Durante toda essa semana e a semana anterior, estou lendo o livro “História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI” de Landro Karnal. Este livro estava na bibliografia indicada da matéria História e historiografia da América contemporânea. Como a professora o citou várias vezes no livro de apoio, decidi ler em paralelo ás aulas. Mas queria registrar aqui uma parte que realmente me marcou, sobre a escravidão, texto que também serve para a materia de Historiografia da Africa.
O primeiro navio holandês com escravos negros chegou à Virgínia em 1619. Em 1624, em Jamestown, o primeiro menino negro nascia em solo americano. Era William Tucker, filho de africanos e, oficialmente, o primeiro afro-americano. Como já vimos na leitura, a escravidão já estava presente em todas as colônias, já a duas décadas e havia uma legislação específica para ela. A escravidão negra concorria com a servidão branca, mas o contato dos mercadores das colônias com as Antilhas foi servindo como propaganda para o uso da mão-de-obra africana. Aos plantadores, a escravidão negra foi parecendo cada vez mais vantajosa e seu número crescia bastante. Nessa parte do livro, conta-se de Gustavus Vassa, um nigeriano trazido para os Estados Unidos como escravo e batizado com nome cristão, em 1794, ele descreve a terrível travessia do oceano que os negros enfrentavam. Em navios superlotados, a mortalidade era alta. Alimentação escassa e chicote abundante eram responsáveis pelo aumento dessa mortalidade. Os que sobreviviam à travessia eram vendidos nos mercados da América. A impressão dessa venda é descrita por Vassa, ele próprio tendo sido leiloado na chegada:
Conduziram-nos imediatamente ao pátio… como ovelhas em um redil, sem olharem para idade ou sexo. Como tudo me era novo, tudo o que vinha causava-me assombro. Não sabia o que diziam, e pensei que esta gente estava verdadeiramente cheia de mágicas… A um sinal de tambor, os compradores corriam ao pátio onde estavam presos os escravos e escolhiam o lote que mais lhes agradava. O ruído e o clamor com que se fazia isso e a ansiedade visível nos rostos dos compradores serviam para aumentar muito o terror dos africanos… Dessa maneira, sem escrúpulos, eram separados parentes e amigos, a maioria para nunca mais voltarem a se ver.
Me corta ler algo assim, muitos autores costumam considerar a escravidão norte-americana como a mais cruel que a América registrou. Mas é difícil fazer uma comparação de ordem moral (melhor/pior) entre as formas que a escravidão africana conheceu na América. Todas foram crueis e desumanas, mas o que mais me assusta é ver que essa crueldade e desvalorização de pessoas por serem negras, pardas, ou culturas diferentes ainda exista em pleno 2025! Essa visão cruel de que, por exemplo, as pessoas de Gaza “tem que serem eliminadas, e até as crianças pois são de raça inferior e semente maligna”. E mais assustador ainda ouvir pessoas que se dizem “cristãos” repetindo essas palavras… Não pouparam nem as crianças.
Tudo isso me faz refletir que mais uma vez a história mostra que a grande maioria de nós não evoluíram e também nos tras lições do que essa visão trouxe , massacraram povos inteiros em nome da ‘evangelização” e “evolução”.
