San Martin Transição
No início do século XIX, a Argentina passava por um momento de transformação política. Havia a formação de uma Junta de Governo patriótica, mas ainda não existia um movimento claramente definido pela independência. Um acontecimento marcante nesse processo foi a chegada do general José de San Martín à Argentina.
San Martín nasceu na província de Corrientes, mas ainda criança foi levado para a Espanha, onde seguiu a carreira militar. Na Europa, participou de batalhas contra os mouros no norte da África e também lutou contra os franceses no início do século XIX. Além disso, ele fazia parte de sociedades secretas, como a maçonaria, que tinham grande influência política naquele período. Acompanhava de perto os acontecimentos em Buenos Aires e, em 1812, decidiu retornar à América do Sul.
Ao chegar a Buenos Aires, San Martín criou uma loja maçônica chamada Lautaro. O nome fazia referência a um líder indígena mapuche que, no século XVI, lutou bravamente contra a dominação espanhola no Chile. Esse nome também havia sido usado anteriormente por uma sociedade secreta na Inglaterra, liderada pelo venezuelano Francisco Miranda, um dos pioneiros dos movimentos de independência na América do Sul.
A partir de Buenos Aires, San Martín organizou um exército patriótico e, em 1813, conquistou sua primeira grande vitória na Batalha de San Lorenzo, na província de Santa Fé. Esse triunfo consolidou sua posição como um dos principais líderes militares da luta pela independência. Percebendo que a liberdade do Vice-Reino do Rio da Prata dependia de derrotar os espanhóis em toda a América do Sul, ele planejou a travessia dos Andes para libertar o Chile e, posteriormente, o Peru.
San Martín estabeleceu seu quartel-general em Mendoza, onde passou anos organizando seu exército. Nesse período, recebeu apoio da Junta de Buenos Aires e recrutou soldados, incluindo muitos escravizados que ganharam a promessa de liberdade em troca do serviço militar. Ele também negociou com povos indígenas para garantir passagem segura pelos Andes. Embora os mapuches (ou araucanos) não tenham apoiado sua causa, ele conseguiu a ajuda dos índios pehuenches para guiar seu exército através das montanhas.
A travessia dos Andes foi uma das operações militares mais impressionantes da história. Em 1817, o Exército dos Andes cruzou a cordilheira e entrou no Chile. San Martín, ao lado de Bernardo O’Higgins, enfrentou as forças realistas nas batalhas de Chacabuco e Maipú, garantindo a independência chilena. Após essa vitória, ele organizou uma expedição naval para levar a luta ao Peru, onde pretendia completar a libertação da América do Sul do domínio espanhol.
O legado de San Martín na luta pela independência foi fundamental. Seu plano estratégico de levar a guerra para além do território argentino garantiu que o movimento independentista tivesse um impacto duradouro em toda a região. Sua jornada não apenas ajudou a libertar Argentina, Chile e Peru, mas também consolidou sua posição como um dos maiores heróis da independência sul-americana.
Transicao Vice Reino
Após a Revolução de Maio de 1810, Buenos Aires assumiu a liderança no processo de independência do Vice-Reino do Rio da Prata. Com o desejo de manter o território unido sob sua influência, organizou exércitos e estendeu sua luta emancipatória para as regiões vizinhas, buscando centralizar o poder e consolidar a nova ordem.
Uma dessas tentativas aconteceu no Paraguai. Em 1811, o general Manuel Belgrano foi enviado com o objetivo de emancipar o Paraguai e incorporá-lo ao que viria a ser conhecido como Províncias Unidas do Rio da Prata. No entanto, a reação paraguaia foi firme: ao invés de se juntar ao novo governo de Buenos Aires, o Paraguai proclamou sua própria independência, rompendo tanto com a Espanha quanto com a Argentina.
O responsável por consolidar essa autonomia foi Gaspar Rodríguez de Francia, que se tornou o líder supremo do Paraguai e, posteriormente, ditador perpétuo. Seu governo fechou o país para influências externas, restringindo a circulação de informações e limitando as relações internacionais. Esse isolamento marcou a trajetória política do Paraguai nas décadas seguintes.
Outro território importante na disputa pela emancipação foi a Banda Oriental, atual Uruguai. A Espanha tentou manter o controle sobre a região, mas uma forte liderança local surgiu: José Gervasio Artigas. Representando os setores rurais e populares, Artigas implementou medidas com preocupações sociais, especialmente relacionadas à distribuição de terras. Sua atuação gerou um intenso debate historiográfico, com alguns autores destacando seu radicalismo social e outros relativizando essa visão.
Contudo, Artigas foi traído por Buenos Aires, que, em busca de reduzir seus conflitos, assinou um acordo com Portugal, entregando a Banda Oriental aos portugueses. Em resposta, Artigas liderou um grande êxodo com milhares de seguidores, demonstrando resistência ao tratado. Apesar de retornar ao Uruguai posteriormente, ele acabou sendo derrotado, e a região foi anexada ao território português como Província Cisplatina.
A situação do Uruguai só se resolveu anos depois, com a Guerra da Cisplatina, que resultou na independência do país, afastando-o tanto do Brasil quanto da Argentina. Assim, as províncias do antigo Vice-Reino do Rio da Prata seguiram caminhos distintos, moldados por disputas de poder e interesses regionais diversos.
