
Nestas semanas ando pesquisando para meu livro, e tenho descoberto muitas coisas. Ontem morreu Gastón Soublette que eu não conhecia direito, já tinha visto ele por ai, mas nunca prestei atenção de verdade nele. Mas lendo e vendo os videos deles mais a fundo, fiquei fascinada pelo trabalho dele! Foi um filósofo, musicólogo, compositor e esteta chileno. Foi membro do Instituto de Pesquisa Musical da Universidade do Chile (1958-1969) e, desde a década de 1970, professor de filosofia e estética na Pontifícia Universidade Católica do Chile. Também recebeu o Prêmio Nacional de Humanidades e Ciências Sociais em 2023. Também soube que Ele contribuiu para o resgate da cultura chilena de várias maneiras.
Gastón Soublette foi uma figura central no resgate e valorização da cultura popular chilena, enfrentando diversos desafios ao longo de sua trajetória. Sua colaboração com Violeta Parra nos anos 1950 foi fundamental nesse processo. Na época, ele transcreveu para partituras os cantos que Violeta havia coletado em suas viagens pelo interior do Chile, resultando na publicação de “Cantos folklóricos chilenos” em 1959. Esse trabalho não apenas preservou melodias tradicionais, mas também destacou a importância da cultura popular chilena, frequentemente marginalizada pela sociedade dominante .
Soublette também se dedicou a integrar a música folclórica chilena ao repertório da música erudita. Em 1972, lançou o álbum “Chile en cuatro cuerdas”, onde arranjou músicas tradicionais para quarteto de cordas, buscando elevar o status da música popular e demonstrar sua riqueza artística .Wikipedia
Além disso, ele criticava a perda de identidade cultural no Chile, especialmente a desconexão com as raízes indígenas e a cultura popular. Soublette via a cultura industrial e o modelo utilitarista como responsáveis por esse afastamento, alertando para a necessidade de reconectar-se com as tradições ancestrais .
Seu livro “La Estrella de Chile” é uma obra emblemática que analisa os símbolos nacionais chilenos, destacando elementos indígenas presentes na bandeira nacional e propondo uma reflexão sobre a verdadeira identidade cultural do país. Soublette argumentava que o Chile precisava reconhecer e valorizar suas raízes indígenas para construir uma identidade nacional mais autêntica .Interferencia
Em reconhecimento ao seu trabalho, Soublette foi agraciado com o Prêmio Nacional de Humanidades e Ciências Sociais em 2023. Sua dedicação ao resgate cultural chileno deixou um legado duradouro, inspirando futuras gerações a valorizar e preservar as tradições culturais do país.
Sobre a bandeira Chilena
Gastón Soublette destacou no seu trabalho sobre os símbolos nacionais chilenos, especialmente no livro La Estrella de Chile. Vou te contextualizar.
A bandeira atual do Chile, adotada oficialmente em 1817, tem três elementos principais:
- Uma faixa azul, representando o céu e o Oceano Pacífico.
- Uma faixa branca, simbolizando a neve dos Andes.
- Uma faixa vermelha, que representa o sangue derramado pelos que lutaram pela independência.
No canto superior esquerdo, sobre o campo azul, há uma estrela branca de cinco pontas. Oficialmente, essa estrela sempre foi interpretada como a Estrela da Liberdade, símbolo de soberania e orientação para o futuro do país.
Gastón Soublette:
Ele defendeu que essa estrela é, na verdade, herdeira simbólica da chamada “estrella de Arauco”, um importante símbolo ancestral do povo Mapuche (o povo indígena mais numeroso do Chile e da região centro-sul). Na cosmologia mapuche, a estrela de oito pontas chamada Wünelfe representa o planeta Vênus — um astro sagrado para os mapuches, ligado à fertilidade, às forças da natureza e aos ciclos da vida.
Embora a estrela da bandeira chilena tenha cinco pontas (não oito como a wünelfe tradicional), Soublette argumentava que a escolha de colocar uma estrela sozinha sobre um campo azul remetia inconscientemente a esse símbolo ancestral, presente há séculos na cultura indígena chilena, principalmente dos araucanos-mapuches.
Ele defendia que muitos símbolos nacionais do Chile foram reinterpretados ou “embranquecidos” ao longo da história, ocultando suas raízes indígenas, mas que, por mais que isso tenha ocorrido, a marca da cultura mapuche continuava viva nesses elementos, se a gente souber olhar com o devido cuidado histórico e cultural.
🌿 Por que isso é importante?
Para Soublette, reconhecer isso não era apenas uma questão estética ou histórica, mas um gesto profundo de resgate cultural e identidade nacional. Ele acreditava que o Chile, enquanto nação, deveria valorizar suas raízes indígenas para construir uma identidade cultural mais verdadeira e íntegra, em vez de se basear apenas em referências europeias ou colonialistas.
Gaston e sua colaboração con Violeta Parra
Há um episódio bastante marcante que ilustra a relação intensa e transformadora entre Violeta Parra e Gastón Soublette. Em 1954, quando Violeta buscava apoio para divulgar e preservar o folclore chileno, ela procurou Soublette, então diretor de programas da Radio Chilena CB66. Durante uma conversa, ao perceber o distanciamento dele em relação à cultura popular, Violeta o confrontou diretamente, chamando-o de “pituco de mierda” e afirmando: “Você nunca vai entender seu povo” .Revista Universitaria+1La Tercera+1La Tercera+1purochilemusical.blogspot.com+1
Esse momento foi decisivo para Soublette. Sentindo-se desafiado, ele passou a se aprofundar na cultura popular chilena, explorando os cerros de Valparaíso e estabelecendo conexões com diversas comunidades. Em uma ocasião, foi até assaltado, mas acabou desenvolvendo amizade com seu assaltante. Ele descreveu essa experiência como um ponto de virada: “Eu aprendi a conhecer meu povo” .La Tercera
Apesar das diferenças e confrontos, a colaboração entre Violeta e Soublette foi frutífera. Ele transcreveu para partituras muitas das músicas que ela havia coletado, contribuindo para a preservação do folclore chileno. Anos depois, em 1972, Soublette lançou o álbum “Chile en cuatro cuerdas”, com arranjos de músicas tradicionais para quarteto de cordas ( no video a cima). Ele expressou o desejo de que Violeta tivesse ouvido essa obra, imaginando que ela poderia ter mudado sua opinião sobre ele .La Tercera
Realmente esse episódio destaca como o confronto inicial com Violeta Parra foi catalisador para a transformação de Gastón Soublette, levando-o a se tornar um defensor apaixonado da cultura popular chilena. Maravilhoso saber essas coisas! Ainda estou pesquisando mais a fundo sobre isso. Não sei se colocarei no livro ou não, mas isso vai agregar ainda mais o meu amor a minha segunda terrinha.
🕰️ Um episódio da juventude de Gastón
Durante as décadas de 1940 e 1950, Soublette, então jovem e pertencente a uma família de classe alta ligada ao conservadorismo chileno, teve contato com membros da colônia alemã em Viña del Mar e Valparaíso, alguns dos quais eram simpatizantes do nacional-socialismo. Em entrevistas posteriores, ele relatou que, influenciado por essas amizades e pela falta de conhecimento profundo sobre o que realmente representava o regime nazista, chegou a considerar essa ideologia como uma opção válida.TuNota+1La Tercera+1La Tercera+1TuNota+1
Em uma entrevista de 2012 à revista Sábado de El Mercurio, Soublette declarou:Wikipedia+1TuNota+1
“Também passei pelo nazismo. Considerei que podia ser uma opção válida. Era muito amigo da colônia alemã de Viña e Valparaíso, alguns eram nacional-socialistas e diziam que era um regime necessário para certos países, como a França. Mas quando soubemos realmente o que era, foi horripilante para nós.” La Tercera+1TuNota+1
✝️ Conversão e distanciamento
Após sua conversão ao cristianismo, Soublette se afastou completamente dessa ideologia. Ele passou a se declarar um estudioso do fenômeno nazista, analisando-o sob uma perspectiva crítica e filosófica. Em entrevistas, enfatizou que, ao tomar conhecimento das atrocidades cometidas pelo regime nazista, especialmente o Holocausto, ficou profundamente horrorizado e rejeitou totalmente essas ideias.TuNota+1Wikipedia+1Wikipedia
Foi assim que nos anos seguintes, Soublette dedicou-se ao estudo e à valorização da cultura popular chilena, especialmente a mapuche, tornando-se um defensor do meio ambiente e da sabedoria ancestral. Seu trabalho foi amplamente reconhecido, culminando com a concessão do Prêmio Nacional de Humanidades e Ciências Sociais em 2023.Portanto, embora tenha tido uma fase de simpatia pelo nazismo em sua juventude, Gastón Soublette reconheceu esse erro, distanciou-se completamente dessa ideologia e construiu uma trajetória marcada pelo humanismo, pela valorização das culturas tradicionais e pelo compromisso com a justiça social.
Lendo isso, qualquer um pode pensar: “Como pode ele não saber já nos anos 40-43 e logo depois do dia D, as atrocidades e o terrível que foi o Nazismo!” Como historiadora, é mesmo fundamental evitar o anacronismo, e nesse caso o contexto de informação na primeira metade do século XX era outro universo.
Nos anos 40, mesmo em países com jornais e rádio mais ativos, as informações vinham filtradas pela censura de guerra, pelo viés político das publicações e pela dificuldade logística de transmitir notícias internacionais. Ainda mais para a América do Sul, que recebia informações com atraso, muitas vezes através de agências de notícias de matriz europeia ou norte-americana. E mesmo essas, nem sempre divulgavam tudo — muitas atrocidades nazistas só vieram à tona de maneira clara e pública após o julgamento de Nuremberg (1945-1946).
Isso me lembrou bem do caso dos soldados japoneses que ficaram ilhados sem saber do fim da guerra! O mais famoso foi Hiroo Onoda, um oficial japonês que permaneceu em combate na selva filipina até 1974, acreditando que a guerra ainda não tinha acabado. Isso ilustra o quanto a comunicação era limitada, parcial e controlada naquela época.
No caso do jovem Gastón Soublette, era um estudante chileno, vivendo num meio de elite conservadora, com contato restrito a círculos sociais que, muitas vezes, viam o fascismo e o nacional-socialismo como uma resposta à instabilidade social e ao comunismo. Esse tipo de visão era mais comum do que a gente imagina na América Latina dos anos 30 e 40. Só depois, com o horror dos campos de concentração sendo revelado, a maior parte dessas simpatias ou simpatizantes mudaram de posição ou silenciaram.
O próprio Gastón nunca escondeu esse episódio da juventude e sempre fez questão de frisar o quanto se horrorizou depois ao descobrir o real significado daquele regime. É um exemplo interessante de transformação intelectual e moral.
