Capítulo 1 A Arte que Salva parte II: Rosalia de castro, renascimento literario

Rosalía de Castro: A Voz Poética da Identidade Galega

Em um tempo em que a língua galega era relegada à sombra, vista como dialeto camponês e pouco digna de registros literários, uma mulher ergueu sua voz para desafiar o esquecimento e resgatar a alma de seu povo. Rosalía de Castro, nascida em 1837, na cidade de Santiago de Compostela, tornou-se uma das figuras mais emblemáticas da literatura galega e espanhola, transformando a poesia em uma ponte entre o passado e o futuro da Galícia.

Rosalía cresceu em um período de intensas mudanças sociais e culturais na Espanha. O galego, outrora uma língua literária vibrante durante a Idade Média, havia sido marginalizado após séculos de centralização política e cultural em Castela. No século XIX, falar galego era sinal de pobreza e ruralidade, uma marca da falta de educação. Contudo, Rosalía viu na língua não apenas um meio de expressão, mas um repositório da identidade, da dor e da beleza de seu povo.

Em 1863, ela publicou Cantares Gallegos, um marco na história da literatura galega. Com essa coletânea, Rosalía fez mais do que escrever poesia; ela reacendeu uma chama cultural que muitos acreditavam estar extinta. Seus versos capturaram as paisagens, as lutas e as tradições da Galícia, transformando a simplicidade da vida rural em algo digno de ser celebrado.

Imagine uma mulher de traços delicados, mas de espírito indomável, sentada em sua mesa, olhando pela janela para os campos verdes e para o céu nublado da Galícia. Com sua pena, ela escrevia não apenas para o presente, mas para as gerações futuras. Em um de seus poemas mais conhecidos, Rosalía lamenta a emigração em massa, um flagelo que despovoava a região e separava famílias:

“Adiós ríos, adiós fontes,
adiós, regatos pequenos,
adiós, vista dos meus ollos,
non sei cando nos veremos.”

(“Adeus rios, adeus fontes,
adeus regatos pequenos,
adeus, vista dos meus olhos,
não sei quando nos veremos.”)

Esses versos, repletos de saudade e melancolia, tornaram-se a expressão poética da diáspora galega, tocando o coração de todos aqueles que, forçados pela necessidade, deixavam sua terra natal em busca de um futuro melhor.

Rosalía de Castro desafiou a lógica de sua época. Em um contexto em que a mulher era relegada ao espaço doméstico, ela escreveu sobre temas que transcendiam seu tempo e gênero: identidade cultural, desigualdade social, exílio e a conexão profunda entre as pessoas e suas raízes. Seus escritos, impregnados de empatia e humanidade, questionavam as injustiças do mundo e celebravam a força e a dignidade dos marginalizados.

Rosalía é um ícone não apenas da Galícia, mas da literatura universal. Sua obra ecoa como um lembrete de que a cultura e a identidade resistem mesmo nos momentos de maior adversidade. Assim como os murais dos chilenos e os versos de Neruda, a poesia de Rosalía de Castro prova que a arte é capaz de desafiar a opressão, preservar a memória e inspirar esperança para um futuro mais justo.

Manuel Murguía: O Guardião da Alma Galega

Imagine um homem caminhando pelas ruas da Galícia no século XIX, carregando não apenas livros e papéis, mas também o peso de uma missão: preservar a história e a identidade de sua terra. Manuel Murguía foi muito mais do que o companheiro de Rosalía de Castro; ele foi uma figura central na preservação e valorização da identidade galega durante o século XIX. Historiador, cronista e jornalista, Murguía dedicou sua vida a estudar e exaltar a cultura e a história da Galícia, em um momento em que a região enfrentava marginalização cultural e econômica.

Nascido em 1833, na pequena vila de Arteixo, Murguía cresceu ouvindo histórias e observando as tradições do povo galego. Desde cedo, sentiu a necessidade de registrar tudo o que fazia da Galícia um lugar único, como se temesse que aquelas memórias pudessem se perder no tempo. Quando se tornou historiador e cronista, esse desejo se transformou em sua maior missão.

Ele começou a escrever sobre a Galícia não apenas como uma região da Espanha, mas como uma terra de herança própria, com raízes que se aprofundavam na história celta. Sua obra-prima, Historia de Galicia, não era apenas um livro de registros, mas uma celebração da identidade galega. Página após página, Murguía descrevia o orgulho de um povo que, mesmo em tempos difíceis, nunca deixava de acreditar na força de suas raízes.

Murguía também entendia o poder das palavras. Ele sabia que o idioma galego era muito mais do que uma forma de comunicação; era um símbolo de resistência e também amor por suas raízes. Por isso, tornou-se um dos maiores incentivadores da literatura em galego, ajudando a dar início ao movimento do Rexurdimento. Foi ele quem encorajou Rosalía de Castro, sua esposa e grande companheira, a escrever em galego, desafiando os preconceitos da época. Juntos, eles formaram um dos casais mais emblemáticos da cultura galega, unindo poesia, história e luta em uma só voz.

A Arte como Memória Coletiva nos Cenários Urbanos

Enquanto a arte do passado resgatava histórias de bravura e identidade, a arte contemporânea continua a ecoar essas vozes em nossos cenários urbanos. A persistência da arte em muros, esculturas, murais e intervenções públicas reflete não apenas a criatividade, mas também a resiliência de um povo em tempos de crise e transformação. As cidades tornam-se verdadeiros museus a céu aberto, onde cada obra conta uma história, provoca reflexões e perpetua memórias coletivas.

No Brasil, esse papel é particularmente evidente em movimentos como o grafite, que ganhou força como um meio de expressão para comunidades marginalizadas e se tornou um símbolo da luta por direitos e visibilidade. Um exemplo de destaque é o trabalho de Eduardo Kobra, cujo estilo inconfundível conquistou projeção internacional. Seus murais, espalhados por grandes cidades ao redor do mundo, retratam desde ícones culturais até mensagens de paz e sustentabilidade, como o famoso mural “Etnias”, pintado para os Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro. Com uma explosão de cores e traços precisos, Kobra transforma paredes em narrativas visuais que unem o passado e o presente.

“pintar na rua é trabalhar com mensagens simples, como paz, união dos povos, etnias…– Eduardo Kobra

Outro exemplo emblemático é o legado do Movimento Armorial, criado por Ariano Suassuna, que buscava unir música, literatura e artes visuais para exaltar as raízes culturais do Nordeste brasileiro. Embora não seja um movimento urbano no sentido convencional, sua influência transcendeu fronteiras, impactando a forma como o Brasil olha para suas tradições, mesmo nos centros metropolitanos. Para Suassuna, a identidade cultural do Brasil não estava nas influências importadas das elites urbanas, mas na força vibrante e resiliente do povo sertanejo. Ele acreditava que era no sertão, com seus mitos, lutas e histórias, que se encontrava o verdadeiro espírito da nação.

Suassuna via o sertão como muito mais do que uma região geográfica. Era um espaço simbólico, uma metáfora para a essência do Brasil profundo. Inspirado pela literatura de cordel, pela música de viola e rabeca, e pelas tradições populares , ele via no sertanejo um herói épico moderno, cuja luta diária contra as adversidades representava a capacidade de superação do povo brasileiro. Para Suassuna, as narrativas dos sertanejos eram comparáveis às epopeias clássicas, com uma beleza poética única e um senso de resistência que deveria ser celebrado.

No cerne do projeto armorial estava a valorização de uma arte que fosse tanto erudita quanto popular. Ele misturava elementos das tradições europeias medievais e renascentistas – como o teatro e a música clássica – com manifestações culturais típicas do sertão nordestino. Essa fusão resultou em obras que ecoavam as raízes brasileiras enquanto dialogavam com a universalidade da experiência humana.

O sertão, para Suassuna, não era apenas o palco de histórias de seca e sofrimento, mas também um lugar de criatividade e superação. Era onde povos oprimidos – indígenas, negros, brancos pobres – uniam-se em uma cultura mestiça rica e singular. Suassuna queria que o Brasil visse o sertão não como uma periferia esquecida, mas como o coração pulsante de sua identidade.

Um exemplo dessa visão é a valorização dos povos do sertão em sua obra e no Movimento Armorial. As lutas travadas pelos sertanejos contra a opressão e a natureza implacável são retratos de força e coragem. Movimentos históricos como a resistência de Canudos, liderada por Antônio Conselheiro, e a saga de Lampião e os cangaceiros são exemplos de como o sertão se torna palco de epopeias que mesclam drama, heroísmo e tragédia.

A cultura sertaneja também se manifestava em sua música. A rabeca e o pífano, instrumentos populares no sertão, foram elevados ao patamar de símbolos do Movimento Armorial, mostrando que a sofisticação e a beleza não estavam restritas aos palcos de concertos europeus, mas ecoavam nas festas populares e nas rodas de improviso do interior nordestino.

Para Suassuna, a superação do sertão era a superação do Brasil. Ele acreditava que, ao celebrar e valorizar as raízes populares, o país poderia não apenas honrar sua história, mas também construir um futuro mais justo e autêntico. O sertão, com sua aridez e desafios, era também uma terra fértil para a cultura, para a resistência e para o sonho.

O legado do Movimento Armorial permanece como um convite a enxergar o Brasil por meio de sua diversidade, de suas lutas e de sua capacidade de transformar adversidades em arte e beleza. E no sertão, esse coração do Brasil tão amado por Suassuna, encontramos não apenas histórias de sofrimento, mas também as sementes de uma nação que se reinventa e floresce, mesmo nos solos mais difíceis.

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