de arte francês, possivelmente o mais importante ativista cultural das vanguardas do início do século XX, conhecido particularmente por sua poesia sem pontuação e gráfica, e por ter escrito manifestos importantes para as vanguardas na França)
Repressão artística em Paris
Durante os anos sombrios da Segunda Guerra Mundial, os nazistas proibiram sua arte, chamando-a de “degenerada”. Ele não podia expor, era vigiado pela Gestapo, e ainda assim seguiu criando. Continuou pintando em seu ateliê abafado, onde muitos o visitavam em segredo.
Um dos momentos mais simbólicos dessa resistência artística é a história de um oficial nazista que, ao ver uma reprodução da obra Guernica, perguntou com ironia:
— “Foi você que fez isso?”
Ao que Picasso respondeu:
— “Não. Foram vocês.”
Essa frase ficou ecoando em mim. Guernica, que ele pintou em 1937 como resposta ao bombardeio da cidade basca durante a Guerra Civil Espanhola, se transformou num grito que atravessou fronteiras e regimes. Uma pintura que não só denunciava o fascismo espanhol, mas agora desafiava também o nazismo, mesmo que silenciosamente, mesmo que apenas na parede de um ateliê.

A frase de Picasso a Jerome Seckler, em 1945, não era apenas uma opinião sobre a função da arte. Era uma declaração de combate.
“A pintura não é feita para decorar apartamentos. É uma arma ofensiva e defensiva contra o inimigo.”
Hoje compreendi com mais força que arte e coragem são irmãs gêmeas.
Picasso não empunhou um fuzil — mas empunhou um pincel como quem empunha uma espada. Sua permanência em Paris era em si um ato político. E sua arte, uma trincheira.
Ao escrever meu livro Cultura & Resiliência, não posso deixar de incluir essa história. Porque ela traduz tudo aquilo que me move: a convicção de que a arte não é um luxo, mas um ato de sobrevivência.
Uma ponte, uma denúncia, um refúgio e, muitas vezes, uma forma de luta.
Hoje aprendi com Picasso.
E sigo escrevendo com mais fôlego.
Fontes
- Livro:
Picasso, o estrangeiro Capa comum – 8 julho 2024 - por Annie Cohen-Solal (Autor), Alberto Flaksman (Tradutor)
- Arquivo:
Musée National Picasso-Paris. Cadernos de Ateliê, 1935-1955.
