La Hermandad de los Celtas, by Carlos Núñez II – A Música do Rei Arthur e o Fascínio das Lendas Celtas

Em um dos capítulos mais fascinantes de La Hermandad de los Celtas, Carlos Núñez nos conduz por um tema que, de tão antigo, ainda ressoa nos dias de hoje: a matéria de Bretanha e as lendas do Rei Arthur. Ele apresenta isso de maneira apaixonante, destacando como essas histórias sobreviveram, se transformaram e conquistaram a Europa medieval — e, de certa forma, nunca nos deixaram.

O historiador Simon Young, citado no livro, compara o ciclo arturiano à explosão cultural do rock and roll no século XX. Assim como o rock mexeu com as bases sociais e culturais do mundo moderno, as histórias do Rei Arthur, Merlin, Ginebra, e dos cavaleiros da Távola Redonda agiram como um “vírus cultural” na Idade Média — algo que se espalhou e encantou o imaginário coletivo europeu.

Mas por que, afinal, histórias de povos considerados “bárbaros” e provincianos tiveram tanto sucesso? Núñez explica, a partir de Young, que o cristianismo havia apagado boa parte das velhas lendas populares em toda a Europa, restando como entretenimento apenas as vidas dos santos e os Evangelhos. Os celtas, por outro lado, souberam fazer conviver suas histórias ancestrais com a nova fé, sem vê-las como uma ameaça. Assim, lendas antigas e tradições cristãs acabaram se misturando — e em vez de serem rejeitadas, essas narrativas foram absorvidas e celebradas.

Essas histórias sobreviveram graças aos bardos, trovadores e poetas que, mesmo após as invasões normandas e a queda das cortes celtas, continuaram transmitindo esses relatos em festas populares e pelas estradas da Europa medieval. Poemas e narrativas como Tristán e Isolda e Perceval atravessaram fronteiras e chegaram a França, Espanha, Itália e Alemanha. E embora hoje associemos esse ciclo especialmente a Gales e à Bretanha continental, as conexões intercélticas eram muito mais amplas — envolvendo Escócia, Irlanda e Cornualha.

Outro ponto belíssimo que o livro aborda é a origem dessas narrativas, muitas delas reunidas no Mabinogion, uma coletânea de contos galeses escrita entre os séculos XI e XIV, mas que carrega mitos muito mais antigos, vindos da tradição oral celta e até da Idade do Ferro. Nesses relatos, já encontramos as figuras de Arthur, Merlin (Myrddin), e todos os elementos encantados que fariam parte da matéria de Bretanha: donzelas em perigo, castelos misteriosos e batalhas contra invasores saxões.

O livro ainda nos lembra que, no meio dessas histórias, a música sempre esteve presente. Geoffroy de Monmouth, por exemplo, um dos grandes responsáveis por popularizar essas narrativas no século XII, menciona em sua Vita Merlini a cena em que Merlin enlouquece após uma batalha e se refugia na floresta. Ali, é a melodia suave de uma harpa que o acalma e o faz reencontrar a razão. Um detalhe que reforça a importância da música não só como elemento cultural, mas como força de cura e memória nas tradições celtas.

“Na verdade, essa época obscura, marcada pela luta dos britanos contra os invasores anglos e saxões, e pelo hipotético personagem histórico que deu origem ao mito do rei Artur, foi caracterizada por muitas relações “interceltas”, como vimos na seção anterior. Os britanos fugiram em massa de Gales e da Cornualha e se estabeleceram na pequena Bretanha continental. Sempre se acreditou que um deles poderia ter sido o famoso bispo Maeloc, que fundou a Bretanha em Lugo.

A Matéria da Bretanha, com todo o seu imaginário, foi historicamente uma das grandes temáticas “celtas” (ainda que saibamos que essa palavra caiu em desuso na Idade Média), a ponto de continuar a nos fascinar até hoje. O mais curioso é que seus grandes divulgadores, desde o século XII — como Geoffroy de Monmouth ou Marie de France — atuaram de maneira semelhante e com materiais muito próximos aos utilizados por Macpherson no século XVIII ou La Villemarqué no XIX. Na verdade, Monmouth, que escreve em plena Idade Média um dos primeiros best-sellers da literatura ocidental, História dos Reis da Bretanha, vem de uma localidade galesa cuja língua deveria conhecer, pois deixou registrado que se inspirou em antigos manuscritos em galês e que poderia ter colhido material da tradição oral anterior a ele.

De certo modo, Monmouth é um precursor de todos esses temas que estamos tratando, pois conecta os bretões continentais e cornuallenses com os britanos galeses (e aí poderíamos situar, como dissemos, a origem irlandesa de histórias como a de Tristão e Isolda) numa espécie de interceltismo avant la lettre. Embora escrevesse em prosa, Monmouth faz inúmeras menções à música — por exemplo, em Vita Merlini, onde conta: “Merlim enlouqueceu após uma batalha e vive em uma floresta. Acalmado por uma melodia de harpa, esquece sua loucura.”

Donatien Laurent sustenta que se poderia dizer que os lais de Marie de France ou os romans de Chrétien de Troyes, no século XII, já representam uma forma de recolha da tradição oral, uma vez que são transcrições de lendas bretãs. Inclusive, um rei da Noruega enviou, no século XII, emissários à Bretanha para recolher lais, que hoje podemos comparar com os de Marie de France e com os anônimos. Algumas melodias desses lais, transcritos na Idade Média, chegaram até nós — e talvez guardem ecos da poesia e da música de tradição oral das quais se originaram, como a própria Marie de France reconhece.

Tamanha foi a fama de Merlim e do mundo céltico desde a Idade Média que até o próprio rei Afonso X, o Sábio, os introduziu nas Cantigas de Santa Maria, onde não só se fala de Merlim, como também de histórias ocorridas na Bretanha. De fato, estudiosos afirmam que a recepção da Matéria da Bretanha na Galícia foi precoce, o que seria comprovado pela existência de uma representação de Tristão em uma escultura da catedral de Santiago, da qual já falamos.

A professora María Lopo, da Universidade de Rennes, escreve:

As canções, as lendas orais célticas, estavam na moda na Idade Média. Os últimos “bardos” bretões percorriam as cortes feudais cantando histórias exóticas e maravilhosas; eram “os últimos selvagens do Ocidente”. Sabe-se que eram muito admirados nas cortes occitanas, e até conservamos o nome de um deles, Bleheri, que cantou na corte de Guilherme IX, duque da Aquitania, o primeiro trovador.

O filho do duque da Aquitania era o famoso Dom Gaiferos — o mesmo que, segundo a lenda, morreu na catedral compostelana. Como no restante da Europa, essa temática causou furor na Galícia, onde os nobres davam nomes arturianos a seus filhos. Ainda hoje seguem presentes no imaginário popular lendas como a do cálice do Cebreiro — equivalente ao Santo Graal — ou a do escudo da Galícia, onde o cálice também representaria o Graal, e a hóstia simbolizaria o pôr do sol no mar. Na verdade, é uma temática que continua gerando frutos literários na Galícia até hoje, com grandes nomes como Cabanillas, Cunqueiro ou meu amigo Ferrín.

Esse trecho Carlos se recorda uma visita que fez a O Cebreiro — a entrada da Galícia pelo Caminho de Santiago — junto de Alan Stivell, músico bretão muito interessado em conhecer tanto o cálice medieval conservado no santuário quanto as pallozas, aquelas habitações circulares com teto de palha, que lembram as casas dos castros pré-históricos. Para Carlos, isso é mais um exemplo de como esses temas célticos fascinam artistas do mundo todo há mais de mil anos, e felizmente nos chegaram testemunhos escritos sobre eles.

Ele lembra também que Marie de France foi a primeira pessoa a escrever, no século XII, em língua românica poemas — ou melhor, canções — sobre temas de origem céltica: os lais. A origem da palavra lai permanece misteriosa: alguns acreditam que venha da língua celta (no gaélico, por exemplo, se diz laoidh, como nos Ossianic lays escoceses já mencionados), enquanto outros pensam que foram os normandos francófonos que levaram esse termo às ilhas britânicas. O autor alerta que as influências são sempre multidirecionais: os trovadores do continente também influenciaram a música das ilhas. Muitos estudiosos defendem que os normandos teriam levado trovadores franceses à Irlanda, possivelmente acompanhados de suas harpas de cordas de tripa e, quem sabe, até suas gaitas, entendidas como instrumentos savant, ou seja, cultos. Há inclusive quem afirme que o Amhrán (um tipo de canção gaélica) teria nascido também pela influência dos trovadores normandos.

Cantigas, Celtismo e Ecos de Influências Antigas

O poeta Seán Ó Tuama estudou profundamente esse tema e descreveu canções irlandesas no estilo sean-nós com estrutura e temática muito semelhantes às nossas Cantigas de amigo, às canções de mulher ou às danças circulares do tipo carole. Para ele, grande parte da música irlandesa, vocal e instrumental, que sobreviveu até hoje, teria origem aí. Ele comenta, por exemplo, que a palavra damhsa (dança) teria chegado ao irlandês trazida pelos normandos. Outros autores, embora reconheçam a influência do amor cortês francês, acreditam que há elementos vernáculos muito antigos que só apareceram por escrito pela primeira vez com o desaparecimento das escolas de bardos no século XVII.

A musicóloga Ann Buckley explica que a história da música na Irlanda medieval resulta da fusão de todos os elementos culturais que compunham aquela sociedade. Alguns aspectos eram únicos, outros compartilhados com a cultura internacional europeia. Embora existam características regionais inegáveis, as teorias sobre uma cultura isolada e estática desaparecem ao se examinarem as evidências. A participação ativa dos irlandeses na Escócia, Inglaterra, País de Gales e em várias regiões da Europa continental — através do comércio, da educação e das redes eclesiásticas — está comprovada em áreas como arqueologia, história da arte e arquitetura. Os registros de atividade musical apontam para formas semelhantes de intercâmbio.

O fato é que o lay foi uma moda que se espalhou por toda a Europa, fenômeno parecido com o do Ossian de Macpherson, séculos mais tarde. Sobre isso, Sally Harper menciona que, na história de Tristão e Isolda narrada por Gottfried von Strassbourg (ativo em 1210), o herói Tristão conta ter sido encantado por um lay bretão tocado por um harpista, descrito como “mestre de sua arte, o melhor conhecido, e galês”. Além disso, o próprio Tristão canta um lay em bretão, galês, latim e francês, acompanhado por harpa, e narra ao rei Mark que aprendeu a tocar harpa e rota com dois mestres no País de Gales. O texto de Gottfried se baseia em uma obra anterior do poeta Thomas de Bretaña (que poderia ser da Bretanha francesa ou da Grã-Bretanha).

O autor ainda recorda uma edição fac-símile do manuscrito Ap Huw, mostrada a ele pelo harpista Bill Taylor, que traz três peças relacionadas a Artur. Em uma delas, aparece o nome do mítico rei ao lado de uma peça “tocada ao servir o jantar e a ceia na corte de Artur”. Outra, chamada “Caniad Pibau Morfydd”, segundo o manuscrito, seria obra de Artur. Como explica Peter Greenhill, no século XVI se considerava adequado que um rei como Artur fosse o modelo ideal, tocando cerdd dant instrumental, gênero musical promovido pelos bardos em toda a Europa.

Greenhill diz ainda que essas peças são muito antigas, o que lhes conferia prestígio nessa cultura, e que a referência a Artur, embora não literal, buscava precisamente esse valor de antiguidade, como em outros casos em que personagens históricos serviam para datar uma obra. A peça “Caniad Pibau Morfydd” teria alto status e estaria associada ao rei Cadwaladr, do século VII. Em sua excelente gravação da obra, Bill Taylor afirma:

“É uma obra-prima medieval, com quinze seções, e quase tão longa quanto uma sinfonia clássica. É um desafio tanto rítmico quanto harmônico. Contém temas que aparecem e depois retornam, entre seções que funcionam como peças de dança, momentos introspectivos ou triunfantes. Quem teria sido Morfydd e qual seria o significado da menção à gaita (pibau)? Parece que há uma história sendo contada — mas uma história sem palavras.”

Sempre me perguntei se, além dos lais, haveria também algo de celta em outro tipo de cantigas profanas — sobretudo na música, claro — das quais, infelizmente, só se conservaram as seis melodias de Martin Codax (uma das sete está sem música) e as sete cantigas de amor do rei Dom Dinis de Portugal, conhecido em castelhano como Dom Dionís. Lembro de ouvir diferentes versões dessas cantigas de amor de Dom Dinis junto a quem as descobriu em 1990 na Torre do Tombo, em Lisboa: o professor Harvey Sharrer, com quem tive o imenso prazer de conviver na Universidade de Santa Bárbara, Califórnia, e que acabou tocando zanfona conosco!

Enquanto as escutávamos, Sharrer e eu não podíamos deixar de pensar na música da Irlanda. Quem sabe uma influência do amor cortês trazido pelos normandos e que se misturou ao repertório irlandês? Vale lembrar que esses elementos persistem até hoje nas chamadas grandes canções de amor masculino irlandesas, com melodias muito elaboradas no estilo sean-nós.

Mas, além disso, devemos lembrar que na Irlanda já existia, antes mesmo da chegada dos normandos — ao menos desde o século VII —, uma poesia lírica feminina com características muito semelhantes às das cantigas de amigo. Com frequência, o amado está no mar, a jovem imagina que ele voltou e, pela manhã, descobre que tudo foi apenas um sonho. Exatamente como nas cantigas de Martin Codax! E sem esquecer da natureza mágica, elemento essencial em toda a antiga poesia celta.

Ó Tuama considerava essas canções de lamento amoroso juvenil feminino como “a maior realização da canção popular irlandesa — e talvez da maior parte da canção tradicional europeia”.

Intercâmbios nas Dark Ages

É sabido que as cantigas de amigo eram típicas dos jograis galegos. A novidade, para muitos, é a possibilidade de que também guardem elementos comuns ao universo celta. Afinal, as cantigas de amigo parecem resultar de influências muito diversas, entre as quais se destacariam as jarchas, que por sua vez se relacionavam às composições poéticas da métrica popular andalusina chamadas zéjeles.

Um amigo me revelou que o renomado arabista James T. Monroe, da University of California em Berkeley, em um artigo recente, compara a estrutura do zéjel árabe com um poema irlandês antiquíssimo, o célebre Lamento de Cuchulain, ou Táin. Sua conclusão é que, se o poema irlandês é datável no século VII, ele obviamente precede a conquista árabe da Península Ibérica em 711. Ou seja: essa tradição poética não poderia ter vindo de influência árabe, mas sim de uma origem mais antiga. Segundo Monroe, se levarmos em conta as datas mais antigas do Táin, este poderia ser pelo menos quatro séculos anterior ao aparecimento do zéjel. E, se essa forma poética existia na Irlanda e, presumivelmente, na Hispânia, isso significaria que “estava muito difundida”, e que teria sido popular a ponto de chamar a atenção dos poetas árabes de Al-Andalus, que acabariam adotando essa forma silábica e estrófica em sua própria língua.

Curiosamente, o famoso Livro de Leinster relata que as Etimologias de Santo Isidoro chegaram à Irlanda vindas da Espanha, em troca de um manuscrito do Táin. Para David Howlett, essa seria a origem da lenda dos milesianos, que Isidoro, por sua vez, teria tomado de Orosio — que, segundo teorias mais recentes, não seria galego, mas sim bretão, escravizado na Irlanda como São Patrício e que teria escapado para a Galícia. Isso explicaria seu profundo conhecimento sobre a ilha.

Simon Young propõe a hipótese de que as Etimologías de Isidoro de Sevilha (633) poderiam ter chegado à Irlanda passando por Britonia (na Galícia) e depois levadas de navio até a Bretanha ou Grã-Bretanha, de onde, então, alcançariam a Irlanda. Isso insinua uma rede cultural atlântica medieval muito mais interligada do que se costuma imaginar — e não seria absurdo pensar que, nesse vai e vem, pudesse ter havido um intercâmbio, e talvez uma cópia de textos irlandeses como o Táin Bó Cúailnge chegasse à Galícia.

Um exemplo precioso dessa circulação é o Livro de Leinster, que menciona monges irlandeses chegando à Hispânia em um curragh (embarcação típica) acompanhados de um músico — e onde também se registra a lenda de Breogán, o lendário ancestral dos galegos. Essas migrações monásticas e culturais tecem uma tapeçaria de trocas que incluiria poesia, música e literatura.

Michael McClain, em artigo na revista Grial nos anos 1970, defendeu que as técnicas métricas célticas, como as dos bardos Taliesin e os bardos hispânicos, já estavam presentes na Península Ibérica antes da romanização, e que essas práticas influenciaram a poesia em romance e até a hispanoárabe. Ele vê, por exemplo, semelhanças entre a métrica de Taliesin e o zéjel andaluz, propondo que formas de versificação hispanoárabe que não derivam do árabe clássico talvez sejam herdeiras da tradição bardica céltica.

Décadas depois, em 2016, o arqueólogo Manuel Fernández-Götz reafirma que o bilinguismo era comum na Antiguidade tardia na Hispânia, com sobrevivências célticas tanto linguísticas quanto culturais coexistindo com o latim popular e depois com o árabe.

O professor Calvert Watkins também destacava que a literatura medieval irlandesa era mais arcaica que a latina clássica, mantendo fórmulas indoeuropeias ancestrais como o dúnadh (circularidade textual — iniciar e terminar um poema com a mesma frase), possivelmente inspirado no conceito de “fechar” um castro céltico. Watkins sugere que esses recursos podem ter sido criados milênios antes.

Apesar disso, o estudo acadêmico sobre paralelos entre poesia medieval irlandesa e poesia romance ibérica (como as cantigas galego-portuguesas) ainda é escasso, segundo o autor. Mesmo assim, Rip Cohen e David Howlett enxergam na aliteração, nas rimas internas e assonâncias das cantigas de amigo uma reminiscência dessa poética céltica anterior. Não à toa, até o presidente-poeta da Irlanda, Michael D. Higgins, recitou Ondas do Mar de Vigo em gaélico.

Quanto à música, Ann Buckley observa que embora não haja notação musical irlandesa antes do século XI, no continente há registros transmitidos por monges irlandeses, como uma antífona em um breviário normando, cujas características melódicas e estruturais são nitidamente irlandesas — como a repetição interna de células melódicas, pouco comuns no canto romano.


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