Ecos da Galícia no Rio: O Centro Galego e os Artistas da Diáspora (1900–1943)

No início do século XX, o Rio de Janeiro era um mosaico cultural vibrante, onde comunidades de imigrantes contribuíam para a riqueza artística da cidade. Entre elas, destacava-se a comunidade galega, que, através do Centro Galego do Rio de Janeiro, fundado em 1900, tornou-se um polo de preservação e promoção da cultura da Galícia no Brasil.

🏛️ O Centro Galego: Um Farol Cultural

O Centro Galego do Rio de Janeiro não era apenas um espaço de assistência mútua para os imigrantes galegos; era também um centro de efervescência cultural. Promovia atividades como danças tradicionais, peças teatrais e zarzuelas espanholas, contribuindo para a manutenção da identidade cultural galega na diáspora. Além disso, oferecia educação gratuita por meio das “Escolas Noturnas do Centro Galego”, dirigidas por educadores como Jesús Muíños e Carmelo Seoane, fortalecendo a comunidade através da educação.

Entre os artistas galegos que deixaram sua marca no Brasil, destaca-se Modesto Brocos (Santiago de Compostela, 1852 – Rio de Janeiro, 1936). Radicado no Brasil desde 1890, Brocos tornou-se professor de desenho na Escola Nacional de Belas Artes, influenciando gerações de artistas cariocas. Suas obras, como “A Redenção de Cam” e “Engenho de Mandioca”, são marcos na arte brasileira e estão expostas no Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. Brocos também esteve intimamente ligado às atividades do Centro Galego, reforçando os laços entre a arte e a comunidade galega no Brasil. Crónicas de la Emigración

🖼️ Outros Artistas da Época

Além de Brocos, o Rio de Janeiro foi lar de outros artistas notáveis no período, como Mário Navarro da Costa, pintor e diplomata brasileiro que se destacou por suas marinhas e cenas portuárias, e Regina Veiga, pintora e desenhista que, após estudos na Europa, retornou ao Brasil e impressionou com suas obras de forte realismo e emotividade. Wikipédia+1Wikipédia+1

Irmandade Galega do Rio de Janeiro

Com o objetivo de expandir a galleguidad (a identidade e cultura galega) por todas as grandes cidades do Brasil, em 1946 foi fundada no Rio de Janeiro a Irmandade Galega. Os promotores dessa iniciativa foram Víctor M. Balboa, Luis García Fernández, Perfecto González Vázquez e Manuel Gómez Vázquez.

Entusiasmados com a criação das Irmandades em Buenos Aires, Montevidéu, Havana, Santiago do Chile, México e Venezuela, os galleguistas residentes no Brasil consideraram oportuno difundir os ideais do galleguismo.

A criação das Irmandades foi uma iniciativa de Alfonso Castelao, que acreditava que no exílio não era necessário um Partido Galeguista, mas sim um movimento amplo que reunisse todas as forças patrióticas, já que, na Espanha, havia uma ditadura. Por isso, sem a existência de eleições democráticas, não fazia sentido manter um partido político.

O Centro Galego do Rio de Janeiro manteve suas atividades por mais de quatro décadas, sendo encerrado em 1943 durante o governo de Getúlio Vargas, que considerou a instituição como não sendo de fins beneficentes. Apesar disso, o legado cultural deixado pela comunidade galega e seus artistas permanece vivo na história do Rio de Janeiro e do Brasil.

🌿 Galiza e Brasil: Memórias Cruzadas, Vozes que Ecoam

As relações entre a Galiza e o Brasil não são apenas registros de navios e sobrenomes gravados em antigos livros de imigração. Elas continuam pulsando na linguagem, na música, nos rituais populares e na memória coletiva. Em uma entrevista belíssima, o pesquisador galego Xoán Lagares destacou algo que me toca especialmente: o fato de que, mesmo separados por mares e fronteiras, Brasil e Galiza compartilham heranças e gestos que ainda hoje se reconhecem um no outro.

Ele cita, por exemplo, o parentesco entre as regueifas galegas — desafios poéticos improvisados, com ritmo e humor — e os nossos repentes e desafios brasileiros, que se reinventam hoje nas rimas de rua e até no funk carioca. Assim como os fogos de São João no nordeste brasileiro têm o mesmo cheiro de lenha e milho das festas populares galegas. Na cozinha mineira, no nome das cidades, nos sobrenomes — de Penedo a Andrade, de Pinheiro a Pita — há vestígios de um passado compartilhado.

Mas, como bem observa Lagares, a Galiza ainda é pouco conhecida no Brasil, reduzida muitas vezes ao Caminho de Santiago. E talvez esteja aí um campo riquíssimo para ser redescoberto e cultivado: um diálogo de culturas irmãs, onde a música, a literatura e a oralidade possam viajar de um lado ao outro do Atlântico, nutrindo-se mutuamente.

Imaginem o quanto seria potente resgatar essas conexões, dar palco aos artistas galegos no Brasil e levar nossas sonoridades e narrativas para as terras de Compostela. Não se trata apenas de história, mas de uma oportunidade de construção cultural para o presente e o futuro. Se há algo que me move nesse projeto de Cultura & Resiliência, é justamente isso: conectar vozes esquecidas, resgatar pontes e lançar sementes para novos encontros.

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