Capítulo 1: Lar ou exílio no futuro digital
Estou relendo o livro A Era do Capitalismo de Vigilância de Shoshana Zuboff, e o primeiro capítulo já trouxe reflexões poderosas. O título, “Lar ou exílio no futuro digital”, me chamou a atenção imediatamente. Ele transmite uma dualidade profunda: será que estamos construindo um lugar onde pertencemos ou estamos nos perdendo, exilados, em um mundo de controle tecnológico?
A autora começa com uma citação da Odisseia, que me fez pensar na jornada de Ulisses – preso na ilha de Calipso, ansiando por voltar para casa. Essa metáfora me pareceu perfeita para ilustrar a relação complexa que temos com a tecnologia hoje: ela pode nos dar a sensação de proximidade, mas ao mesmo tempo nos aprisiona.
Depois, Zuboff compartilha um momento muito marcante de sua vida. Em 1981, um jovem gerente de fábrica perguntou a ela: “Todos nós trabalharemos para uma máquina inteligente ou seremos pessoas inteligentes ao redor da máquina?”. Essa pergunta, feita há mais de 40 anos, parece mais atual do que nunca. A tecnologia continua a nos desafiar, exigindo que decidamos quem seremos diante dela.
Fiquei pensando no impacto disso. A autora levanta questões atemporais, que sempre desafiaram a humanidade:
- Lar ou exílio?
- Senhor ou súdito?
- Amo ou escravo?
Essas perguntas me fizeram refletir. Será que, com a expansão das tecnologias digitais, estamos perdendo nosso senso de “lar”? Tudo parece estar sendo redefinido tão rapidamente que nem temos tempo de decidir ou mesmo entender o que está acontecendo. Zuboff escreve que “não existe o fim da história” – cada geração precisa lidar com suas próprias ameaças e desafios. Acho que isso é muito verdadeiro.
O que mais me tocou foi como a autora explicou que a realidade digital está reconfigurando tudo o que antes considerávamos familiar. Nem percebemos, mas o “lar” que conhecíamos está desaparecendo. Ela pergunta: “O futuro digital pode ser o nosso lar?”.
Essa questão ficou martelando na minha cabeça. O que significa “lar” em um mundo digital? Será que estamos realmente criando um espaço de pertencimento ou estamos apenas nos tornando peças em um sistema que controla nossas vidas?
Terminei esta parte do livro me sentindo um pouco inquieta, mas também muito motivada a continuar.
O Colapso do Modelo Keynesiano e a Crise dos Anos 1970
O que Zuboff descreve nesse trecho está relacionado à grande transformação econômica que ocorreu nos anos 1970, quando o modelo econômico keynesiano, que dominava o pós-guerra, entrou em crise, abrindo caminho para o neoliberalismo.
Durante o período do pós-guerra (1945–1970), muitos países, especialmente os Estados Unidos e os da Europa Ocidental, adotaram políticas keynesianas, baseadas nas ideias do economista John Maynard Keynes. Esse modelo defendia que o governo deveria intervir na economia, regulando mercados e investindo em políticas de bem-estar social para manter o crescimento e o emprego. Esse sistema resultou em um longo período de prosperidade e crescimento econômico.
- Nos anos 1970, o modelo keynesiano começou a falhar, resultando em crise econômica e estagflação.
- A crise criou um vácuo de políticas, permitindo a ascensão do neoliberalismo, liderado por economistas como Friedrich Hayek e Milton Friedman.
- Os neoliberais defendiam um mercado livre sem intervenção estatal, privatizações e políticas monetaristas.
- Essa mudança marcou a transição de um capitalismo regulado pelo Estado para um capitalismo de livre mercado radical, o que moldou as décadas seguintes.
Continuo a leitura do livro da Shoshana e buiscando entender os veios centrais da história.
Nos anos 1970, a economia dos Estados Unidos e de outros países começou a desacelerar. O crescimento já não era o mesmo, a inflação disparava e as políticas que antes garantiam empregos e benefícios sociais deixaram de funcionar. Diante desse cenário, economistas como Friedrich Hayek e Milton Friedman ( Hayek, um dos maiores pensadores liberais do século XX. E Friedman foi um economista e estatístico americano que recebeu o Prêmio Nobel de Ciências Econômicas)- viram a oportunidade perfeita para divulgar suas ideias. Eles defendiam que o governo deveria se afastar da economia, deixando o mercado funcionar sozinho, sem regulações ou altos gastos públicos. Aos poucos, essa visão se espalhou pelo mundo, levando a privatizações, cortes em direitos trabalhistas e uma nova forma de enxergar o sucesso econômico.
Com essa mudança, surgiu um verdadeiro culto ao empreendedorismo. A ideia de que qualquer pessoa poderia enriquecer com esforço e inovação tomou conta da sociedade. Grandes empresários passaram a ser vistos como heróis modernos, e empresas como a Apple se tornaram símbolos do sucesso nesse novo mundo. A mensagem era clara: os vencedores são aqueles que sabem jogar o jogo do mercado, enquanto os que ficavam para trás eram vistos como responsáveis pela própria situação.
Mas essa visão ignorava um problema grave: as desigualdades estavam aumentando. Em 9 de agosto de 2011, essa realidade ficou evidente de um jeito dramático. Na mesma noite em que executivos da Apple comemoravam o sucesso da empresa, 16 mil policiais tomavam as ruas de Londres para conter protestos violentos. De um lado, a ascensão da Apple reforçava a ideia de que o livre mercado funcionava e que a inovação tecnológica levava ao progresso. Do outro, as ruas em chamas mostravam o outro lado desse sistema: décadas de crescimento econômico que beneficiaram poucos e excluíram muitos.
A socióloga Saskia Sassen analisou os protestos e destacou um ponto essencial: enquanto empresas como a Apple se tornavam gigantes e reforçavam a crença de que o sucesso dependia apenas do mérito individual, uma parte enorme da população ficava para trás, sem acesso às mesmas oportunidades. O que aconteceu em Londres não foi um simples episódio de vandalismo, mas o resultado de um sistema que, por mais que gere riqueza, também cria desigualdade e tensão social.
Agora lendo e acompanhando a jornada historica, entendo que Shoshana argumenta em A Era do Capitalismo de Vigilância é que, após essa transição neoliberal que descrevemos – onde o mercado passou a ser visto como o grande motor da sociedade e o empreendedorismo se tornou um culto –, surgiram novas formas de poder econômico baseadas na coleta massiva de dados.
A Apple, o Google, o Facebook e outras gigantes da tecnologia aproveitaram esse modelo de livre mercado e o levaram a um novo nível. Elas não apenas criaram produtos inovadores, mas também passaram a capturar informações sobre os usuários para prever e influenciar seus comportamentos. Esse é o ponto central do capitalismo de vigilância: não se trata apenas de vender produtos ou serviços, mas de extrair dados das pessoas sem que elas percebam e transformá-los em lucro.
Agora, voltando à conexão entre a Apple, os protestos de Londres e as redes sociais:
- A ascensão da Apple e do neoliberalismo → A Apple se tornou um símbolo do sucesso neoliberal, onde o mercado e a inovação eram vistos como os únicos caminhos para o progresso.
- A exclusão social como efeito colateral → Enquanto empresas como a Apple prosperavam, muitas pessoas ficavam de fora desse novo mundo, como os jovens marginalizados que protestavam em Londres.
- O capitalismo de vigilância entra em cena → Com o avanço da tecnologia, a nova fase do neoliberalismo não se limitou mais a privatizações e livre mercado. Agora, grandes empresas passaram a coletar e lucrar com informações pessoais, monitorando hábitos e influenciando escolhas.
O que Zuboff argumenta é que o capitalismo de vigilância surgiu como a evolução desse modelo neoliberal. Se antes a riqueza vinha da produção e da especulação financeira, agora ela vem do controle e manipulação dos dados das pessoas, algo que começou a se estruturar com o crescimento de empresas como a Apple e se consolidou com o domínio das redes sociais.
Ou seja, há uma linha direta que liga o neoliberalismo dos anos 1970, o culto ao empreendedorismo da Apple e o surgimento das redes sociais como ferramentas de vigilância e controle. O que parece inovação e progresso muitas vezes é só uma nova forma de exploração, agora invisível e disfarçada de conveniência digital. E com certeza assustador…
Capitalismo de Vigilância e os mecanismos de busca
Inicialmente, esses dados eram usados para melhorar serviços e anúncios direcionados, mas logo se tornaram um produto em si – algo que poderia ser coletado em massa, analisado e vendido a terceiros, como anunciantes e governos.
Os mecanismos de busca, como o Google, desempenham um papel central nesse sistema. Em teoria, eles existem para nos ajudar a encontrar informações. Mas, na prática, eles funcionam como máquinas de extração de dados. Cada pesquisa que fazemos, cada clique e cada tempo de permanência em uma página são registrados e processados para prever nossos interesses e comportamentos.
Esse modelo segue três passos básicos:
- Coleta de dados – Os sistemas monitoram tudo o que os usuários fazem online.
- Análise e predição – Os dados são analisados por inteligência artificial para prever preferências e comportamentos futuros.
- Modificação de comportamento – Os algoritmos ajustam os resultados para influenciar o que vemos e, consequentemente, nossas decisões.
O grande truque do capitalismo de vigilância é que ele não se limita a prever o que vamos fazer, mas tenta moldar nosso comportamento de forma imperceptível.
“O Mestre dos Fantoches, Não o Fantoche” – Quem está no controle?
Neste subtítulo, Zuboff desmonta a ideia de que os usuários são os que controlam a tecnologia. Muitas pessoas acreditam que estão no comando quando pesquisam no Google, usam redes sociais ou escolhem um produto online. Mas, na verdade, as plataformas digitais controlam o ambiente de forma invisível, manipulando o que vemos e o que não vemos.
Por que “mestre dos fantoches”?
- Empresas como Google e Facebook não são apenas intermediárias passivas que oferecem serviços gratuitos. Elas são agentes ativos, projetando experiências que moldam o comportamento dos usuários.
- Os algoritmos não apenas respondem às nossas necessidades, mas nos direcionam para ações que geram mais lucro para a empresa, como comprar um produto ou interagir mais tempo na plataforma.
Exemplo prático:
- Quando pesquisamos algo no Google, acreditamos que os primeiros resultados são os mais relevantes. No entanto, esses resultados são personalizados com base no nosso histórico de navegação e no que os anunciantes pagam para aparecer ali. Isso significa que não estamos vendo a internet de forma objetiva, mas sim uma versão filtrada e manipulada por algoritmos.
O ponto-chave de Zuboff é que nós não estamos apenas consumindo tecnologia – estamos sendo consumidos por ela. As plataformas digitais transformaram nosso comportamento em um recurso econômico, nos conduzindo sem que percebamos.
No final das contas, o verdadeiro poder não está nas nossas mãos, mas nas mãos daqueles que projetam e controlam os sistemas de informação. Eles são os mestres dos fantoches – e nós, sem perceber, somos os fantoches.
Zuboff III
No Capítulo 2 de “A Era do Capitalismo de Vigilância”, Shoshana Zuboff descreve o 9 de agosto de 2011 como um momento simbólico que ilustra a transição para esse novo modelo econômico. Nesse dia, dois acontecimentos opostos revelaram as consequências de décadas de neoliberalismo e inovação tecnológica.
A Apple desempenhou um papel fundamental na transformação da indústria musical, especialmente com o lançamento do iTunes e, mais tarde, do Apple Music. A promessa era democratizar o acesso à música, oferecendo um meio legal e acessível para que os consumidores pudessem comprar e ouvir faixas individuais, sem precisar adquirir álbuns inteiros.
No entanto, sob a ótica de Zuboff, esse movimento não foi apenas uma inovação tecnológica, mas uma reconfiguração do poder na indústria da música. O que aconteceu?
- Controle sobre a distribuição musical
- O iTunes deu à Apple um controle sem precedentes sobre como a música era vendida e consumida. As gravadoras perderam poder, e os músicos passaram a depender cada vez mais das regras impostas pela plataforma.
- Com o streaming, esse controle se intensificou: os serviços de assinatura coletam dados dos usuários para recomendar músicas e moldar seus hábitos de escuta. E detalhe o artista ganha o minimo!
- A Música como Ferramenta para a Extração de Dados
- Diferente do modelo tradicional da indústria fonográfica, onde o dinheiro vinha da venda de álbuns, o novo modelo baseia-se na coleta de dados dos ouvintes.
- O Apple Music e outras plataformas como o Spotify monitoram o que as pessoas ouvem, quando ouvem, por quanto tempo e até em que momento do dia. Essas informações são usadas para alimentar algoritmos e prever preferências musicais – e, mais importante, padrões de comportamento que podem ser vendidos a anunciantes. Destaque para : MUDAR O PADRÃO DE COMPORTAMENTO!
- O Fim da Escolha Individual?
- Antes da era digital, ouvir música era um ato mais ativo, onde o ouvinte escolhia seus discos, criava suas próprias playlists e explorava novos artistas.
- Agora, os algoritmos personalizam as recomendações, mas fazem isso com base em interesses comerciais, muitas vezes direcionando os usuários para músicas que geram mais engajamento e lucro para a plataforma.
Conclusão
O investimento da Apple no cenário musical pode parecer, à primeira vista, um avanço positivo para os consumidores. Mas sob a análise de Shoshana Zuboff, ele faz parte de um processo maior: o controle da cultura e do comportamento humano pelas grandes empresas de tecnologia.
Se antes a ExxonMobil dominava a economia pelo controle do petróleo, agora a Apple e outras gigantes do Vale do Silício controlam o novo “recurso natural” da era digital: os nossos dados. E a música, um dos produtos culturais mais consumidos no mundo, se tornou um campo fértil para essa nova forma de exploração econômica.
Estou lendo a amostra e em breve vou comprar o livro para seguir a leitura.
