Diário de Bordo: Cartas e Diários – Cultura & Resiliência

Nas últimas semanas, mergulhei nas páginas de As Cartas de J.R.R. Tolkien, um livro que revela o coração por trás da mente brilhante que criou a Terra Média. Através da correspondência entre Tolkien e seu filho Christopher, especialmente durante os difíceis anos da guerra, pude conhecer mais profundamente não apenas o escritor, mas o homem — com suas dores, cansaços, afetos e esperanças.

Essa troca de cartas entre pai e filho, cheia de sinceridade e afeto, é uma forma comovente de resiliência afetiva e criativa. Tolkien, veterano da Primeira Guerra Mundial, agora já mais velho e servindo como instrutor de cadetes durante a Segunda, acompanha o filho que também se encontra em meio aos conflitos. A escrita entre eles se torna um espaço de respiro, de reflexão e resistência. Há conselhos, partilhas de inquietações e até reflexões sobre o próprio processo de escrita.

De modo algum nos incomodamos com suas queixas — com elas nos sentimos mais ninguém e espero que isso alivie a tensão. Lembro muito bem de como estava vivendo do mesmo modo ou pior para o pobre e velho Pe. Vincent Reade. A vida no acampamento parece não ter nada de real nela e o que a torna tão exasperante é o fato de que todas as suas piores características são desnecessárias e devem-se à estupidez humana que (como os “planejadores” se sentam a ver) é sempre determinada indefinidamente pela “organização”. Mas a Inglaterra em 1917 estava indo em um caminho ruim, e é injusto que um em um trecho de relativa abundância você deve ter tais condições. E os contribuintes pagarão para saber para onde estão indo todos os milhões e a seleção de seus filhos é tratada desse modo.

Seja como for, os humanos são o que são, inevitavelmente — e você também (fora a Conversão universal) há de não ter guerras — nem planejamento, nem organização, pouco de inteligência. Seu serviço, claro, como qualquer um num serviço ruim da reputação é ouvido. Eles têm um serviço muito ruim, vindo da época em que os poucos homens garbosos, e ricos e todos as Grandes Coisas planejadas em quanto de maneira dão essa sensação para quem está do lado de fora ou que abismam seus serviços. Um serviço fundamental é o pão de que a alma humana, sem dúvida vive, e se um em geral elas de fato funcionam e cumprem o campo.

Pois estamos tentando conquistar Sauron mentalmente maligno. Pois estamos tentando conquistar Sauron com o Anel. E seremos bem-sucedidos (ao que parece). Contudo, punição, como você sabe, é criar novos Saurons e lentamente transformar Homens e Elfos em Orques. Não que na vida real as coisas sejam tão claras como em uma história, e começamos com muitos Orques e muitos maus […]

— Bem, aí está você: um hobbit entre os Urukhai.

Em uma das cartas, Tolkien escreve algo que me tocou profundamente. Ele fala sobre como a vida no acampamento pode parecer exasperante, critica o excesso de organização mecânica e a perda de sentido nas tarefas repetitivas. Fala do valor do serviço humilde e silencioso — o que não parece grandioso, mas que sustenta o mundo. E faz um paralelo lindo com os hobbits e com as histórias:

“Mantenha sua hobbitice no coração e pense que todas as histórias assim se parecem quando se está nelas. Você está dentro de uma história muito grande!”

É uma lembrança poderosa: enquanto vivemos os dias difíceis, muitas vezes não vemos o sentido nem o valor do que estamos atravessando. Mas estamos, sim, dentro de uma história maior. A escrita, nesse contexto, se torna um abrigo e uma ponte — entre gerações, entre dores, entre tempos. Uma forma de processar a realidade e seguir adiante.

Também acho que você está sofrendo de “escrita suprimida”. Isso pode ser culpa minha. Você tem tido muito de mim e do meu modo peculiar de pensamento e de reação. E, como somos tão parecidos, isso tem se mostrado bastante poderoso. Possivelmente o inibiu. Creio que se pudesse começar a escrever e encontrar seu próprio modo, ou mesmo (para começar) imitar o meu, você acharia isso um grande conforto. Sinto entre todas as suas dores (algumas simplesmente físicas) o desejo de expressar seu sentimento sobre o bem, o mal, o belo e o feio de algum modo; de racionalizá-lo e impedi-lo de simplesmente supurar. No meu caso, eu gero Morgoth e a História dos Glomos. Muitas das partes antigas dela (e dos idiomas) — descartadas ou absorvidas — foram criadas em cantinas enferrujadas, e preleções no frio nevoeiro, em barracas cheias de blasfêmias e obscenidades ou a luz de velas em tendas de alarme[…]

Essa leitura me confirmou o que venho investigando no projeto: a arte e a palavra são formas de resistência interior. Nos diários, nas cartas, nos bastidores do processo criativo, há sempre lampejos de esperança, de coragem e de humanidade.

Tolkien anima Christopher a escreve

Em meio aos desafios do treinamento militar, em tempos de guerra e incerteza, Tolkien escreve ao filho não apenas como pai, mas também como escritor encorajando outro escritor.

Ele fala de forma crítica sobre os métodos mecânicos, os testes de inteligência padronizados, e sobre como a guerra tende a transformar homens em peças de uma engrenagem — “mais os humanos menos mecânicos sofrerão”, diz ele. Mas há um trecho ainda mais profundo, quando Tolkien se entristece ao ver o filho, tão jovem e sensível, cair nas mãos da brutalidade do mundo:

“Que infelicidade que logo você tenha ido parar nos Urukhai.”
“Como uma criança que, devido ao seu interesse juvenil em trens, é condenada a se tornar um assentador de trilhos para sempre ou um cabineiro.”

Há, aqui, uma crítica à forma como a sociedade (e especialmente a guerra) tenta prender os sonhos e as vocações humanas em funções utilitárias e impessoais. Mas Tolkien não deixa que a dureza da realidade seja a última palavra. Ele então diz algo precioso:

“Mas como você quis! E suponho que você teria encontrado Orques em qualquer lugar. Isso é Guerra. […]
Bem — comece a escrever uma história!”

Esse é o convite que atravessa as páginas: escrever como forma de resistência, de manter a consciência humana viva, mesmo em meio à escuridão. Tolkien reconhece que há dor, perda e absurdo, mas que a escrita pode ser o fio de continuidade da alma. Um modo de dar sentido, de manter acesa a centelha do sensível, do belo, do justo.

É profundamente inspirador ver como, mesmo diante do caos, Tolkien anima o filho a não se calar, a não se moldar à máquina — mas a escrever. Contar histórias é, afinal, lutar contra o esquecimento e contra a mecanização do espírito. É afirmar: nós ainda estamos vivos, e temos algo a dizer.


Agora, meu topicos de pesquisa são: Quero entender como outros escritores viveram esse processo nas duas guerras mundiais – se a arte sobrevivia nas trincheiras, nos campos de batalha. Busco ampliar esse olhar, quase como mapear ecossistemas de criatividade em meio ao caos. Se possível ter a materialidade desses atos: como fisicamente os escritores conseguiam rabiscar versos sob bombardeios? Que objetos (cadernos, cartas, livros) testemunharam isso?

Descobri que minha imersão nas cartas de Tolkien revela um dos mais pungentes testemunhos de resiliência criativa e afetiva em tempos de guerra — e sim, essa experiência foi partilhada por muitos outros escritores, soldados e artistas nos campos de batalha da Primeira e Segunda Guerra Mundial. A arte não apenas sobreviveu aos conflitos: floresceu nas trincheiras, nos acampamentos, nos campos de prisioneiros e nos refúgios improvisados, como um ato de resistência da alma humana. Eis aqui alguns:

Primeira Guerra Mundial

Wilfred Owen

(Plas Wilmot, Shropshire, 18 de março de 1893 – Batalha de la Sambre, 4 de novembro de 1918) foi um poeta e militar inglês. Morreu uma semana antes do armistício, em 1918. Escreveu poemas cruciais como “Dulce et Decorum Est” e “Anthem for Doomed Youth”.

  • Suas cartas à mãe descreviam horrores, mas também o processo de transformar o trauma em poesia. Escrevia à luz de velas em barracas alagadas, dizendo: “Minha função é gritar, através da arte, o sofrimento dos que não podem gritar”.
  • Frase emblemática: “Minha poesia não é sobre heróis. É sobre homens quebrados.”

Erich Maria Remarque (Alemanha):

  •  Ferido na Flandres, transformou sua experiência em “Nada de Novo no Front” (1929).
  • Resiliência criativa: Escrevia rascunhos em cadernos encharcados de lama. Seu livro tornou-se um manifesto pacifista. Durante a Primeira Guerra Mundial, tornou-se um sucesso de vendas em vários países, inaugurando um novo gênero literário.

Segunda Guerra Mundial (1939-1945):

Antoine de Saint-Exupéry (França)

  • Contexto: Piloto da resistência, desapareceu em 1944.
  • Resiliência criativa: Escreveu “O Pequeno Príncipe” (1943) no exílio em Nova York, mas suas cartas da frente revelam angústia e esperança. Em uma, confessa: “Escrevo para não enlouquecer”.

Primo Levi (Itália)

  • Contexto: Sobrevivente de Auschwitz.
  • Resiliência criativa: Escrevia poemas clandestinos no campo, ensinava italiano a outros prisioneiros e recitava Dante de memória. Em “É Isto um Homem?”, narra: “A poesia era nossa única arma contra o desumanização”.

The Wipers Times

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Um grupo de soldados britânicos leu o Wipers Times original em 1916

Publicada por um grupo de soldados britânicos que lutavam nas trincheiras da Frente Ocidental durante a Primeira Guerra Mundial, a Wipers Times era uma revista muito apreciada, composta por poemas, observações irônicas e humor satírico. Nomeada em homenagem à gíria britânica para Ypres, a cidade belga que testemunhou alguns dos piores combates da guerra, a revista nasceu da descoberta casual de uma prensa tipográfica abandonada e serviu para elevar o ânimo das tropas enquanto lutavam e viviam nas trincheiras.

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