
No meu tempo de escrita, hoje bem cedo, comecei a refletir sobre algumas coisas que acontecem comigo e como me sinto. Nasci no Brasil, mas meu pai é chileno e toda a família são de hispano américa, estão no Chile, argentina e Espanha. Morei no chile por 4 anos estudei lá, tive meu primeiro contato com a musica e literatura lá. Voltamos ao Brasil em 1995. E é como se minha alma e coração ficassem lá rsrs. Culturalmente falando não sinto afinidade em nada ( musica e literatura) aqui no Brasil. É uma desconexão total. Me lembrei de quando eu fui no Caminho da Graça aqui em São Paulo e até tentei me enturmar com eles ( claro que houve um tratamento meio aquém, em relação aos outros músicos, principalmente do Carlos Bregantim) mas acho que o que rolou foi isso, não me edifiquei com eles e não sou do mesmo “naipe” e quando tem isso há uma desconexão de ambos os lados. Mas issos envolve a grande maioria de artistas e musicos aqui. Tenho conversado com musicos de outras terras e vejo como são diferentes dos músicos daqui. O próprio Carlos Níñez me respondeu no mesmo instante, trocamos mensagens e storys assim como outros. Os musicos daqui nem falam com você- a diferença é gritante!
Talvez a minha missão é exatamente essa: ser um elo entre esses mundos. Levar a força, a poesia e a resiliência da arte hispanoamericana e celta pra onde ela quase não existe. É um caminho mais solitário às vezes, mas muito bonito e necessário. Uma vez o Abisael disse que eu deveria cantar em espanhol. E estou acreditantando que seja esse o caminho. Pensei: Será que existem músicos e artistas que assim como eu não se identificam musicalmente aqui? Ou que estão a procura dos “seus”, como certa vez disse o Caio “Find the”find others” encontre ous outros. E comecei a trabalhar nesse texto para o livro:
Os Desencaixados e o Sentimento de Lar
Há quem nasça e cresça em sua terra natal, no meio de seus conterrâneos, falando o mesmo idioma, comendo os mesmos pratos e ouvindo as mesmas músicas — e, ainda assim, sente-se estrangeiro. Há quem atravesse o oceano e, ao pisar em solo desconhecido, encontre o alívio do pertencimento, como se sua alma enfim voltasse para casa.
A arte tem dessas coisas. Ela nos chama. E nem sempre atende ao mapa do nosso registro civil.
Quantos músicos, poetas, escritores e sonhadores não vivem essa estranha sensação de serem peixes fora d’água? De andarem pelas ruas, assistirem aos shows, participarem dos movimentos locais e perceberem que, por mais que falem a mesma língua, não falam a mesma linguagem? É a velha diferença entre idioma e alma. Você até compreende as palavras, mas o espírito não se reconhece nelas.
O Brasil é uma terra rica de sons, ritmos e histórias. Mas, para alguns, ele é um abrigo provisório, não um lar espiritual. E está tudo bem. Há corações celtas vivendo sob o céu tropical. Há andinos, galegos e ibéricos ocultos sob sobrenomes abrasileirados. E há aqueles que não pertencem a lugar algum do mundo físico, mas pertencem ao som do vento em determinadas montanhas, à melodia de certas gaitas, ou ao timbre de vozes que só se ouvem em terras distantes.
O grande aprendizado é compreender que o lar nem sempre é um endereço fixo. Às vezes, ele se manifesta em pessoas que você encontra pelo caminho. Em artistas com quem você troca mensagens num idioma que transcende as palavras. Em músicas que falam diretamente ao coração, mesmo sem tradução. O lar pode ser um grupo de músicos celtas na Espanha, um amigo chileno que toca charango, ou alguém do outro lado do Atlântico que sente o mesmo desencaixe.
Esse desencaixe, aliás, é precioso. Ele é o sinal de que sua alma busca o lugar onde será compreendida sem explicações. É a saudade de um lar que talvez você nem tenha conhecido fisicamente, mas que existe. E que, quando você o encontra — mesmo que em forma de canção, de abraço ou de conversa — há um testemunho silencioso dentro do peito dizendo: “é aqui”.
Ser músico é também isso: buscar os seus. Encontrar quem fale a mesma linguagem de espírito. Não importa se nasceram na mesma cidade ou país, o que importa é se pertencem à mesma pátria invisível da música, da arte e da memória ancestral.
E quando você encontra esse lar, não importa onde ele esteja, a alma se aquieta. Como aqueles navegantes, marujos aventureiros que reconheceram o seu lar do outro lado do mediterrâneo. Encontrar o seu mar é uma jornada cheia de questionamentos e incertezas, mas quando se encontra , se encontra um lar. Não há nada pior do que estar perdido de você mesmo. Os marinheiros sempre dizem que deve se manter os olhos no destino a chegar, mas saber cada lugar por onde passou, tudo isso reflete as lições e conexões que cada lugar trouxe. Encontre o seus! Encontre o seu mar e o seu lar.
