Quarta feira— 03 de julho de 2025

Hoje foi um daqueles dias em que o cansaço da vida adulta parece pesar mais do que o normal. As situações vão se acumulando, e por mais que eu tente manter o foco nos projetos, no livro, na música, na história que carrego e quero contar, há momentos em que a realidade me puxa pra esse chão duro onde as contas não esperam, as decisões não param e a vida insiste em colocar provas na frente.

Estamos nesta casa desde 2012. Já são 13 anos convivendo com esse imóvel que, há pelo menos 10, eu sonho em deixar para trás. Mas como tantas vezes na vida, a gente precisa priorizar, engolir algumas frustrações e ir adiando o que queria fazer ontem. O ano passado trouxe mais um desses capítulos difíceis. A imobiliária, que já não é fácil, passou a ser controlada também pela esposa e pelo filho do dono da casa. O aluguel, que era R$ 1300, subiu de uma vez para R$ 1590, sem seguir o índice oficial, sem conversa, com abuso e justificativas absurdas. Alegaram que, como somos inquilinos antigos, deveríamos pagar mais — como se lealdade fosse penalidade.

Pagamos, porque naquele momento não tínhamos outra saída. Vieram ainda cobranças de multas, acréscimos de valores não explicados e cobranças para que fizéssemos reparos que, por lei e por acordo verbal antigo, seriam responsabilidade do dono. O próprio proprietário, quando veio aqui em 2016, me disse com todas as letras que qualquer problema de estrutura, fiação, telhado, vazamento era com ele — que a única obrigação nossa seria a pintura. Mas a imobiliária faz o que quer, e a gente, cansado de brigar, muitas vezes paga para ter paz. Só que essa paz custa caro.

Agora, em julho de 2025, mais uma facada: recebi a notificação de novo reajuste. De R$ 1590 vai para R$ 2000, e com o IPTU embutido, o total chega a R$ 2098. Não cabe no orçamento. E pior: não cabe mais na minha dignidade. O problema é que sair também não é fácil. Estamos esperando uma indenização do trabalho do Evandro, “um daqueles” nos Correios, já deu causa ganha, já esta recebendo o salario da função R$ 1.200 á mais ( e como estamos pagando quase não faz diferença), mas a indenização em si ainda estão fazendo os cálculos se for R$ 60.000 vamos receber esse ano, mas se for acima, vai para precatório- e ai vão pagar ano que vem somente. Esse dinheiro nos ajudaria a sair daqui, pagar seguro-fiança (porque não temos mais fiador disponível) e respirar um pouco. Mas enquanto isso não vem, fico nessa corda bamba entre querer ir embora e não poder ainda.

Para piorar, os aluguéis na região dispararam. Praticamente nada abaixo de R$ 2000. E eu só posso, com muito esforço, pagar até R$ 1900. Mais que isso desequilibra todo o resto. E de Piquei á VIla Bonilha estão esses preços e até aqui, esse bairro “fim de mundo” os alugueis estão de 2mil pra cima e umas casas caindo aos pedaços.

E a maior preocupação está logo ali, na esquina de 2026. O Calebe vai pro sexto ano e precisa mudar de escola, porque a atual só vai até o quinto. E todas as escolas boas da região são caras. A única realmente boa, com estrutura, tradição e ensino de qualidade, custa R$ 1300 por criança — e são dois: Calebe e a Jasmine. O que antes eu pagava R$ 797 por cada, agora seria quase o dobro. E eu sinceramente não sei como vou fazer.

A frustração é não conseguir garantir para os meus filhos, no futuro próximo, o mínimo de tranquilidade escolar que sempre batalhei pra oferecer. E a angústia de saber que só não posso sair dessa casa porque o dinheiro que poderia resolver tudo está preso em processos e burocracia. Se pudéssemos escolher, sairíamos daqui, mudar pro interior, onde os aluguéis e as escolas são mais acessíveis, e ele poderia enfim investir de vez na microempresa de desenho, animação e projetos 3D. Eu poderia me dedicar com mais calma à música, ao projeto Cultura & Resiliência, às entrevistas, ao livro. Mas enquanto esse dinheiro não chega, ficamos presos.

Hoje decidi que preciso começar a mapear alternativas. Procurar escolas que ofereçam bolsas, ver possibilidades em cidades menores, anotar valores de imóveis, organizar um plano de emergência. Porque a única certeza é que eu não quero mais começar 2026 nesse mesmo cenário.

Pra completar essa semana que já vinha difícil, tem algo que vem me preocupando : o peso do Calebe.
Ele está acima do peso, eu sei. Sou mãe, eu vejo, eu me preocupo, eu tento. E isso começou na Pandemia, quando não dava pra sair e ainda por cima, ficamos sem carro. Faço algumas atividades com ele em casa, penso na alimentação, tento orientar. Mas nem sempre é fácil. Ele é criança, está em casa, quer brincar, quer jogar com as coisas dele, e não quer ficar fazendo exercícios de video em casa.. E aqui no bairro as ruas são péssimas, quase não tem calçada, não dá pra fazer caminhada com eles com segurança.

Mesmo assim, o que mais pesa não é isso. É a forma como as pessoas falam. Na frente dele. Como se eu não soubesse. Como se eu não me importasse. Como se eu não passasse noites pensando em tudo o que eu ainda não consegui oferecer pra ele. Minha sogra, meu pai, conhecidos… sempre vem aquele comentário:
“Nossa, como ele tá gordo”
“Você tem que fazer alguma coisa”
“Vai ter problema de saúde, hein”

E tudo isso na frente dele. Como se ele não ouvisse. Como se ele não sentisse. Como se fosse um objeto que pode ser comentado, apontado, medido. Ontem ele mesmo quis se pesar. E quando vi o número na balança, 68kg, meu coração despencou. Não pelo número em si, mas pelo que ele deve estar carregando dentro. Porque se ele, tão pequeno, já se preocupa com isso a ponto de querer se pesar, é porque essa ansiedade já mora nele. E eu me senti um lixo. Incompetente. Incapaz. Como mãe, como pessoa, como tudo. Mas ao mesmo tempo, eu sei que tenho tentado. Que a realidade aqui não colabora. Que as pressões são muitas e que eu não posso controlar tudo.

O que eu mais quero é proteger a saúde física dele, sim. Mas antes disso, proteger o emocional. Porque nenhuma criança merece crescer achando que vale menos porque tem um número alto na balança. E muito menos ouvindo isso das pessoas que deveriam cuidar.

Hoje decidi que vou conversar com ele, do meu jeito. Dizer que ele é amado, que é forte, que é bonito, que o corpo dele é só uma parte de quem ele é. E que a gente cuida, sim, mas sem pressa, sem medo e sem vergonha. Vou blindar ele desse tipo de comentário, e se precisar ser mais firme com os outros, vou ser. Porque ele é meu filho. É minha prioridade. E ninguém vai transformar a infância dele em um trauma.

Esse é mais um pedaço do fardo que ninguém vê. Mas eu carrego. E por ele, vou continuar carregando.

Priscilla.

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