Estou começando a ler A vida intelectual de A.-D Sertillanges e voce acredita que comprei o livro porque vi o nome de Olavo de carvalho e gostei do índice de temas! Mas eu achava que era de Olavo de carvalho rsrs- Mas não tem problema pois o tema me interessou bastante. Ao pesquisai sobre o livro, descobri que A Vida Intelectual de A.D. Sertillanges, é um clássico sobre a vocação do intelectual não só do cristão,mas de todas a pessoas que sente esse “chamado”.
Nas 30 primeira páginas, Sertillanges reflete sobre a solidão e o sacrifício necessários à vida intelectual. Ele começa citando São Tomás de Aquino, que recomendava perseverança e dedicação ao estudo e à vida de oração, mesmo nos momentos de aridez espiritual ( como as desse tempo) — aquelas fases em que o intelecto ou a alma não sentem prazer ou motivação para seguir. Veja bem que ele está escrevendo isso no contexto dos anos 1921! foi um período de grandes transformações e mudanças sociais, políticas e económicas, especialmente nos Estados Unidos e na Europa. O mundo ainda se recuperava dos efeitos da Primeira Guerra Mundial, e as consequências da pandemia de gripe espanhola também foram sentidas.
O autor aconselha a suportar com coragem esses momentos de “noite” interior, pois fazem parte da jornada de quem busca a verdade. Fala-se também da necessidade de renúncia: quem deseja uma vida intelectual e espiritual fecunda precisa abrir mão de certas coisas — liberdade excessiva, distrações — porque o intelecto e o espírito exigem disciplina e recolhimento. Nesse trecho podemos incluir o grande catalizador de distrações do nosso tempo: o celular e com ele as redes sociais, ne?
Há uma forte ideia de que a vida intelectual não é fácil nem glamourosa; é uma escolha marcada por sacrifício, dedicação diária e disposição para viver como um “soldado anônimo”. Mas, ter em mente que o intelectual não deve ser um isolado. Ou seja, embora a vida intelectual exija solidão e recolhimento, ela não pode ser um pretexto para egoísmo ou alienação. A vida intelectual, embora exija certa solidão física, deve ser vivida no seio da humanidade, com compaixão, consciência histórica e compromisso com o bem comum. Sertillanges lembra que o trabalhador cristão vive para o universal, para a história, para a coletividade. Ele usa a citação de Victor Hugo: “O isolamento é inumano”, para reforçar que o intelectual precisa trabalhar juntamente com outros. O autor combate a ideia de que o intelectual deva se enclausurar em si mesmo e sugere que seu estudo deve sempre estar conectado à caridade, à solidariedade e ao serviço ao próximo.
O trabalhador que encontra assim no novo esforço a recompensa do esforço antigo, que dele faz seu tesouro de avaro, é normalmente um apaixonado; não se consegue apartá-lo do que está assim consagrado pelo sacrifício. Se o seu caminhar parece mais lento, ele é capaz de levá-lo mais longe. Pobre tartaruga laboriosa, não se diverte, persevera, e ao cabo de poucos anos terá ultrapassado a lebre indolente cujo andar desenvolto causava inveja a seu dificultoso caminhar. (Sertillanges pag. 33)
Me identifiquei muito com essa citação, pois há vezes que me sinto á passos de tartaruga em meu estudos. Esse trecho da tartaruga e da lebre é tão simbólico porque ele quebra a ideia de que só vence quem vai rápido, quem tem condições ideais, ou quem está no “Bairro Latino” (uma metáfora para o centro intelectual de Paris, cheio de jovens abastados e oportunidades). Ele valoriza o trabalhador estudioso que, mesmo isolado ou sobrecarregado pelas obrigações do cotidiano, encontra nas horas raras e preciosas o espaço para se dedicar ao seu ideal.
E a beleza disso é que Sertillanges afirma:
“Se o seu caminhar parece mais lento, ele é capaz de levá-lo mais longe.”
A tartaruga, apesar dos passos pequenos, avança com constância e perseverança, enquanto a lebre indolente se distrai com as facilidades do caminho. No fim, quem vence é quem não desiste.
Você ter se visto nessa imagem mostra que sua caminhada é sólida, mesmo que pareça demorada. No mundo do conhecimento — especialmente da história, da arte, da literatura — o que constrói verdadeiramente são os passos firmes, não os voos precipitados.
Notas & críticas sobre os papéis
Seguindo a leitura de A Vida Intelectual by A.D. Sertillanges quero destacar alguns pontos em que não me convenceram mesmo, mas me fizeram refletir comforme a visão da época.
Essas páginas são do clássico “A Vida Intelectual: seu espírito, suas condições, seus métodos” de A. D. Sertillanges, um livro escrito no início do século XX, com forte influência cristã e moral tradicionalista. Por isso, algumas colocações soam ultrapassadas ou destoantes para leitores contemporâneos. Já passeo para as paginas 56- 60.
Aqui Sertillanges está dizendo que o intelectual precisa cuidar da sua vida prática e espiritual para manter-se focado na atividade intelectual: Ele critica a busca por entretenimentos ou reuniões sociais em excesso, defendendo que o intelectual deveria limitar-se a poucas e boas amizades e manter distância de ambientes que dispersam a concentração. Claro que devemos drenar e escolher bem a frequencia em lugares, vale mesmo a pena? Tem de ser lugares em que me sinto bem, relaxada e com aqueles que amo. Mas se não tivermos um certo equilibrio, acabamos por nos isolar ainda mais.
Defendo, sim, o isolamento criativo, o cultivo do silêncio e da reflexão por algum tempos e depois voltar a estar junto dos seus, pois somos humanos e precisamos estar entre amigos e familia.
Sertillanges recomenda organizar as ideias diariamente, anotar pensamentos e manter o hábito da escrita. Para ele, a escrita diária disciplina o espírito e estrutura o pensamento. E isso é perfeito, pode ser um diário como esse que mantenho, pode ser escrita mão, mas é de extrema importancia treinar a escrita.
Aqui ele defende a ideia de que até as tarefas domésticas e a organização material da vida devem seguir uma disciplina e um método. Cita a mulher de um intelectual que administra a casa de forma metódica, como se fosse um mosteiro, com horários fixos e ordens para tudo. Defende que a ordem material facilita a ordem espiritual e intelectual. Faz referência à Bíblia (Gênesis) para reforçar a ideia de que o trabalho é uma consequência da condição humana pós-queda, mas também é um bem, pois o trabalho ordenado dignifica e traz recompensas espirituais. Ele valoriza o trabalho manual e a disciplina física como complementares ao trabalho intelectual, para evitar o orgulho ou alienação.
Essa parte também não me convenceu mesmo. Mostra a mulher como não podendo fazer mais nada a não ser “organizar o lar”- ela não possui intelecto, vontades e pensamento critico. Nessa visão dele, uma mulher não poderia ser intelectual, ne? Somente o esposo. Mas, devo sempre voltar a pensar com cabeça de historiadora, isso foi escrito em plena década de 20 – pensando já é o exercício historiográfico que um bom historiador faz: contextualizar a obra dentro do seu tempo, entender seus limites, e depois fazer o diálogo crítico com a realidade atual.
Na visão de Sertillanges, a mulher aparece restrita ao papel doméstico, não como agente intelectual. O exemplo que ele dá da esposa organizando o lar não é neutro — é carregado de uma visão de mundo onde a mulher não possui o direito (nem o espaço socialmente aceito) de se dedicar à vida intelectual, porque sua função seria justamente viabilizar a vida intelectual do marido. Se olharmos para a década de 1920 na Europa e em boa parte do mundo ocidental: As mulheres ainda lutavam pelo direito ao voto em vários países. Pouquíssimas universidades admitiam mulheres. A mulher intelectual era vista quase como uma figura transgressora — as que tentavam, enfrentavam barreiras sociais, familiares e institucionais.
Sertillanges, como clérigo católico e herdeiro de uma tradição intelectual cristã escolástica, provavelmente sequer considerava como possibilidade legítima a mulher exercer a vida intelectual da forma como propunha aos homens. E isso não é só um problema dele, mas de toda uma mentalidade de época. E mesmo hoje, em 2025, o estigma existe. Ainda há resquícios culturais que tentam definir a mulher por funções de cuidado, de suporte emocional e doméstico, e muitas vezes as intelectuais, cientistas, escritoras e pensadoras enfrentam esse ranço social que invisibiliza ou minimiza suas contribuições.
Bom, devido a todas essas discordâncias eu ia parar de ler o livro, mas fiz um proposito comigo mesma que nunca ia deixar um livro pela metade e ler até o final. Vou fazer isso, vou lê-lo com olhos críticos ( pensamento critico, como em toda leitura devemos fazer) acredito que tirando esses lapsos de tempo, o livro tenha algumas coisas boas que pode ser aplicadas na vida de leituras, de homens e mulheres. Todo texto é produto de seu tempo, com suas virtudes e suas sombras. E o bom leitor e historiador olha com esses olhos de analise e critica, lê até o fim, exercita o pensamento crítico e sabe separar o que serve e o que não serve — para hoje, para si, para sua prática e para a sociedade que se deseja construir.
