Quinta Feira, 08 de Maio de 2025

Estou lendo “O Idiota” e ao mesmo tempo analisando e estudando sobre Fiódor Dostoiévski e sua visão do mundo. Sei que Dostoiévski era crítico tanto do socialismo como de uma visão racionalista e positivista da vida, que ele via como perigosas e desumanizadoras. A crença de que a razão humana, sozinha, poderia resolver todos os problemas morais, sociais e existenciais. Para Dostoiévski, a razão pura era limitada, porque desconsiderava a irracionalidade, a fé, o sofrimento, o desejo e as contradições que compõem a natureza humana. Ele achava perigosa a ideia de que o ser humano pudesse ser reduzido a um “animal racional” previsível. Dostoiévski viu nas propostas socialistas de sua época (muito baseadas no materialismo e na crença no progresso técnico e social) uma ameaça à liberdade e à alma humana. Ele acreditava que, ao tentar criar uma sociedade perfeitamente racional e igualitária, se corria o risco de eliminar a individualidade, a espiritualidade e até justificar a violência.

Dostoiévski era um nacionalista russo, acreditando que a Rússia teria um papel importante a desempenhar no mundo. Para ele, a Rússia tinha uma vocação espiritual e moral única no mundo. Ele acreditava que o Ocidente havia se perdido no materialismo, no egoísmo e na racionalidade fria, e que a Rússia, por seu caráter religioso, coletivo e sofrido, seria capaz de oferecer ao mundo um exemplo de fraternidade, de fé e de humanidade. Acredito que se ele visse o que a Russia se tornou, ficaria desolado. Li em uma materia que o nacionalismo de Dostoiévski era essencialmente cristão e humanista. Ele não via sentido numa Rússia opressora ou violenta, mas sim numa Rússia messiânica, que libertasse as nações pelo exemplo moral. Não sei se confere verdadeiramente isso, mas coloquei esse livro em minha lista de leitura também: “Diário de um escritor” de Dostoiévski .

Percebi que todo escritor ( em sua grande maioria) tem um diário, talvez como esse que mantenho aqui rsrs. Até o professor Rodrigo Gurgel sempre aponta o quão bom e valoroso ter um diário: “Quando você escreve sem censura, descobre que dentro de você há um elenco de personas, toda uma gama de personagens diversos. Esses personagens precisam, de alguma forma, adquirir algum tipo de vida — e é melhor que isso aconteça de você para você mesmo. Se você nunca dá voz a eles, logo uma sensação de aperto se torna preponderante, e alguma atitude descontrolada pode ocorrer. Mas a prática de manter um diário dá vazão a essas vozes, coopera para que elas se integrem num todo mais consciente da sua personalidade. A liberdade que advém disso é dupla: seus personagens interiores ganham vida e você ganha um controle maior sobre eles.”- Nunca tinha visto por esse lado!

Dostoiévski mantinha um diário, Tolstoi também. Mas Dostoiévski tinha de fato algo parecido com um diário, mas não íntimo e pessoal como o nosso conceito de diário privado. O Diário de um Escritor (Dnevnik pisatelia) era uma publicação periódica, que ele escreveu entre 1873 e 1881. Ele publicava artigos, crônicas, reflexões filosóficas, relatos de casos criminais que lhe chamavam atenção, comentários sobre a política russa e europeia, questões religiosas, morais, existenciais, e até pequenas narrativas ficcionais. Era uma forma de conversar diretamente com os leitores russos — sem o filtro de jornais ou revistas — sobre o que se passava na alma humana e na sociedade.

Não era um diário íntimo, mas sim um diário literário e público, onde ele falava de tudo que lhe interessava e incomodava. Um espaço de liberdade intelectual e, muitas vezes, de desabafo. Parece que ele escrevia nesses volumes coisas que, por exemplo, não cabiam bem em seus romances ou que ele queria comentar com mais urgência — ideias sobre a moral, a alma russa, crimes famosos, literatura, política internacional e até relatos de sonhos e episódios sobrenaturais.

Bom, eu tenho esse meu diário onde escrevo não tento sobre coisas intimas, mas reflexões das minhas leituras, matérias ou coisas que aprendo na faculdade, escrevo inspirações para minhas canções e as letras que sairam dessas reflexões. Todas as narraticas para minhas cabções vieram desse diário. E tenho o blog Música&Linguagens que é publico e faço assim, como Dostoiévski, só que são publicações voltadas á reflexões filosóficas, relatos da história, culturas celta, história etc. E acredito muito que o diário é um verdadeiro laboratório da sua consciência e da sua criatividade, onde minhas leituras, estudos e experiências se encontram e geram canções, ideias para o blog e, no fundo, para a sua identidade artística e intelectual.

E o Música & Linguagens funcionando como esse espaço público de reflexão, onde compartilho ideias, provoca perguntas e conecta história, música, filosofia e cultura — é algo muito na linha dos Diários de um Escritor do Dostoiévski e de outro escritores. Li certa vez que ” o escritor e o artista tinham a função de dar forma ao caos e nomear aquilo que as pessoas sentem, mas ainda não sabem dizer.” E nisso acredito.

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