Acordei cedo hoje, e me coloquei a assistir alguns documentários e entre eles estavam algumas entrevistas. Carlos Núñez em uma entrevistas com a página “Orgulho Galego” e me fez reconectar com todas esses escritos e pequisa do meu livro “Cultura e Resiliencia”. Foi um despertar de muitos sentimentos e me fez ver que esse livro virá de encontro com todas essas coisas que temos passado, os desafios, resiliencia em tempos de caos, pessoas que tem enfrentado muitos tipos de guerras e persistem. continuam de pé. Uma parte da conversa que realmente me marcou foi quando ele conta sobre sei pai. Quando os lituanos se uniram à União Soviética, ele, o pai de Carlos, decidiu ir embora. Passou pela França e depois foi para Moscou, onde conviveu com músicos como Khachaturian. Estudou Ciências Políticas lá, e mais tarde voltou para a Espanha, onde foi preso diversas vezes — mais de três.
Na prisão, ele sofreu com algo chamado open total, uma substância que faz com que a pessoa diga a verdade e revele nomes de companheiros. Ele se orgulhava muito de nunca ter delatado ninguém, apesar das enormes dificuldades mentais que isso exigia. Sofreu também com choques elétricos nos testículos. Foram experiências intensas e muito profundas. Carlos quase vai ás lagrimas ao contar tudo isso, disse que foram lições muito profundas. Ele marcou muita gente, inclusive em Vigo, onde foi um dos primeiros conselheiros. Também foi membro da Eusko Ikaskuntza, instituição cultural do País Basco. Ele contava que o prédio onde hoje é o Museu do Mar em Vigo era, na verdade, uma prisão — ou seja, teve uma vida fascinante e muito particular, que deixou uma marca profunda e que agora continua sendo lembrada por muita gente na sociedade galega. Ouvindo tudo isso, me fez enxergar como são profundas as marcas e aprendizados nas jornadas da vida, e como Deus ( embora alguns não saibam) nos sustenta em pé, pois sempre nos renasce a esperança…
Inclusive,a avó de Carlos se chamava Esperanza. Esperanza Piscina Lamina, de San Rafael, Segóvia. Ela nasceu em Madri, de origem simples, muito republicana. Teve um namorado que estava nas barricadas durante a Guerra Civil Espanhola, e ela se vestiu de homem aos 17 anos para estar ao lado dele na linha de frente. Isso é fascinante, me faz lembrar das guerras na America Latina, quase que na mesma época da avó de Núñez ( ou bisavó)- ao lado desses soldados, seguiam mulheres – esposas, mães e até mesmo combatentes – enfrentando as dificuldades da guerra. Elas estavam presentes nos exércitos camponeses de Hidalgo e Morelos no México, assim como, um século depois, nas tropas zapatistas da Revolução Mexicana de 1910. O livro da professora Maria Ligia Prado, América Latina no Século XIX: Tramas, Telas e Textos, ela nos conta sobre esses tempos.
Carlos continua a contar sobre sua bisavó, Esperanza cantava incrivelmente bem. Continuava essa tradição e era muito amiga de Agapito Marazuela — que era dulzainero (tocador de dulzaina, instrumento semelhante à gaita em Galícia) e uma figura muito importante na tradição musical de Madri e Segóvia. A dulzaina, em Segóvia, tem o mesmo papel simbólico e tradicional que a gaita tem na Galícia.
Carlos, conta também sobre seu avó “Albino”- que era pedagogo, sobreviveu à Guerra Civil porque um vizinho o avisou que viriam prendê-lo. Era progressista, galeguista, um intelectual da época, escrevia lindamente em galego. Para sobreviver, ficou escondido durante um ano na “Cova da Moura”, em A Mezquita. “Depois, se disfarçou de padre, entrou em uma igreja onde estava seu tio e passou anos escondido. Recebi, com ele, toda essa herança dos iluministas galegos, dos afrancesados, de Sarmiento, Feijóo…” “- São coisas assim que estou lendo, pesquisando e selecionando para meu livro Cultura e Resiliancia. Claro, não vou escrever sobre isso que conto aqui, não tenho permissão, mas saber dessas historias me inspira muito e me dá impulso para continuar esse livro e publica-lo.
Sobre as conexões Brasil-Galicia
Nessa entrevista, Carlos falou muito sobre sua estadia no Brasil e o projeto “Brasil somos nós”. Ele começa nos contando que existe um mundo de irlandeses e escoceses nos Estados Unidos, mas, em contraste, na Galícia ainda não foi construído completamente esse discurso. Em Havana, por exemplo, estava muito claro que havia uma música de ida e volta — uma troca musical — até que os gaiteiros em Havana, que tocavam repertórios de música de dança, tiveram que se adaptar às novas modas. A tradição estabelecia que a gaita continuasse viva, então era preciso adaptar-se aos novos ritmos. Isso é muito parecido com o que está acontecendo hoje. Os gaiteiros da época se esforçaram para ser como camaleões, acompanhando as tendências. É surpreendente quando se começa a juntar as peças: gaiteiros das Rías Baixas, como os de Vigo, diziam que tinham uma alborada ou uma muñeira escrita na Ría de Vigo, mas misturavam com música mexicana, cubana, com o bumbo e o tumbado de Cuba. Existia, sim, toda uma música de ida e volta com a América Latina.
Na América Latina, havia músicas galegas e até galaicas, porque o norte de Portugal também teve uma importância enorme na direção do Brasil e das Antilhas. Essas gaitas iam para a América Latina, embora isso ainda não tenha sido suficientemente estudado ou contado. Sobre o Brasil: o Brasil foi uma zona com grande imigração portuguesa, mas também galega. Isso é comprovado: temos muitos brasileiros que são descendentes de galegos, especialmente no Nordeste, onde nos dizem que há uma grande concentração de descendentes. Carlos disse que investigou sobre isso e foi apaixonante. Ele morou no Brasil quase três anos, foi com seu arquivo, que tinha que levar para a próxima turnê. Quando chegou ao Brasil, não falava português, apenas galego. Com o tempo, Carlos foi se adaptando ao português brasileiro e entendendo que era um português mais galaico. Eles falavam um português diferente do de Portugal — um português mais antigo, maravilhoso: “O Brasil é fascinante, principalmente essa região o Nordeste. Provavelmente é a mais antiga no processo de colonização, pois os primeiros portugueses que chegaram — segundo a famosa carta de Pero Vaz de Caminha de 1500 — desembarcaram com um gaiteiro, que tocava para os indígenas dançarem.”
Brasil nasceu, então, com a gaita. E desde aquele início, o país recebeu muitas influências musicais ibéricas, africanas e, claro, as próprias autóctones. Mas havia, sim, uma presença muito forte da cultura galaica, não só no Nordeste, mas também no Sertão. E o Sertão é interessante porque, diferentemente da costa brasileira, muito marcada por influências africanas, o interior tem uma população mais branca, com muitos descendentes galegos. – “O “galego arrollador”, por exemplo, era um tipo de personagem muito branco, que cantava nos interiores do Brasil — nos rios, nos arroyos —, e fazia parte de uma tradição de cantadores que se conectava com a nossa.”
O Brasil é um país fascinante, que se conecta conosco, mas os brasileiros talvez ainda não saibam disso, porque estão muito centrados em sua própria cultura. O que mais lhes interessa é o próprio país e os Estados Unidos, por causa da ideia de sucesso, empregos, etc. Sabem que os EUA foram uma porta para a música — desde a bossa nova e a época de Miles Davis. Mas o Brasil tem gente incrível, profunda, que colabora de forma desinteressada. Havia trovadores autênticos no Sertão que me receberam com entusiasmo, felizes por conectar com um galego que falava sobre as cantigas medievais e a poesia popular, que continuou viva no Brasil. Nas universidades, por exemplo, se reconhece Caetano Veloso ou Chico Buarque como trovadores modernos, que continuam esse legado em uma chave urbana e contemporânea. Há muito a se conectar com o Brasil! O Brasil pertence a esse interior do mundo português, uma fronteira que temos em comum. Seria incrível conhecer tudo isso mais a fundo. E olha, acho que foi graças a um personagem que tudo isso começou para mim: José María Núñez. Ele era diretor de bandas de música em A Mezquita, uma das mais antigas de Ourense. Aos 30 anos, emigrou para o Brasil. Sempre ouvi que ele morreu lá, mas havia dúvidas. Um dia, encontramos outro José María Núñez, que apareceu num disco da Columbia Records. A história era que um galego, aos 30 anos, foi para o Brasil e, em dois anos, já fazia música brasileira com bandas.
Eu sempre acreditei que isso era possível, porque os músicos de banda na Galícia dominavam repertórios internacionais — sabiam ler partituras, conheciam o que se tocava em Viena e na Alemanha. Era perfeitamente possível. Essa foi a desculpa para fazer um documentário maravilhoso que chamamos Brasil somos nós. Também fizemos o disco Alborada do Brasil, junto com Carlinhos Brown, Adriana Calcanhotto e muitos outros músicos incríveis. Foram três anos intensos, aprendi muito. Uma aventura retumbante. E, claro, tudo isso influenciou minha música. Pessoas que me conheceram, inclusive, viram essa transformação. Os gaiteiros do passado foram uma enorme influência para mim, mesmo sem terem emigrado para o Brasil. A música sempre esteve presente na minha família.
São coisas que tenho ouvido e pesquisado, tudo isso me traz força também, resiliência e uma vontade enorme de não desistir e como Carlos disse que em sua vida sempre teve que abrir caminho onde não existe e “fazer acontecer”, vejo muito isso em minha vida também…
