Estou lendo alguns textos para complementar meus estudos das aulas de História e Historiografia da América Contemporânea. Mas primeiro quero registrar aqui brevemente a história de Simon Bolivar (1783–1830) -foi um dos líderes mais importantes das guerras de independência da América do Sul contra o domínio espanhol. Nascido em Caracas, na atual Venezuela, ele se inspirou nos ideais iluministas e nas revoluções americana e francesa para lutar pela libertação dos territórios sul-americanos.
Simón Bolívar não apenas lutou no campo de batalha, mas também deixou um legado escrito através de suas cartas. Ele acreditava que a escrita poderia ajudar a moldar sua própria história e a dos países libertados. Um dos assuntos mais frequentes nessas cartas era sua vontade de renunciar ao poder. Apesar de sempre ser chamado de volta, essa atitude ajudava a reforçar sua imagem como um líder legítimo, que não buscava o poder pelo poder. No fim da vida, Bolívar saiu derrotado da política e morreu exilado. No entanto, seu nome e suas ideias continuaram vivos porque simbolizavam a luta por liberdade e a esperança de um futuro melhor na América Latina.
Simón Bolívar construiu, ainda em vida, uma imagem de herói que seguia um padrão clássico: um líder singular, abnegado e vitorioso, mesmo após enfrentar derrotas e exílio. Sua figura foi fortalecida por interesses políticos e pelo trabalho historiográfico, consolidando-o como um ícone da memória latino-americana. Gabriel García Márquez explorou essa construção no romance O General em seu Labirinto, interpretando as constantes renúncias de Bolívar como sinais de sua ambição e angústia pessoal. O livro usa as cartas do próprio Bolívar para recriar sua trajetória, mostrando como a literatura pode oferecer novas perspectivas sobre a história. Enquanto a história busca contextualizar eventos de maneira racional, a literatura tem liberdade para explorar o fantástico e o psicológico, tornando o passado mais acessível e impactante para diferentes gerações.
Cenário de incertezas na America latina
Lendo o livro História da America Latina de Gabriela Pellegrino, vi o contexto de medo e esperança que marcou a população sul-americana durante as lutas pela independência. Ao mesmo tempo que as pessoas temiam os conflitos e as mudanças, também havia uma grande esperança por transformações positivas. O historiador peruano Flores Galindo usa murais da época para ilustrar essa inversão de valores e expectativas, mostrando um mundo de ponta-cabeça.
Nesse cenário de incerteza, os líderes militares tiveram um papel fundamental. Dois nomes se destacam na luta pela independência da América do Sul: José de San Martín e Simón Bolívar. San Martín nasceu na Argentina e teve sua formação militar na Espanha, participando de batalhas na Europa antes de voltar à América para lutar contra o domínio espanhol. Ele entendeu que a chave para a independência era libertar o Peru, pois era o centro do poder espanhol na região. Para isso, atravessou os Andes e ajudou a libertar o Chile antes de seguir para Lima, onde proclamou a independência peruana. Apesar de suas vitórias militares, ele não conseguiu se estabelecer como governante e, desiludido, se retirou para a Europa.
Bolívar, por outro lado, teve uma trajetória cheia de desafios. Nascido em Caracas, ele perdeu os pais cedo e recebeu uma educação liberal. Sua luta pela independência foi marcada por vitórias e derrotas, mas ele conseguiu reunir forças e mobilizar diversos setores da sociedade, prometendo liberdade aos escravos que lutassem ao seu lado. Como San Martín, atravessou os Andes e libertou territórios como a Colômbia, a Venezuela e o Equador. Sua influência foi tão grande que um novo país foi nomeado em sua homenagem: a Bolívia.
O texto destaca que, além dos grandes líderes, a participação de diversos setores da sociedade foi essencial para o sucesso das revoluções. A independência não foi apenas um feito militar, mas também um movimento social que mobilizou diferentes grupos em busca de uma nova realidade para a América do Sul.
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Quando jovem, Bolívar viajou à Europa, onde testemunhou as mudanças trazidas pela Revolução Francesa e o declínio do domínio espanhol. Ao retornar à Venezuela, envolveu-se nas lutas pela independência. A primeira tentativa fracassou em 1812, quando a Primeira República da Venezuela caiu diante das forças realistas espanholas. No entanto, Bolívar não desistiu.
Ele reorganizou seus exércitos e, com estratégias inovadoras, retomou a ofensiva. Em 1813, realizou a famosa Campanha Admirável, reconquistando a Venezuela e ganhando o título de “El Libertador”. No entanto, novos desafios surgiram, e a resistência espanhola levou à perda de territórios novamente.
A Travessia dos Andes e a Virada
Um dos momentos mais icônicos da jornada de Bolívar foi a travessia dos Andes em 1819. Com um exército mal equipado, ele conduziu uma marcha desafiadora através das montanhas para surpreender os espanhóis na Nova Granada (atual Colômbia). O sucesso dessa campanha resultou na Batalha de Boyacá, consolidando a independência da região e permitindo a criação da Grã-Colômbia, uma república unindo Venezuela, Colômbia, Equador e Panamá.
Bolívar não parou por aí. Com o apoio de seus generais, como Antonio José de Sucre, continuou a luta, conquistando vitórias importantes, como a Batalha de Carabobo (1821), que garantiu a independência da Venezuela. Em 1822, uniu forças com José de San Martín, que havia libertado o sul do continente, e assumiu a missão de libertar o Peru. Em 1824, a Batalha de Ayacucho, liderada por Sucre, selou a independência sul-americana.
Bolívar não queria apenas libertar as colônias do domínio espanhol; ele sonhava com uma América Latina unida, forte e estável, algo semelhante ao que os Estados Unidos haviam conseguido no século XVIII. Ele propôs a criação da Grã-Colômbia, um grande Estado que incluiria Venezuela, Colômbia, Equador e Panamá.
No entanto, essa ideia encontrou muitos obstáculos:
- Falta de unidade – Os novos países tinham grandes diferenças culturais, econômicas e políticas. As elites locais queriam governar de forma independente e rejeitavam um governo centralizado sob Bolívar.
- Dificuldades em criar um Estado estável – As colônias estavam acostumadas a depender da Coroa Espanhola para a administração. De repente, tinham que se autogovernar sem um modelo eficiente. Isso levou a conflitos internos e guerras civis.
- Oposição à sua liderança – Muitos líderes políticos e militares que lutaram ao lado de Bolívar passaram a vê-lo como um “ditador” quando ele tentou centralizar o poder. A ideia de um governo forte não era bem aceita, pois muitos temiam um novo tipo de tirania.
- Fadiga da guerra – Depois de tantos anos de conflito, a população estava exausta e os soldados começaram a se dispersar. Manter a unidade ficou ainda mais difícil.
O desânimo de Bolívar e seu autoexílio
Nos últimos anos de sua vida, Bolívar viu seu projeto desmoronar. A Grã-Colômbia começou a se fragmentar, e ele percebeu que não conseguiria manter a unidade dos países. Em 1828, sobreviveu a um atentado e declarou-se ditador temporário para tentar controlar a situação, mas isso só aumentou sua impopularidade.
Em 1830, a situação ficou insustentável. A Venezuela e o Equador se separaram da Grã-Colômbia, e Bolívar decidiu renunciar à presidência. Desencorajado e doente, ele deixou Bogotá e viajou para a cidade de Santa Marta, na Colômbia, onde morreu pouco depois, em 17 de dezembro de 1830, aos 47 anos.
Suas últimas palavras refletem sua frustração:
“Os que serviram à revolução araram o mar.”
Ou seja, ele sentia que seus esforços tinham sido em vão, como tentar plantar algo no oceano.
O legado de Bolívar
Apesar do fracasso do seu sonho de unificação, Bolívar ainda é lembrado como um dos maiores líderes da independência da América Latina. Seu nome e ideais inspiraram diversos movimentos políticos ao longo da história, e seu impacto na formação dos países sul-americanos é inegável.
Dá para dizer que Bolívar venceu a guerra, mas perdeu o pós-guerra. Ele conseguiu derrotar os espanhóis, mas não conseguiu consolidar o projeto político que tanto desejava.
