
Toda obra de arte possui brilho e sombra. Uma vida feliz não é aquela que esta repleta de momentos felizes, mas a que usa o brilho e a sombra para produzir beleza. Os maiores musicos, via de regra, são aqueles que sabem tirar da tristeza belas canções.- Billy Graham
Hoje, mergulhando nas histórias de artistas que encontraram beleza mesmo em meio à dor, redescobri a trajetória impressionante de Fanny Crosby (1820–1915). Uma daquelas almas raras que transformam cicatrizes em canções, e que, apesar das limitações, deixou um legado que atravessa séculos.
Fanny perdeu a visão quando ainda era um bebê, por conta de um erro médico trágico e impensável: aos seis semanas de vida, acometida por uma infecção ocular, recebeu aplicações de cataplasmas de mostarda quente sobre os olhos — um “tratamento” que a deixou cega para sempre. A história conta que o tal médico teve de fugir da cidade, tamanho o escândalo que provocou. Imagine a revolta, a impotência, o luto silencioso da mãe, e a pequena Fanny crescendo nesse cenário.
Aos cinco anos, com a ajuda dos vizinhos que se cotizaram para pagar a viagem, ela e a mãe foram ao encontro do renomado Dr. Valentine Mott, na esperança de um milagre. Mas o diagnóstico foi definitivo: não havia o que fazer. E então, naquele tempo em que a cegueira condenava crianças ao esquecimento, Fanny começou a criar seu próprio mundo, um universo de palavras, rimas e melodias.
Seu talento para a poesia apareceu cedo, mas foi só aos 45 anos que compôs seu primeiro hino sacro. Dali em diante, as canções brotavam como nascente em solo fértil. Algumas em poucos minutos, como se viessem sopradas por uma brisa divina. Fanny Crosby se tornou a compositora mais prolífica de hinos cristãos da história, com mais de oito mil canções, espalhadas pelo mundo em diversos idiomas. Para publicar tantas obras, usou mais de 200 pseudônimos. Imagino a alegria secreta dela ao ver suas palavras ecoando de tantas vozes, em tantos lugares, sem que soubessem quem era aquela mulher cega por trás das letras.
Mais do que música, Fanny Crosby escreveu resistência, fé e resiliência. Em tempos de invisibilidade feminina, especialmente para pessoas com deficiência, ela fincou seu nome na eternidade. Hoje, ao relembrar sua história, sinto que sua coragem e sua arte se alinham com a essência deste projeto: mostrar que em tempos difíceis, sempre haverá aqueles que transformam dor em poesia, e ausência de luz em melodias que iluminam a alma.
Em 1844, quando o mundo ainda reservava poucos espaços para mulheres escritoras — e menos ainda para mulheres com deficiência —, Fanny lançou seu primeiro livro de poemas: A Menina Cega e Outros Poemas. Uma obra que não apenas revelou seu talento precoce, mas que também abriu caminho para tudo o que viria depois. Ela, que desde cedo transformava em versos suas percepções sobre a vida, encontrou nas palavras um refúgio e, ao mesmo tempo, uma ponte para tocar outras almas.
Anos mais tarde, viria um momento decisivo. Durante uma conferência realizada em Northfield, Massachusetts, organizada por Dwight L. Moody — uma das maiores vozes do Evangelho na história americana —, Fanny Crosby foi convidada a participar. Moody, impactado pela sensibilidade das composições dela, pediu que contasse seu testemunho de fé e falasse sobre sua experiência com Deus.
Fanny, tímida e reservada, relutou. Não era comum na época, especialmente para uma mulher, expor-se daquela maneira diante de uma multidão. Mas, ao invés de um discurso, ela preferiu entregar o que sabia fazer melhor: a poesia. Leu então a letra de um hino recém-escrito e, antes de recitá-lo, confidenciou:
“Eu o chamo de meu poema da alma. Às vezes, quando estou preocupada, repito estas palavras para mim mesma, e elas trazem conforto ao meu coração.”
Curiosamente, não se sabe qual hino era aquele. Nenhuma biografia registra. Mas isso pouco importa, porque qualquer um dentre os mais de oito mil cânticos que ela compôs poderia servir como bálsamo para a alma — como o clássico Mais Perto da Tua Cruz, de 1868. Um hino que atravessou gerações e embalou os momentos de apelo à conversão durante o Grande Despertamento, movimento de avivamento que marcou profundamente os Estados Unidos no século XIX.
Em seus versos simples e sinceros, Fanny sempre encontrava o caminho para tocar os corações:
“Meu Senhor sou Teu
Tua voz ouvi, a chamar-me com amor […]
Mais perto da Tua cruz leva-me, ó Senhor.”
Hoje, ao registrar isso aqui no diário, fico pensando: quantas Fannys anônimas o mundo ainda guarda? Quantas vozes caladas, quantas histórias de fé, dor e beleza esperam para ser contadas? Fanny Crosby não enxergava com os olhos, mas via longe com a alma. E é por isso que permanece, não como um nome apenas, mas como um eco de resiliência e esperança.
