Diário Acadêmico 5 ❖ Independências e Narrativas Históricas: Repensando o Progresso e a Evolução

Começando pela aula de História e historiografia da América Contemporânea, hoje o tema é os efeitos das independências de Estados Unidos e Haiti na América Latina Colônias norte-americanas.

Os processos de independência dos Estados Unidos e do Haiti foram bem diferentes, principalmente por causa da forma como suas metrópoles os administravam. No Haiti (então chamado Saint Domingue), a França mantinha um controle rígido, pois a colônia era extremamente lucrativa. A maioria da população era composta por pessoas escravizadas ou libertas, e autonomia significava liberdade e acesso à terra. Além disso, havia muita disputa de poder entre as elites locais e as autoridades francesas.

Já nas Treze Colônias norte-americanas, a situação era diferente. Como não davam tanto lucro para a Inglaterra, elas tinham mais autonomia e podiam se autogerir. Isso fez com que uma elite local forte e coesa se formasse, mantendo uma relação negociada com a metrópole. Por isso, a independência do Haiti é vista como uma revolução liderada por escravizados, enquanto a dos Estados Unidos é considerada uma rebelião da elite que acabou ganhando apoio popular.

Contudo, o modelo de independência buscado pelas elites latino-americanas não era o haitiano, mas o norte-americano. A fim de se conservarem no poder, essas elites procuravam comandar processos emancipatórios de cunho liberal, que mantivessem os privilégios e a escravidão intactos. Ademais, a independência dos Estados Unidos era mais um indício do
processo de desmantelamento do Antigo Regime no Novo Mundo, o que também agradava à abastada elite criolla latino-americana. Já para os movimentos populares e os líderes revolucionários da América Latina, a revolução ocorrida no Haiti era fonte de inspiração e um exemplo prático de que vitórias populares eram possíveis, enquanto o exemplo dos Estados Unidos não era o ideal, pois não privilegiava a unidade.

História e Historiografia da América Contemporânea

Uma questão importante no estudo da história africana é afastarmos definitivamente a ideia de evolução da forma como é usada no senso comum. Imaginar que a história da humanidade é um contínuo avanço, do mais simples e primitivo ao mais complexo e sofisticado, seja do ponto de vista social, econômico ou político, é o ponto de partida para diversos tipos de preconceitos.

A ideia de que todas as sociedades transitam inexoravelmente de um estágio mais simples para um mais complexo e do mais primitivo para o mais civilizado sempre operou com muita força na historiografia. Mas é preciso ter cuidado. Por exemplo, dá para dizer que o nazismo foi um “avanço” em relação à Alemanha do século XIX? Essa visão linear é um mito teórico e está ligada ao eurocentrismo, que tenta encaixar todas as sociedades em uma sequência histórica europeia (Antiga, Medieval, Moderna e Contemporânea), o que nem funciona direito para a própria Europa, quanto mais para a América Latina ou a África.

O antropólogo Franz Boas criticou essa visão simplista, dizendo que não dá para afirmar que os mesmos eventos acontecem pelas mesmas causas em todos os lugares. Cada sociedade tem seu contexto cultural e histórico único. Ou seja, não existe um caminho universal de evolução para todas as sociedades. Cada uma tem sua própria trajetória, influenciada por sua cultura, que é o jeito específico de enxergar o mundo, seus valores e comportamentos sociais.

Por isso, não faz sentido criar hierarquias entre as sociedades ou aplicar modelos históricos europeus para explicar a história de outros povos, como falar em “feudalismo” brasileiro ou africano. Cada sociedade tem uma história única e complexa, e tentar encaixá-las todas em um único modelo impede a verdadeira compreensão da história humana.

Uma frase do professor está bem colocada aqui: “Só é possível entender um povo sua história e realidade, no tempo e no espaço a partir do análise de sua cultura.

“Pra Pensar”:Que histórias estamos deixando de ouvir ao enxergar o mundo por uma única linha de evolução?

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