Alan Lomax: O Guardião das Canções Perdidas

Quantas músicas se perderam no tempo por nunca terem sido escritas?
No século XX, um homem decidiu que essa pergunta não ficaria sem resposta. Com um gravador de rolo nas mãos e uma curiosidade quase sagrada, ele percorreu prisões, fazendas, vilas e montanhas, registrando vozes anônimas que cantavam para sobreviver.

Seu nome era Alan Lomax — músico, etnomusicólogo, arquivista, escritor, ativista e, sobretudo, guardião das canções esquecidas.
Entre 1933 e 1942, acompanhado por seu pai, John Lomax, e posteriormente sozinho, ele atravessou os Estados Unidos gravando spirituals, blues, canções de trabalho e lamentos que, sem ele, teriam desaparecido nas margens da história.

Lomax não colecionava músicas: colecionava mundos. Sua missão era preservar o canto do povo comum — aquele que não cabe nos palcos nem nas partituras, mas que traduz a alma coletiva da humanidade.

1. A missão de preservar a música do povo

Entre os anos 1930 e 1940, Alan Lomax trabalhou para a Library of Congress, criando o maior acervo de música folclórica do planeta.
Com um gravador portátil — tecnologia inédita à época —, viajou pelos estados do sul dos EUA registrando os sons da vida rural e das comunidades afro-americanas.

Ele deu voz a prisioneiros de Angola (Louisiana), trabalhadores das plantações, pregadores, pescadores, camponeses e músicos de blues que, até então, eram invisíveis para a indústria fonográfica.

Foi Lomax quem revelou ao mundo nomes como Lead Belly, Woody Guthrie, Pete Seeger e Muddy Waters — artistas que mais tarde moldariam o som da música popular moderna.
Mas seu propósito ia além da gravação: queria reconhecer o valor cultural e espiritual dessas tradições, em uma época em que o folclore popular era visto como coisa “inferior” ou “atrasada”.

2. A escuta como gesto político e humano

Em 8 de dezembro de 1941 — um dia após o ataque a Pearl Harbor —, Lomax enviou telegramas a pesquisadores em dez estados norte-americanos pedindo que entrevistassem pessoas comuns sobre como percebiam a guerra.
Esse ato, aparentemente simples, revela seu método: escutar o povo como sujeito da História.

Durante a Segunda Guerra, produziu programas de rádio que uniam música e consciência social.
Nos anos 1950, porém, sua postura humanista e o contato com movimentos operários e culturais renderam-lhe perseguições políticas. Acusado de simpatizar com o comunismo, Lomax foi forçado a deixar os Estados Unidos.

Mas, longe de cessar sua missão, ele ampliou-a. Em 1950, desembarcou na Europa, iniciando uma nova etapa de sua jornada.

3. A travessia europeia: o canto dos povos ibéricos

Instalado em Londres, Lomax foi convidado pela Columbia Records para criar a monumental World Library of Folk and Primitive Music — uma série de gravações que percorreu mais de 30 países.

Entre 1952 e 1953, passou sete meses na Espanha, registrando músicas e danças tradicionais em aldeias da Andaluzia, Extremadura, Castela e Galícia.
Munido de uma máquina fotográfica e um gravador pesado, documentou saetas, fandangos, alboradas, muiñeiras e cantigas galegas — sons que ecoavam em ruas estreitas, feiras, procissões e festas populares.

Na Galícia, gravou vozes como as de Flora MacNeil e grupos de camponesas que entoavam melodias herdadas de antepassados celtas, revelando o elo entre a música atlântica e as tradições medievais ibéricas.
Essas gravações seriam, mais tarde, fundamentais para o estudo da etnomusicologia galega, inspirando pesquisadores que as cita como fontes históricas preciosas.

Lomax percebeu que a música tradicional galega — com suas gaitas, cantos responsoriais e composições em modo dórico — conservava a memória das antigas rotas célticas atlânticas, unindo Escócia, Irlanda, Bretanha e norte da Espanha.

4. A influência nas artes e na música moderna

As gravações ibéricas de Lomax atravessaram fronteiras.
Quando Miles Davis ouviu a Saeta de Sevilha e a Alborada de Vigo registradas por ele, ficou tão impressionado que as incorporou ao clássico álbum Sketches of Spain (1960), arranjado por Gil Evans.
Ali, a música folclórica e o jazz se encontraram — uma ponte direta entre o canto ancestral e a modernidade musical.

Lomax não via fronteiras entre gêneros. Para ele, cada melodia era um testemunho de humanidade, uma narrativa sonora sobre quem somos e de onde viemos.
Seu trabalho mostrou que as músicas populares não são resquícios do passado, mas linguagens vivas, em constante reinvenção.


5. O legado: a escuta como forma de resistência

Alan Lomax morreu em 2002, deixando um arquivo com mais de 17.000 gravações e 5.000 horas de entrevistas e vídeos — hoje digitalizados e preservados pela Association for Cultural Equity.

Como disse Don Fleming, diretor da instituição:

“Alan sobreviveu o tempo todo e saiu sem dinheiro. Ele fez isso pela paixão que tinha e sempre encontrou um jeito de financiar os projetos que mais tocavam seu coração.”

Mas seu legado é muito maior do que o acervo: é o ensinamento de que ouvir é um ato político e espiritual.
Ele nos mostrou que o verdadeiro patrimônio cultural não são as catedrais de pedra, mas as canções que sobrevivem no coração das pessoas.

A arte, em qualquer época, é uma tentativa de afirmar sentido em meio ao caos — e Lomax compreendeu isso com profundidade.
Suas gravações não apenas preservaram melodias: salvaram memórias, histórias e esperanças.
Em cada voz gravada, há um lembrete de que a cultura é o que nos mantém humanos.


Conclusão

Alan Lomax foi mais do que um pesquisador: foi um mediador entre mundos.
Entre o campo e a cidade, o passado e o futuro, o erudito e o popular, ele construiu pontes sonoras que continuam a ecoar.

Sua passagem pela Galícia e pela Península Ibérica provou que a música é uma linguagem universal de resistência e beleza — um fio invisível que une povos, épocas e almas.

Ao registrar as canções que o tempo quase apagou, Lomax nos deixou um legado que ultrapassa a própria música: a convicção de que escutar o outro é preservar o que há de mais essencial na humanidade.


Referências

  • LOMAX, Alan. The Land Where the Blues Began. New York: Pantheon Books, 1993.
  • LOMAX, Alan (ed.). Columbia World Library of Folk and Primitive Music. New York: Columbia Records, 1955–1960.
  • ASSOCIATION FOR CULTURAL EQUITY. Alan Lomax Archive. Disponível em: culturalequity.org.
  • FLEMING, Don. “Alan Lomax and the Sound of Humanity.” The Guardian, 2002.
  • NÚÑEZ, Carlos. La Hermandad de los Celtas. Madrid: Espasa, 2014.
  • DAVIS, Miles; EVANS, Gil. Sketches of Spain. Columbia Records, 1960.


Texto: Priscilla Novaes
📍 Música&Linguagens | História & Arqueologia — Março de 2025

Publicado por Priscilla Rubio Novaes

Priscilla Rubio Novaes é musicista e historiadora com raízes hispano-americanas. Sua música e escrita se entrelaçam para criar uma experiência sensorial única, uma jornada através do tempo, onde história e arte se encontram. Priscilla compartilha suas reflexões em seu blog, explorando a interseção entre história, literatura e arte. Seu desejo é conectar as pessoas ao poder transformador da música e da narrativa, trazendo à tona memórias ancestrais e histórias que ecoam através do tempo.