
Hoje confirmei mais uma entrevista para o projeto Cultura & Resiliência. Desta vez, com Elton Cunha — mestre em gestão de desastres, professor, consultor e alguém que carrega, além de uma carreira dedicada a lidar com momentos críticos, o hábito de tocar flauta e gaita de foles como forma de terapia e expressão pessoal.
Achei especialmente significativo incluir sua voz nesse projeto. Elton não se considera artista, mas carrega na música uma ferramenta silenciosa de resistência íntima, algo que dialoga perfeitamente com a proposta do livro: compreender como a cultura e a arte atravessam tempos difíceis e sustentam as pessoas, mesmo fora dos palcos ou das galerias. Nos falaremos por chamada de áudio, para que eu possa registrar melhor a conversa e não perder nenhum detalhe dessa história. Estou curiosa para ouvir sobre sua trajetória, sobre o que o levou a tocar gaita de foles e como ele percebe o papel da música e das tradições em momentos de crise.
Mais uma história que, tenho certeza, vai enriquecer essa caminhada.
ENTREVISTA
1-Como foi que você começou a tocar gaita de foles? Teve alguém ou alguma história que te inspirou a escolher esse instrumento?
Meu primeiro contato com gaita de foles foi em 1995 após ver o filme Coração Valente e me encantei com a sonoridade e designer instantaneamente. Mas foi depois de muitos anos que realmente eu tive contato direto com uma gaita de foles e comecei a estudar a mesma. Numa destas minhas pesquisas descobri que a gaita de foles não é um instrumento exclusivo da Escócia e que existe mais de 50 tipos de gaita de foles no mundo de acordo com a sua etnografia própria. Fui atras de um instrumento mais próximo da nossa cultura brasileira e descobri que na península ibérica existe um número formidável de versões ibéricas de gaita de foles, inclusive mais antigas que na Escócia. Gaitas portuguesas e galegas (Galícia) foram meu foco, em pesquisa descobri na época que existia apenas um Luthier de Gaita de Foles no Brasil, do Luthier da Família Luques em SP. Posteriormente conheci outros luthiers no Brasil e no mundo, fiz amizade com o Luthier Javier Lescano da Argayl instrumentos étnicos da Argentina em 2020.
Assim comecei a tocar flauta doce soprano como base e prática e comprei minha primeira gaita de foles galega GG2, depois comprei uma gaita galega gg3 e uma gaita de apartamento galega. A Carta de pero Vaz de Caminha faz registro do 1º instrumento musical europeu tocado no Brasil, que é justamente uma Gaita de Foles.
2-Você trabalha há muito tempo com desastres e situações difíceis. Na sua opinião, de que forma a música e cultura podem ajudar as pessoas a seguir em frente depois de momentos tão complicados?
Trabalho na área de gestão de riscos e desastres a 14 anos, 9 anos como Diretor Municipal de Defesa Civil e posteriormente como pesquisador na área das ciências dos desastres. A música tem um papel fundamental em uma sociedade, muitas vezes a música é um grito de liberdade, de socorro, de omissão e amor. Música e a cultura em geral são ferramentas que mais tem poder de infiltrar uma cultura prevencionista em uma sociedade, seja música de protesto, seja música politizada (a boa política) e inserida nos costumes de cada região. Falta muito isso no Brasil, os desastres fazem parte de nossa existência, mas preferem ignorar esse fato e varrer para debaixo do tapete.
3- Como gestor e professor na área de desastres, você acredita que deveria haver um espaço maior, institucionalizado ou comunitário, para a arte e a cultura como parte das estratégias de resiliência e recuperação pós-crise?
Sim, com toda certeza, é na arte, é na música que aceitamos ouvir o que precisa ser ouvido, não através de políticos demagogos e promessas não realizadas. A arte conforta, a arte confronta o sistema, a arte muda sua visão de mundo, a arte te deixa mais humano.
4-Hoje, em meio a tantas crises que o mundo enfrenta, o que você diria para quem está tentando encontrar um jeito de lidar com tudo isso?
Primeira coisa, enfrentar o desastre de frente, olho no olho. Imputar a responsabilidade apenas para um elemento é suicídio coletivo, todos temos responsabilidades sociais nos riscos de desastres, mas o principal de uma sociedade é ser cidadão de fato, cobrar, colaborar, denunciar, pressionar e se preparar para um desastre. O texto abaixo é do 1º Manual de Defesa Civil no Brasil e é mais atual do que nunca:
“Em matéria de Defesa Civil nada pode e nem deve ser improvisado. Tudo deve e pode ser previsto e organizado antes que o perigo seja desencadeado, pois que, em face do perigo, a improvisação equivale a uma irrecorrível sentença de morte” (texto adaptado). Cel. Orozimbo Martins Pereira Alerta! Catecismo da Defesa Passiva Antiaérea, 1942. 1º Manual de Defesa Civil Brasileiro.
