Diário Acadêmico 1❖ – Reflexões sobre História e Humanidade

Durante as últimas semanas, tenho me dedicado à leitura de História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI, de Leandro Karnal. Esse livro estava na bibliografia indicada da disciplina História e Historiografia da América Contemporânea, e, como a professora o citou diversas vezes, resolvi estudá-lo paralelamente às aulas. Essa leitura também tem conexões diretas com Historiografia da África, o que me fez refletir sobre como a história de um povo está sempre entrelaçada com a de outros.

Um trecho que me marcou profundamente foi sobre a escravidão. O livro narra que, em 1619, o primeiro navio holandês com escravos negros chegou à Virgínia. Em 1624, nascia em Jamestown William Tucker, o primeiro afro-americano registrado, filho de africanos escravizados. A escravidão já estava enraizada nas colônias há décadas, coexistindo com a servidão branca. Mas, com o contato comercial com as Antilhas, a mão de obra africana passou a ser cada vez mais utilizada e considerada vantajosa pelos plantadores.

Sobrevivendo a escravidão

O relato de Gustavus Vassa, um nigeriano sequestrado e levado como escravo para os Estados Unidos, é particularmente impactante. Ele descreve a travessia atlântica em navios superlotados, onde a fome, os castigos e as doenças ceifavam vidas em grande escala. Sobrevivendo a esse inferno, os africanos eram vendidos em mercados americanos, muitas vezes separados de suas famílias para nunca mais se reencontrarem. Seu depoimento revela a brutalidade da escravidão, não apenas como sistema econômico, mas como uma engrenagem de desumanização absoluta:

“Conduziram-nos imediatamente ao pátio… como ovelhas em um redil, sem olharem para idade ou sexo. […] A um sinal de tambor, os compradores corriam ao pátio onde estavam presos os escravos e escolhiam o lote que mais lhes agradava. […] Dessa maneira, sem escrúpulos, eram separados parentes e amigos, a maioria para nunca mais voltarem a se ver.”

Ao ler essas palavras, sinto um peso no peito. Muitos historiadores consideram a escravidão norte-americana a mais cruel da América, mas comparar as diferentes formas de escravidão é um desafio moral. Todas foram desumanas e devastadoras. O mais chocante é que, mesmo em pleno 2025, ainda vemos a mesma desvalorização de vidas humanas baseadas em cor, etnia e religião.

Tudo isso me faz refletir que mais uma vez a história mostra que a grande maioria de nós não evoluiu e também nos traz lições do que essa visão trouxe, massacraram povos inteiros em nome da ‘evangelização” e “evolução”.

Crítica historiográfica e eurocentrismo

Nas aulas de história e historiografia da ÁFRICA, algo que confirmou sobre romper com este paradigma eurocêntrico, que, com raras exceções, sempre classificou os povos africanos como selvagens e inferiores.  O primeiro desafio ao pensarmos a história da África é compreender que o eurocentrismo é um etnocentrismo singular, que produz uma visão silenciadora da história africana. Por esta razão, devo olhar a história deste continente de outro ponto de vista.

A Lei 10.639/2003 estabeleceu a obrigatoriedade do ensino da História da África e da cultura afro-brasileira nas escolas, destacando a luta dos negros no Brasil e sua contribuição para a formação da sociedade. Essa inclusão não deve ser vista apenas como novos conteúdos, mas como uma mudança de postura em relação às relações étnico-raciais, promovendo uma cultura institucional que valorize a diversidade.

Historicamente, a disciplina de História já abordava o tema, mas muitas vezes de forma eurocêntrica e marginalizada. A aprovação da lei possibilitou avanços no reconhecimento da importância da cultura afro-brasileira. O Brasil tem uma dívida histórica com a África, pois, durante séculos, negligenciou sua influência e participação na formação nacional.

Liberdade e Independências

Essa mesma lógica de dominação e exploração também pode ser vista ao analisarmos os processos de independência dos Estados Unidos e do Haiti. Enquanto as Treze Colônias norte-americanas desfrutavam de relativa autonomia e tinham uma elite coesa, a colônia francesa de São Domingos vivia sob rígido controle metropolitano e tinha sua sociedade majoritariamente formada por pessoas escravizadas e libertas. O que diferencia suas independências é o fato de que, nos EUA, a emancipação foi conduzida por uma elite que desejava mais liberdade política e econômica, enquanto, no Haiti, a luta foi marcada por uma revolução de escravos que desafiou toda a estrutura colonial e resultou na primeira república negra do mundo.

Dessa forma, a independência dos EUA pode ser vista como uma rebelião da elite que ganhou apoio popular, enquanto a independência do Haiti foi uma revolução social profunda, que enfrentou não apenas a metrópole, mas também interesses das elites locais e internacionais. Esse contraste mostra como os diferentes contextos coloniais moldaram as lutas por liberdade e os desafios enfrentados por cada nação após a independência.

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