Capítulo 4: Lições do Passado, Aplicações para o Futuro 

Ao longo dos capítulos anteriores, exploramos como a arte, a música e a literatura atravessaram tempos de opressão, guerras e mudanças sociais profundas, transformando dor em expressão, resistência em poesia, e luto em canto. Testemunhamos a força das palavras que inspiraram movimentos, das melodias que uniram corações e das imagens que eternizaram memórias coletivas. Cada forma de expressão não apenas narrou histórias, mas também ofereceu refúgio, coragem e esperança.

Essas manifestações culturais não são apenas registros do passado; elas se tornaram ferramentas práticas de resiliência, capazes de transcender o tempo e oferecer alívio em meio às adversidades contemporâneas. Quando tudo parece desmoronar, a arte continua a erguer pontes, conectando gerações e culturas. A música, com seu poder universal, acalma corações inquietos. A literatura, com suas narrativas complexas, oferece compreensão e empatia em um mundo cada vez mais fragmentado.

Neste capítulo, olharemos para o legado deixado por essas formas de expressão e refletiremos sobre como podemos aplicá-las em nossas vidas hoje. Afinal, as lições do passado não existem apenas para serem lembradas, mas para nos guiar na construção de um futuro onde a voz humana nunca deixe de ser ouvida.

Arte e Reconstrução após Desastres Naturais: Preservando Histórias

Quando a terra treme, as ondas se erguem e os ventos chegam com força devastadora, o impacto não é apenas físico – é emocional e cultural. Desastres naturais deixam cicatrizes profundas nas comunidades, destruindo não só casas e cidades, mas também memórias e identidades. Em meio aos escombros, a arte spode ser como uma poderosa ferramenta de cura e reconstrução, ajudando as pessoas a processarem o trauma e a encontrarem forças para recomeçar.

No Chile, um país marcado por terremotos devastadores, a arte sempre desempenhou um papel essencial na reconstrução social. Após o terremoto de 2010, que abalou profundamente a região central do país, comunidades inteiras se reuniram em projetos artísticos para expressar suas dores e esperanças e prestar apoio e ajuda para recontruir suas cidades. Muralistas locais transformaram paredes rachadas em telas de expressão coletiva, usando cores vibrantes para representar não só a destruição, mas também a resiliência e a vontade de reconstruir. Essas obras não apenas embelezaram as cidades, mas também ajudaram as pessoas a encontrar um sentido de continuidade e identidade em meio ao caos.

Da mesma forma, no Japão, após os locais uniram forças para restaurar não só templos históricos, mas também tradições culturais ameaçadas pela destruição. Um exemplo marcante é a restauração das máscaras Noh – peças essenciais do teatro tradicional japonês – que foram danificadas pelas águas. Esse esforço não foi apenas sobre preservar objetos de arte, mas sobre manter viva uma herança cultural que conecta gerações. A restauração de arte e a proteção do patrimônio cultural são vitais para que a história de um povo permaneça viva através dos tempos. Quando monumentos históricos, murais ou peças culturais são destruídos, não se perde apenas uma obra de arte, mas também uma parte da memória coletiva de uma comunidade. É por isso que, em momentos de desastre, restauradores e artistas se tornam verdadeiros guardiões da história.

No Chile, a restauração da Igreja de San Francisco em Santiago, após danos causados por terremotos, foi um esforço conjunto de artesãos, historiadores e artistas. Esse trabalho meticuloso não só devolveu à cidade um de seus marcos arquitetônicos, mas também revitalizou o espírito de uma comunidade que se recusava a deixar suas raízes serem apagadas.

No Japão, a recuperação das cidades costeiras não focou apenas na reconstrução física, mas também na preservação de memoriais e obras de arte pública que honravam as vidas perdidas. Esse cuidado com o patrimônio cultural ajudou as pessoas a processarem o luto e a encontrar forças para seguir em frente. Proteger e restaurar a arte em tempos de crise não é apenas uma questão estética – é um ato de resistência e amor pela humanidade. Quando uma pintura é restaurada, um monumento é reconstruído ou uma tradição cultural é revivida, reafirma-se a continuidade de uma história que poderia ter sido interrompida.

Em um mundo onde desastres naturais são cada vez mais frequentes, a proteção da arte e do patrimônio cultural torna-se ainda mais urgente. Não se trata apenas de preservar o passado, mas de garantir que as gerações futuras possam aprender com ele, encontrando inspiração para construir um amanhã mais forte e resiliente.A arte, afinal, não é apenas uma expressão criativa. É um testemunho da experiência humana, uma ponte entre o passado e o futuro. E quando a terra treme ou as águas invadem, é ela que mantém viva a história e dá às comunidades a coragem de recomeçar e a arte é uma ferramenta para isso trazendo toda a sua beleza.

O Que Nos Torna Humanos? O Papel da Arte em um Mundo Imediatista

Vivemos em uma sociedade que valoriza o útil acima de tudo. O que não tem aplicação imediata, o que não gera lucro ou não se traduz em resultados concretos, muitas vezes é descartado ou considerado supérfluo. Esse pensamento tem raízes profundas no utilitarismo. O problema é que essa mentalidade nos afasta de algo essencial: a arte. Quando alguém está exausto depois de uma semana inteira de trabalho, não busca refúgio em um gráfico ou em uma equação matemática. Busca descanso na música, no cinema, na literatura. A arte é onde encontramos aconchego, onde nos reconectamos com algo que vai além da funcionalidade imediata. Carl Jung falou bastante sobre a influência da arte na alma humana. Para ele, a arte era uma manifestação do inconsciente coletivo e um meio poderoso de autoconhecimento e transformação interior. Ele acreditava que a arte conecta o ser humano com símbolos e arquétipos profundos que transcendem o tempo e a cultura.

Ainda assim, a sociedade tende a desvalorizar aquilo cuja transformação não é instantânea. Pergunte a qualquer pessoa sobre a importância da matemática, da medicina ou da engenharia, e ela terá uma resposta na ponta da língua. Mas e a arte? E a literatura? O impacto delas não é visível de imediato, porque sua influência acontece de maneira sutil e a longo prazo. No entanto, é justamente essa transformação duradoura que molda nossa identidade e nos torna humanos. Outro pensador que explorou isso foi Friedrich Schiller, que falava da “educação estética do homem” e argumentava que a arte nos liberta das limitações da razão pura, conectando-nos com nossa humanidade mais profunda. Conectando-se com a beleza.

Hoje, com a ascensão da inteligência artificial, vemos máquinas assumindo papéis antes exclusivos do ser humano — e isso em um ritmo assustador. A IA já compõe músicas, escreve textos e cria obras visuais impressionantes. Mas há algo que ela ainda não pode substituir: nossa capacidade de sentir, de errar, de expressar imperfeições que nos tornam únicos. A arte gerada por IA pode ser tecnicamente impecável, mas carece daquela centelha humana, daquela imperfeição que carrega verdade. A grande questão que fica é: qual será o diferencial da humanidade em um mundo onde tudo pode ser automatizado? A resposta, acredito, está na criatividade, na arte e na nossa capacidade de expressar emoções autênticas. Precisamos resgatar o valor daquilo que não é apenas útil, mas que dá sentido à existência. Afinal, não somos feitos apenas de razão e eficiência — somos feitos de histórias, de música, de poesia, como bem disse Eduardo Galeano. E é isso que nos torna verdadeiramente humanos.

A Beleza Salvará o Mundo?

Quando Dostoiévski colocou essa frase na boca do príncipe Mychkin, ele não falava da beleza superficial, ou das paisagens deslumbrantes ou das obras de arte impecáveis. A beleza a que ele se referia era mais profunda, algo que toca a própria essência da existência humana. Não é uma estética vazia, mas uma força transformadora, presente nos gestos, nas relações e na capacidade de amar e dar sentido à vida. O filósofo e historiador Tzvetan Todorov estudou como escritores e artistas do final do século XIX e início do século XX entenderam essa ideia. Muitos deles acreditavam que a arte não era apenas um meio de expressão, mas um propósito de vida, um compromisso com a criação da beleza em suas formas mais intensas. Oscar Wilde, por exemplo, fez da estética sua própria filosofia, defendendo que a arte deveria ser valorizada por si mesma, como algo essencialmente humano.

Mas se a beleza pode salvar o mundo, como isso acontece na prática? Talvez não seja através de grandes feitos ou monumentos espetaculares, mas na forma como vivemos nosso dia a dia. A beleza está nos pequenos gestos, na generosidade, na maneira como nos relacionamos com os outros, no significado que damos ao nosso trabalho e à nossa existência. Quando conseguimos encontrar sentido mesmo nas coisas mais simples, quando enxergamos valor naquilo que parece trivial, estamos resgatando essa beleza. Afinal, representar o mundo não é uma escolha – é algo que fazemos o tempo todo. Nossa mente constrói histórias constantemente. O que vivemos durante o dia se transforma em narrativa à noite, quando relembramos os momentos que nos marcaram. Criamos sentido para a nossa própria experiência, tentamos nomear sentimentos, definir memórias. Cada um de nós, à sua maneira, é um contador de histórias, um criador de significados.

A arte, nesse sentido, é um reflexo condensado dessa necessidade humana de representar o mundo. Não somos todos pintores ou escritores, mas todos carregamos dentro de nós essa busca por expressar e compreender a vida. Talvez seja nisso que resida a beleza que pode, de fato, salvar o mundo.

“Somos todos feitos do que os outros seres humanos nos dão: primeiro nossos pais, depois aqueles que nos cercam; a literatura abre ao infinito essa possibilidade de interação com os outros e, por isso, nos enriquece infinitamente.”- Tzvetan Todorov

A História que Não Pode Ser Esquecida

Há histórias que carregam um peso que atravessa gerações. Algumas são tão marcantes que se recusam a ser silenciadas pelo tempo, e o filme Ainda Estou Aqui, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional, é uma dessas narrativas que nos lembra o quanto é essencial preservar a memória.

O filme não é apenas sobre uma família ou uma tragédia específica, mas sobre uma dor compartilhada, um luto coletivo que ecoa em diferentes partes do mundo. Ele nos lembra que há capítulos da história que não podem ser apagados, que precisam ser revisitados para que possamos entender quem somos e para onde estamos indo.

A história de Eunice Paiva é um exemplo vivo de resiliência em meio ao devastador. Uma mulher que, diante da perda, da injustiça e da dor, não cedeu ao esquecimento. A escrita do livro por seu filho é uma extensão desse legado – um testemunho de que a memória não se apaga quando é contada, mas sim quando é silenciada. E agora, com a repercussão mundial do filme, essa memória ganhou novos olhos e corações ao redor do mundo.

Talvez seja por isso que Ainda Estou Aqui tenha tocado tanta gente. Porque, em algum nível, todos partilhamos dessa dor. Todos temos algo que não queremos – ou não podemos – esquecer. E talvez, ao lembrar, possamos transformar essa dor em algo que ilumine o futuro.

Vivemos tempos áridos. Há uma secura no ar que não vem apenas das crises políticas e sociais, mas de algo mais profundo—uma erosão do espírito, um esgotamento coletivo diante das ameaças constantes de retrocessos. Para muitos, a esperança está se tornando uma lembrança distante, como se o chão sob nossos pés estivesse rachando um pouco mais a cada dia. E, no entanto, mesmo nesse cenário desolador, a arte insiste. Como uma pequena flor que teima em brotar entre as rachaduras de um deserto, ela resiste. O cinema, a música, a literatura—esses são os lugares onde, apesar de tudo, ainda encontramos fôlego. Ainda encontramos um vislumbre de beleza e sentido.

O filme Ainda Estou Aqui nos trouxe essa lembrança. A história da família Paiva não é apenas sobre luto e perda, mas sobre resiliência e memória. Sobre pessoas que se recusaram a serem apagadas, que usaram a palavra, a imagem, a arte para manter viva a verdade. E essa não é uma história isolada. Como também O Diário de Anne Frank, que mostrei no capitulo anterior, temos um testemunho tão simples quanto avassalador de uma jovem que, mesmo enclausurada em um sótão, mesmo diante do horror, encontrou na escrita uma maneira de manter sua humanidade intacta. Suas palavras, escritas em meio ao medo, se tornaram um farol para gerações. Da mesma forma, Noite, de Elie Wiesel, transforma o trauma em um grito que nos impede de esquecer.

São histórias como essas que nos lembram: há sempre quem resista. Há sempre quem transforme dor em algo que floresce. Enquanto houver quem escreva, quem cante, quem conte histórias, a arte continuará a ser essa flor que nasce onde parecia não haver mais vida.

Deixe um comentário