Diário de Leitura – “Brasil, Uma História” (Eduardo Bueno)-30 de Janeiro 2025

Hoje eu comecei o primeiro livro da lista de leitura de 2025. este livro é do brilhante Eduardo Bueno, um jornalista mas eu o considero historiador também rsrs- por seu vasto conhecimento da história do Brasil. Este livro é “Brasil, uma História.

Capítulo Inicial – A Expansão Ultramarina Portuguesa

Nesse primeiro capítulo, Eduardo Bueno contextualiza a chegada de Pedro Álvares Cabral ao Brasil dentro de um processo maior: a expansão marítima portuguesa. Ele destaca que essa viagem não foi um evento isolado, mas parte de uma “grande sinfonia” da navegação lusitana, que se espalhava pelo globo.

Um ponto interessante levantado por Eduardo é a ideia de que a verdadeira transição para a Era Moderna pode ser atribuída à expansão ultramarina portuguesa, mais do que à invenção da imprensa ou à queda de Constantinopla. Isso desafia um senso comum histórico, já que muitos associam o início da modernidade a eventos europeus mais internos, como o Renascimento ou a Reforma Protestante.

A citação sobre a frota de Cabral ter “topado” com o Brasil reforça a teoria de que a descoberta pode ter sido acidental, mas também nos faz refletir sobre a importância dos avanços náuticos portugueses. O impulso que levou os navegadores a cruzarem oceanos foi um dos marcos da globalização e da interconexão entre continentes.

📖 Capítulo: “Semana de Vera Cruz”
🗓 Período: 22 de abril a 2 de maio de 1500

A leitura dessa parte do livro trouxe um relato minucioso da primeira semana dos portugueses em terras brasileiras, um período que alguns historiadores chamam de “Semana de Vera Cruz”. Através da carta de Pero Vaz de Caminha e de outros registros, é possível reconstruir, ainda que com lacunas, os eventos que marcaram esse encontro entre europeus e indígenas.

O relato segue quase como um diário de bordo, destacando cada dia dessa primeira estadia:

📌 22 de abril – A frota avista o Monte Pascoal e lança âncora ao entardecer.

📌 23 de abril – Nicolau Coelho faz o primeiro contato com os indígenas na praia.

📌 24 de abril – A esquadra busca um porto mais seguro e dois nativos sobem a bordo dos navios.

📌 25 de abril – O primeiro grande encontro acontece: cerca de duzentos indígenas recebem os portugueses, e há troca de presentes.

📌 26 de abril – A primeira missa é celebrada por Frei Henrique na Coroa Vermelha, um evento que simboliza o início da presença católica no Brasil.

📌 27 de abril – Alguns portugueses visitam uma aldeia tupiniquim, mas não podem passar a noite lá.

📌 28 de abril – Os portugueses realizam tarefas práticas: recolhem lenha, lavam roupas e preparam uma grande cruz.

📌 29 e 30 de abril – A esquadra começa a organizar a partida. Cabral e os capitães dançam e cantam com os nativos.

📌 1º de maio – Uma cruz é erguida em terra firme, marcando simbolicamente a posse do território.

📌 2 de maio – A esquadra parte rumo à Índia, deixando para trás dois degredados e presenciando a deserção de dois grumetes.

A Música na “Semana de Vera Cruz” 🎶

Um dos aspectos mais fascinantes desse relato vem do livro A História Social da Música Popular Brasileira, de José Ramos Tinhorão que eu gostaria de destacar aqui: Segundo ele, a carta de Pero Vaz de Caminha menciona que Diogo Dias, irmão de Bartolomeu Dias, foi à praia acompanhado de um gaiteiro. O resultado foi uma celebração espontânea: portugueses e indígenas cantaram e dançaram juntos.

Esse detalhe me fez refletir sobre como a música já esteve presente no primeiro contato entre europeus e indígenas, estabelecendo uma ponte entre culturas tão diferentes. O gaiteiro português, tocando uma gaita de fole, criou um ambiente propício para a interação e a curiosidade mútua. Comprovando que o primeiro instrumento musical ao chegar no Brasil foi a gaita foles.

José Ramos Tinhorão destaca que esse momento demonstra como a música não foi apenas um elemento lúdico, mas também um instrumento de comunicação e aproximação. Mesmo sem um idioma comum, a dança e o ritmo serviram para criar um momento de confraternização – um aspecto que seria essencial nos primeiros anos de convivência entre colonizadores e povos nativos.

Pero Vaz de Caminha: O Primeiro Escritor do Brasil

Queria destacar também o papel de Pero Vaz de Caminha não apenas como escrivão, mas como o primeiro grande cronista da história do Brasil. Quando ele redigiu sua famosa carta em Porto Seguro, em abril de 1500, os portugueses já tinham mais de meio século de experiência em registrar suas expedições marítimas. No entanto, a maioria desses relatos não era escrita por escrivães de ofício, mas sim por navegadores e exploradores, o que tornava os textos muitas vezes técnicos e pouco literários. Caminha, por outro lado, não era apenas um escrivão – ele era um escritor refinado, um homem de letras com pleno domínio da arte de narrar.

Seu texto não se limita a um simples relatório burocrático para o rei de Portugal. Pelo contrário, ele captura com riqueza de detalhes e uma visão aguçada o momento exato em que os portugueses avistaram a nova terra e interagiram com seus habitantes. A descrição dos nativos, da paisagem e dos acontecimentos é feita com minúcia e vivacidade, dando um caráter quase literário ao documento. Mais do que uma simples certidão de nascimento do Brasil, a carta de Caminha é considerada a primeira grande obra da literatura brasileira, pois apresenta o primeiro olhar europeu sobre a terra e seus habitantes, construindo uma narrativa que influenciaria a forma como o Brasil seria visto nos séculos seguintes.

Para pensar:

📌 Esse episódio me fez enxergar a “descoberta” do Brasil de uma maneira mais humana e sensorial. Imaginar aquele momento – o som da gaita, os movimentos da dança, o estranhamento e a curiosidade de ambos os lados – dá vida a um evento que muitas vezes parece apenas um dado histórico seco.

📌 O simbolismo da música nesse encontro me fez pensar em como diferentes culturas sempre buscaram se conectar através da arte.

Continuando a leitura do livro ” Brasil, uma história”, são descobertas interessantes e imendando com outros livros e textos que li, sobre a História, muita coisa faz sentido.

A Chegada ao Brasil: Acaso ou Planejamento?

Eduardo Bueno destaca a riqueza documental do “descobrimento” do Brasil, enfatizando que poucas nações possuem um registro tão detalhado de seu nascimento quanto a carta de Pero Vaz de Caminha. Esse documento não apenas narra os acontecimentos, mas também revela a visão europeia sobre a nova terra e seus habitantes.

No entanto, há uma questão intrigante: a chegada ao Brasil foi realmente um acaso ou já fazia parte dos planos portugueses? O autor levanta argumentos que sugerem que Cabral pode ter seguido uma rota já conhecida:

*1- O Tratado de Tordesilhas, assinado em 1494, já havia garantido a Portugal as terras a oeste da linha estabelecida. Isso indica que os portugueses tinham interesse em explorar a região.

*2- A armada de Cabral desviou-se muito mais para oeste do que o necessário para chegar à Índia.

*3- O conhecimento preciso das correntes marítimas e das rotas de navegação sugere que os portugueses já tinham informações sobre essa terra.

*4- As boas condições climáticas durante a viagem e a “naturalidade” com que os portugueses avistaram a terra indicam que o evento pode não ter sido uma surpresa.

Eduardo então, sugere que Cabral pode ter apenas oficializado a posse de um território já avistado anteriormente, ainda que sem exploração detalhada. Se isso for verdade, a narrativa tradicional da descoberta acidental perde força, e o Brasil se encaixa mais em um contexto de expansão planejada.

Para pensar:

📌 Quero pesquisar mais sobre as evidências que sustentam essa teoria. Há registros ou relatos anteriores que indiquem uma chegada prévia dos portugueses ao Brasil?

📌 A carta de Pero Vaz de Caminha é um documento fascinante. Já destaquei no Kindle para relê-la com essa nova perspectiva em mente, tentando perceber pistas que possam reforçar essa hipótese.

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