2 de Dezembro de 2024

Leitura de hoje: Estou explorando um trecho fascinante deste livro que destaca o manuscrito sobre a descrição das cidades e províncias de Tlaxcala. Fiquei intrigada com o fato de que o manuscrito original, hoje preservado na Biblioteca Nacional de Paris, é resultado das Relaciones Geográficas, um questionário elaborado pelo governo espanhol para mapear as colônias na América no século XVI.

O texto menciona a erudição de Muñoz Camargo, autor deste relato. Ele foi um cronista tlaxcalteca profundamente influenciado por autores clássicos e por importantes cronistas missionários, como Frei Bernardino de Sahagún e Frei Toribio de Motolinía. Camargo não apenas compilou conhecimentos da época, mas também fez contribuições originais ao escrever em um contexto de mescla cultural entre o mundo indígena e o europeu.

Algo que chamou minha atenção foi a menção às fontes de Muñoz Camargo, como o uso do Códice Florentino e suas referências à religião pré-colombiana. Isso reforça a complexidade do trabalho de historiadores nativos que transitavam entre duas culturas, criando uma narrativa híbrida e rica em detalhes. Este trecho me fez pensar sobre a importância dos cronistas indígenas, que, mesmo imersos em um contexto de colonização, conseguiram preservar fragmentos valiosos da memória cultural de seus povos. A combinação entre tradição oral, erudição europeia e experiência de vida nativa resulta em uma perspectiva única e essencial para compreendermos a história.

Curiosidade extra: Muñoz Camargo foi um dos poucos autores nativos que conseguiram transitar no mundo literário europeu, mas sua obra também evidencia como os tlaxcaltecas buscavam justificar sua aliança com os espanhóis durante a conquista, em uma tentativa de preservar sua posição política.

Essa história sobre Muñoz Camargo e seu trabalho como cronista tlaxcalteca traz reflexões muito profundas sobre identidade, resistência e sobrevivência cultural em meio a um contexto de dominação e transformação. Para mim, é fascinante pensar como Camargo, assim como outros cronistas indígenas, conseguiu se equilibrar entre dois mundos – o indígena e o europeu – enquanto preservava, reinterpretava e até mesmo justificava a história e cultura de seu povo. A história frequentemente nos mostra que as pessoas agem conforme as condições que têm e as ferramentas disponíveis no momento. Assim, Camargo, ao justificar a aliança dos tlaxcaltecas com os espanhóis, estaria lutando não apenas por sobrevivência política, mas também pela preservação de uma herança cultural diante de um cenário de imposição e apagamento.

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