As Guerras de Independência hispano-americanas: Bolívar e o Manifesto

Francisco Miranda é levado para a Espanha, onde morre numa prisão alguns anos depois. A partir desse momento, Simón Bolívar se coloca à frente dos acontecimentos. Essa iniciativa está diretamente relacionada com a forma como ele estrutura e legitima sua liderança. Não era algo dado de antemão, era preciso costurá-la, construí-la estrategicamente.

Bolívar refugia-se no norte da Venezuela, em Cartagena das Índias — um porto importante na época colonial, local de trânsito e comércio de escravizados. Ali, ele escreve o Manifesto de Cartagena, um dos pilares do ideário político de Bolívar. Nesse documento, ele começa a organizar seu discurso e sua capacidade de arrebatar emocionalmente a população do Vice-Reino de Nova Granada, ao mesmo tempo em que apresenta concepções políticas sobre a nova ordem. O Manifesto de Cartagena está disponível na biblioteca do curso, e também foi deixado como texto complementar na minha pasta.

O texto mostra como Bolívar tentava convencer a população do valor da causa revolucionária: o que queremos com esse novo mundo? O que almejamos aqui? É nesse contexto que ele começa a se organizar militarmente para reconquistar Caracas. De fato, ele retoma Caracas em meados de 1813, com apoio militar. No entanto, mais uma vez, a república que se estabelece é frágil. As forças revolucionárias são insuficientes.

Há ainda outro agravante: com a derrota de Napoleão Bonaparte, o rei Fernando VII é restaurado ao trono espanhol no início de 1814. Uma vez de volta ao poder, ele começa a se organizar para retomar o controle sobre suas colônias, agora em rebelião e desorganizadas. Mas não era possível atuar em todos os territórios ao mesmo tempo. O México já havia se libertado, e a América do Sul estava em efervescência. Então, Fernando VII escolhe concentrar esforços na Venezuela, mais próxima da Espanha e estrategicamente relevante.

Pablo Morillo: seu exército contava com cerca de 10 mil soldados

É nesse momento que ele envia um poderoso exército, comandado pelo general Pablo Morillo. Esse exército contava com cerca de 10 mil soldados, transportados por mais de 20 navios, trazendo também armas e munições. Morillo tinha uma reputação temível: havia boatos sobre sua crueldade com os inimigos e as atrocidades cometidas por suas tropas. Diante dessa ofensiva, a república de Bolívar desmorona mais uma vez, e ele é forçado a se retirar, indo em direção ao Caribe.

Ele navega pelo Caribe até chegar à Jamaica, onde escreve outro documento fundamental: a Carta da Jamaica. Por questões de tempo, não podemos analisá-la integralmente, mas a primeira frase já é bastante reveladora:
“O véu já foi rasgado. Já vimos a luz e querem nos devolver às trevas. Romperam-se os grilhões, já somos livres, e os nossos inimigos pretendem novamente escravizar-nos. Por isso, a América combate desesperadamente — e raras vezes o desespero não acarreta vitória.”

A partir da metáfora do véu rasgado que pode se fechar novamente, Bolívar convoca a população à adesão revolucionária. Nesse mesmo documento, ele analisa modelos políticos, como o da Inglaterra e o dos Estados Unidos, apontando virtudes e limitações. Bolívar, no entanto, parte de uma premissa polêmica: segundo ele, as populações sul-americanas haviam sido acostumadas à subserviência e, por isso, não estariam prontas para tomar decisões políticas. Os homens subservientes, dizia ele, são fracos, despreparados.

Com base nisso, ele justifica formas de limitar a participação popular no governo, mesmo que apresentasse esse governo como republicano. Bolívar defende, por exemplo, em certos momentos, a criação de um Congresso de Censores, formado pelos mais idosos e sábios, responsável por tomar decisões delicadas — uma forma de conferir ao governo central poderes extraordinários. As soluções propostas por ele mudam de documento para documento, conforme o contexto.

Depois da Jamaica, Bolívar parte para o Haiti, país que havia conquistado sua independência por meio da revolução dos escravizados. O Haiti, naquele momento, era governado por Alexandre Pétion. Bolívar negocia com ele o apoio haitiano à luta pela libertação do Vice-Reino de Nova Granada. Esse gesto — um país caribenho, emancipado, apoiando uma causa libertadora continental — é altamente simbólico. Nessa negociação, o tema da escravidão aparece com força, e Bolívar sinaliza o desejo de erradicá-la.

Bolívar e sua campanha pela libertação do Vice-Reino de Nova Granada

No entanto, na prática, isso se mostraria bem mais complexo. A escravidão envolvia interesses de grandes fazendeiros e mineradores, e sua abolição não era um processo simples nem imediato. Era necessário tratar o tema com diplomacia.

A partir de 1816, Bolívar retorna ao continente americano e dá início à campanha pela libertação do Vice-Reino de Nova Granada. Ele enfrentará, então, o poderoso exército espanhol de Pablo Morillo — numeroso, bem armado e com fama temível. Mas Bolívar também enfrenta resistência das elites locais, que temem as transformações sociais da nova ordem. Além disso, ele precisa conquistar o apoio das camadas populares: escravizados, indígenas e trabalhadores das planícies venezuelanas (os llaneros), conhecidos por seu estilo de vida livre e por serem exímios combatentes a cavalo.

Esses grupos populares, uma vez integrados ao exército revolucionário, fariam uma enorme diferença. Ainda assim, Bolívar precisa lidar não apenas com os inimigos espanhóis, mas também com as tensões entre as elites de Caracas e de Bogotá. A elite de Bogotá não via com bons olhos a chegada de um exército venezuelano que tomava as rédeas do movimento libertador. As relações entre Venezuela e Nova Granada precisavam ser cuidadosamente equacionadas, para que o projeto de independência pudesse avançar com êxito.

De toda forma, Bolívar vai constituindo um corpo de generais, distribuindo as tarefas e regiões entre eles. Ao mesmo tempo, zela pela lealdade desses generais — o que, por si só, não é algo garantido. Em determinado momento, um de seus generais é executado, acusado de traição. Por isso, é necessário tanto cativar esses generais quanto subordiná-los. Esse é justamente o tema do trabalho de Fabiana Fedrigo, ao analisar as cartas escritas por Bolívar. Ou seja, ele consegue criar um vínculo de lealdade, mas, ao mesmo tempo, precisa preservar sua posição de grande liderança.

Discurso de Angostura: horizontes da independência

Tudo isso vai se construindo a partir do ano de 1816. Em 1819, um primeiro congresso constituinte se reúne em Angostura, na Colômbia (então Nova Granada). Esse congresso é um primeiro passo para a construção de uma nova ordem, vislumbrando o fim da guerra e a possibilidade de auto-regulamentação da nova sociedade. Foi nesse congresso que Bolívar pronunciou seu famoso “Discurso de Angostura”, um documento fundamental na construção dos horizontes simbólicos da independência.

O discurso apresenta uma retórica extraordinária, com uma capacidade notável de forjar símbolos poderosos e inspirar a sociedade rumo à emancipação. Como comentado anteriormente, isso já aparecia no poema em que Bolívar usa a imagem do monte Chimborazo e da visão que tem da América lá do alto.

A partir daí, ocorrem importantes batalhas: a Batalha de Boyacá, que liberta parte significativa da Colômbia; a Batalha de Carabobo, que liberta regiões da Venezuela; e a Batalha de Pichincha, que liberta uma parte do Equador. Assim, o Vice-Reino de Nova Granada começa a consolidar sua vitória sobre o exército espanhol. O general espanhol Pablo Morillo aceita se retirar da região e retornar à Espanha após a assinatura de um armistício. A vitória em Nova Granada está consolidada. O grande desafio que permanece é a libertação do Peru.

San Martín havia chegado a Lima, conquistado a cidade e instaurado uma república no Vice-Reino do Peru. No entanto, era uma república instável, vulnerável e incapaz de se defender da reação das forças realistas leais à Espanha. Essas forças incluíam tanto espanhóis peninsulares quanto criollos do próprio vice-reino, que preferiam manter os laços coloniais.

San Martín deixa o Peru para encontrar-se com Simón Bolívar

Quando falarmos especificamente do Peru, vamos aprofundar essa questão, que envolve a história do vice-reino se vendo como um protegido da Espanha. Durante muito tempo, ali se concentravam muitas pessoas com títulos nobiliárquicos, e havia uma nostalgia do passado colonial, idealizado como um tempo de glória. Além disso, pesava o medo das elites em relação às populações indígenas, especialmente após a insurreição de Túpac Amaru.

Tudo isso favorecia a força das tropas realistas no Peru. San Martín se via impotente diante dessa situação. Seu braço direito, Bernardo de Monteagudo — figura que aparece na obra de Luis Romero — era argentino, com ideias inicialmente radicais, mas que, no Peru, passou a defender a instauração de um regime monárquico. Para ele, seria preciso força e autoridade para construir a nova ordem, já que a república se mostrava frágil.

É nesse contexto que San Martín deixa o Peru para encontrar-se com Simón Bolívar, em Guayaquil, no Equador, no ano de 1822. Esse encontro, do ponto de vista da narrativa histórica, é carregado de simbolismo: representava a convergência possível entre os projetos independentistas do sul e do norte da América do Sul. Não se sabe ao certo os termos da conversa, mas o fato é que San Martín abandona a luta. Parte com sua filha pequena — sua esposa já havia falecido — rumo ao exílio na França, entregando o Peru aos cuidados de Bolívar.

Bolívar então passa a se dedicar à emancipação do Peru, tendo como aliado militar o general Sucre — que mais tarde daria nome à cidade boliviana de Sucre. Sucre teve papel fundamental na libertação do Peru e da Bolívia. Bolívar também se preocupava em regulamentar a nova ordem: muitos decretos anteriores não tinham surtido efeito, pois não passavam de “letra morta”.

Duas batalhas decisivas marcam esse período: a Batalha de Junín, que liberta o Peru das forças realistas; e a Batalha de Ayacucho, que liberta o Alto Peru — hoje Bolívia — da ordem colonial. Em dezembro de 1824, Bolívar prepara a Constituição da Bolívia, um documento seminal na construção da nova ordem. Contudo, é um documento de forte caráter conservador, defendendo a centralização do poder, demonstrando descrença na participação popular e apostando em uma ordem imposta de cima para baixo, com força, autoridade e instituições sólidas para conter as paixões populares.

A ideia era que só uma ordem vinda de cima poderia tirar a Bolívia e as outras sociedades recém-emancipadas da fragmentação e do caos.

Enquanto isso, Bolívar havia deixado o general Santander encarregado da organização da Gran Colômbia. Quando Bolívar retorna à região, se depara com um cenário muito difícil para ele: encontra forte resistência e antipatia. Chega a sofrer um atentado, sendo salvo por sua companheira, a equatoriana Manuela Sáenz, que teve papel político e militar importante nos anos finais da luta.

Bolívar, apesar de ainda ser presidente da república, se vê sem poder real. O general Santander havia se tornado a figura central do cenário político em Bogotá. Caracas já havia sido descartada como centro político. Além disso, começam as disputas: a Venezuela se distancia do poder central em Bogotá, e, mais tarde, o Equador também confronta esse poder. Essas tensões levam à dissolução da Gran Colômbia, que se fragmenta em três Estados nacionais.

Bolívar acompanha parte desse processo, mas diante da falta de espaço político, se desencanta. Apesar de ser o idealizador da união da Gran Colômbia, decide abandonar a cena e parte para o exílio no Caribe.

É justamente esse momento final de sua vida que Gabriel García Márquez narra em seu romance O General em seu Labirinto, que recomendo a leitura. A obra retrata esse balanço final que Bolívar faz ao olhar para trás e perceber a ordem que tentou construir desmoronando diante de seus olhos.

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