Iniciei a leitura do livro Relatos Astecas da Conquistas dos escritores Georges Baudot e Tzvetan Todorov. O Livro XII do Códice Florentino, parte da obra História Geral das Coisas da Nova Espanha de frei Bernardino de Sahagún, destaca-se como o mais importante relato em língua náuatle sobre a conquista espanhola do México. Produzido entre 1550 e 1555, esse texto reflete a visão dos povos indígenas sobre os eventos da conquista, tornando-se uma fonte essencial tanto pela qualidade quanto pela profundidade de suas narrativas.
Frei Bernardino iniciou este trabalho monumental em 1547, com o objetivo de preservar a cultura náuatle em meio às destruições provocadas pela colonização. Por meio de entrevistas com os tlamatinime (sábios indígenas), ele coletou relatos orais e informações retiradas de códices pictográficos, utilizando métodos inovadores para registrar a memória cultural dos povos indígenas.
Embora o propósito inicial fosse preservar esse conhecimento, o projeto também servia à evangelização, ao oferecer aos missionários uma compreensão mais profunda das crenças e costumes dos povos nativos. A iniciativa estava alinhada a uma visão franciscana reformada, que via na descoberta do Novo Mundo uma oportunidade de realizar profecias apocalípticas e construir uma utopia cristã.
O Livro XII é um registro rico e detalhado da visão asteca sobre a conquista espanhola. Ele revela não apenas o impacto da destruição das instituições indígenas, mas também as tentativas de resistência cultural. Essa perspectiva indígena é especialmente valiosa, considerando o contexto de apagamento sistemático de tradições ameríndias pela colonização.
A obra de Sahagún enfrentou resistência desde sua concepção. Em 1577, após sua conclusão, Filipe II ordenou a apreensão do Códice Florentino e proibiu trabalhos semelhantes, temendo que eles pudessem questionar a narrativa oficial da conquista ou incentivar a resistência indígena. Apesar disso, o códice sobreviveu e, atualmente, está preservado na Biblioteca Laurenciana, em Florença.
Este texto não apenas documenta a história da conquista, mas também ilustra o esforço de compreensão e preservação cultural por parte de alguns religiosos, mesmo em um contexto de dominação colonial. É uma obra que conecta a destruição com a tentativa de memória, revelando as contradições de seu tempo.
Leitura fascinante e complexa, o Livro XII do Códice Florentino me faz refletir sobre como a história é registrada, preservada ou apagada. Ele nos ensina a importância de ouvir e valorizar múltiplas perspectivas em qualquer narrativa histórica.
O destino do Códice Florentino revela as adversidades enfrentadas por frei Bernardino de Sahagún. Após concluí-lo em 1577, o códice foi confiscado por ordem de Filipe II, que proibiu quaisquer trabalhos semelhantes no futuro. Essa apreensão reflete o temor de que tais registros pudessem minar a autoridade colonial, questionar a narrativa oficial da conquista ou alimentar a resistência indígena.
Além disso, a obra de Sahagún foi marcada por disputas internas. Um episódio notável envolveu um religioso chamado Sequera, que manteve o códice para si, sem jamais devolvê-lo ao autor. Apesar desses obstáculos, o documento sobreviveu e hoje está preservado na Biblioteca Laurenciana, em Florença.
Os franciscanos que se dedicaram ao estudo das culturas pré-colombianas tinham motivações complexas. No começo, suas pesquisas visavam construir um projeto utópico de dimensões espirituais e políticas. Essa visão estava enraizada na tradição reformada da ordem franciscana, influenciada pelas ideias apocalípticas do abade Joaquim de Fiore, do século XII.
De acordo com essa visão, a conversão dos indígenas e a conquista do Novo Mundo seriam sinais do início do Milênio, um reino de paz e igualdade que antecederia o Juízo Final. Os religiosos acreditavam que os indígenas, com sua humildade e pobreza, eram parte essencial dessa visão profética. Assim, o estudo detalhado de sua cultura, religião e língua tinha como objetivo integrar os povos indígenas a essa utopia cristã.
Essa leitura reforça as contradições do projeto colonial. Por um lado, os franciscanos buscaram preservar elementos das culturas indígenas; por outro, esse esforço era instrumentalizado por uma visão eurocêntrica e missionária. O Códice Florentino, portanto, é um testemunho tanto da destruição quanto da preservação cultural, oferecendo uma janela única para o pensamento e a resistência dos povos indígenas.
Essa parte da leitura me fez refletir sobre como a história é constantemente moldada por interesses políticos e religiosos. É um lembrete de que os registros históricos, embora valiosos, devem ser lidos criticamente, considerando as motivações e os contextos em que foram produzidos.
part II
Hoje, enquanto lia sobre os relatos astecas da conquista espanhola, fiquei fascinada com os relatos sobre a figura de Cuauhtémoc, o último imperador asteca. Ele é retratado de formas muito diferentes dependendo da fonte. No texto principal, ele aparece como um rei tenochca, mas criticado por não ter atendido às expectativas dos guerreiros de Tlatelolco. Já em outro documento, chamado Lista dos Reis de Tlatelolco, Cuauhtémoc é visto como um herói trágico, exaltado por ter enfrentado adversidades e conduzido os guerreiros até a rendição.
Essas contradições me chamaram atenção. Elas mostram como a memória histórica pode ser disputada e como as diferentes narrativas competem para moldar o significado de um mesmo evento. Parece que cada lado queria contar a história sob sua própria ótica, criando um quebra-cabeça intrigante para quem estuda o passado.
O texto que mais me marcou foi o História de Tlatelolco desde os tempos mais remotos. Ele fala da conquista espanhola, mas de uma maneira que parece quase “pré-colombiana”, pois foi escrito com base nas tradições literárias e narrativas pré-hispânicas. Ele mistura histórias que vão desde a migração de Aztlan até a queda de Tenochtitlán, como se todo esse passado ainda estivesse vivo dentro da narrativa.
Outro detalhe incrível foi a presença dos yaocuica (“cantos de guerra”) dentro do relato. Esses cantos dão um toque especial à narrativa, trazendo emoção e mostrando como os povos indígenas preservaram sua memória e suas tradições mesmo ao descrever um momento tão doloroso como a conquista.
Ao ler tudo isso, fiquei pensando em como a história pode ser cheia de vida, carregada de emoções e de vozes que, de alguma forma, ainda ressoam hoje. Esses relatos me fizeram refletir sobre o poder das narrativas e como, ao estudá-las, não estamos apenas olhando para o passado, mas ouvindo ecos que continuam a nos ensinar e mostrar o que realmente aconteceu.
Um trecho fascinante deste livro que destaca o manuscrito sobre a descrição das cidades e províncias de Tlaxcala. Fiquei intrigada com o fato de que o manuscrito original, hoje preservado na Biblioteca Nacional de Paris, é resultado das Relaciones Geográficas, um questionário elaborado pelo governo espanhol para mapear as colônias na América no século XVI.
O texto menciona a erudição de Muñoz Camargo, autor deste relato. Ele foi um cronista tlaxcalteca profundamente influenciado por autores clássicos e por importantes cronistas missionários, como Frei Bernardino de Sahagún e Frei Toribio de Motolinía. Camargo não apenas compilou conhecimentos da época, mas também fez contribuições originais ao escrever em um contexto de mescla cultural entre o mundo indígena e o europeu.
Algo que chamou minha atenção foi a menção às fontes de Muñoz Camargo, como o uso do Códice Florentino e suas referências à religião pré-colombiana. Isso reforça a complexidade do trabalho de historiadores nativos que transitavam entre duas culturas, criando uma narrativa híbrida e rica em detalhes. Este trecho me fez pensar sobre a importância dos cronistas indígenas, que, mesmo imersos em um contexto de colonização, conseguiram preservar fragmentos valiosos da memória cultural de seus povos. A combinação entre tradição oral, erudição europeia e experiência de vida nativa resulta em uma perspectiva única e essencial para compreendermos a história.
Curiosidade extra: Muñoz Camargo foi um dos poucos autores nativos que conseguiram transitar no mundo literário europeu, mas sua obra também evidencia como os tlaxcaltecas buscavam justificar sua aliança com os espanhóis durante a conquista, em uma tentativa de preservar sua posição política.
Essa história sobre Muñoz Camargo e seu trabalho como cronista tlaxcalteca traz reflexões muito profundas sobre identidade, resistência e sobrevivência cultural em meio a um contexto de dominação e transformação. Para mim, é fascinante pensar como Camargo, assim como outros cronistas indígenas, conseguiu se equilibrar entre dois mundos – o indígena e o europeu – enquanto preservava, reinterpretava e até mesmo justificava a história e cultura de seu povo. A história frequentemente nos mostra que as pessoas agem conforme as condições que têm e as ferramentas disponíveis no momento. Assim, Camargo, ao justificar a aliança dos tlaxcaltecas com os espanhóis, estaria lutando não apenas por sobrevivência política, mas também pela preservação de uma herança cultural diante de um cenário de imposição e apagamento.
Part III
Terminando a leitura de Relatos dos Astecas. Um trecho fascinante deste livro que destaca o manuscrito sobre a descrição das cidades e províncias de Tlaxcala. Fiquei intrigada com o fato de que o manuscrito original, hoje preservado na Biblioteca Nacional de Paris, é resultado das Relaciones Geográficas, um questionário elaborado pelo governo espanhol para mapear as colônias na América no século XVI.
O texto menciona a erudição de Muñoz Camargo, autor deste relato. Ele foi um cronista tlaxcalteca profundamente influenciado por autores clássicos e por importantes cronistas missionários, como Frei Bernardino de Sahagún e Frei Toribio de Motolinía. Camargo não apenas compilou conhecimentos da época, mas também fez contribuições originais ao escrever em um contexto de mescla cultural entre o mundo indígena e o europeu.
Algo que chamou minha atenção foi a menção às fontes de Muñoz Camargo, como o uso do Códice Florentino e suas referências à religião pré-colombiana. Isso reforça a complexidade do trabalho de historiadores nativos que transitavam entre duas culturas, criando uma narrativa híbrida e rica em detalhes. Este trecho me fez pensar sobre a importância dos cronistas indígenas, que, mesmo imersos em um contexto de colonização, conseguiram preservar fragmentos valiosos da memória cultural de seus povos. A combinação entre tradição oral, erudição europeia e experiência de vida nativa resulta em uma perspectiva única e essencial para compreendermos a história.
Curiosidade extra: Muñoz Camargo foi um dos poucos autores nativos que conseguiram transitar no mundo literário europeu, mas sua obra também evidencia como os tlaxcaltecas buscavam justificar sua aliança com os espanhóis durante a conquista, em uma tentativa de preservar sua posição política.
Essa história sobre Muñoz Camargo e seu trabalho como cronista tlaxcalteca traz reflexões muito profundas sobre identidade, resistência e sobrevivência cultural em meio a um contexto de dominação e transformação. Para mim, é fascinante pensar como Camargo, assim como outros cronistas indígenas, conseguiu se equilibrar entre dois mundos – o indígena e o europeu – enquanto preservava, reinterpretava e até mesmo justificava a história e cultura de seu povo. A história frequentemente nos mostra que as pessoas agem conforme as condições que têm e as ferramentas disponíveis no momento. Assim, Camargo, ao justificar a aliança dos tlaxcaltecas com os espanhóis, estaria lutando não apenas por sobrevivência política, mas também pela preservação de uma herança cultural diante de um cenário de imposição e apagamento.
Final
As páginas lidas me fizeram refletir sobre o trabalho de Frei Diego Durán e sua complexa relação com as fontes históricas mexicanas. Ele parecia genuinamente preocupado em ser fiel aos relatos indígenas, mas ao mesmo tempo limitado pelas imposições da Coroa espanhola. Um trecho marcante menciona como ele buscava “respeitar a verdade” nos registros, mesmo diante da obrigação de relatar atos heroicos ao lado das atrocidades humanas. Foi impactante ler sobre o massacre em Cholula, um evento doloroso que Frei Durán preferiu deixar “nas sombras e no silêncio”.
“Dos limites quase obrigatórios também, pois, como observa o próprio frei Diego (cap. LXXIV), se era necessário ‘respeitar a verdade e acompanhar as relações e os memoriais dos índios, a própria história me obrigaria a registrar, entre muitos feitos heroicos e nobres, as crueldades atrozes e os atos de selvageria humana que foram perpetrados […]’.”
Outro ponto que me chamou a atenção foi sua visão providencialista. Ele acreditava que as práticas indígenas tinham raízes judaicas e via a conquista como parte de um plano divino. Essa perspectiva é um reflexo do contexto de sua época, mas, ao mesmo tempo, Durán era crítico tanto das crueldades espanholas quanto dos sacrifícios humanos das culturas pré-colombianas.
Além disso, os relatos indígenas nas três regiões centrais do México — Tlatelolco, Tlaxcala e Texcoco — apareceram novamente. Esses textos em náuatle são descritos como essenciais para preservar a visão dos povos nativos, mostrando tanto a resistência quanto o impacto devastador da conquista espanhola.
Lembro que, em outra parte do livro, li sobre como Frei Diego era um verdadeiro erudito, dedicado à leitura e ao conhecimento. Esse traço só reforça a impressão de que sua obra não foi apenas um registro histórico, mas também um esforço intelectual profundo para compreender e documentar o mundo indígena.
É fascinante como ele transitava entre a sua posição como catequista e a busca por preservar algo que, para ele, parecia precioso. Me pergunto como teria sido sua vida, convivendo com tantas tensões entre fé, história e as atrocidades que ele próprio presenciou.
Esses relatos me deixam cada vez mais interessada em mergulhar nos textos indígenas originais, principalmente os escritos em náuatle. Há algo poderoso em ouvir a história contada pela voz dos próprios protagonistas.
Página 61:
“Cometeu-se um grande número de atrocidades que eu preferi deixar na sombra e no silêncio. Particularmente uma, dolorosa e cruel, que ocorreu na cidade de Cholula […]” (cap. LXXIV).
Página 62:
“E acreditavam firmemente que a Providência ajudou os conquistadores a fim de arrancar os índios das garras de Satanás, que, de algum modo, havia corrompido aquela parte do mundo.”
O que posso afirmar, com base no que já li, é a necessidade de compreender os contextos culturais e espirituais sem demonizar ou idolatrar nenhuma das partes. Os povos indígenas, como os astecas, de fato viviam em um contexto de sobrevivência que exigia práticas que hoje consideramos violentas e selvagens, mas que, para eles, eram parte de sua realidade cultural e espiritual. O sacrifício humano, por exemplo, era visto como uma forma de manter a harmonia cósmica, algo profundamente conectado às suas crenças religiosas. O contexto de constante guerra também reforçava a necessidade de violência como meio de proteger seu território, sua gente e sua cultura. Eles não conheciam outra forma de agir – para eles, aquilo era o “normal”. Essa perspectiva não desculpa atos de crueldade, mas ajuda a compreendê-los.
Por outro lado, os espanhóis, apesar de serem mais avançados tecnologicamente e carregarem consigo ideias de uma “civilização cristã”, demonstraram uma brutalidade assustadora. A crueldade com que trataram os povos indígenas – incluindo massacres, escravização e destruição cultural – também reflete os limites morais e espirituais de sua época. Muitos espanhóis viam os povos indígenas como “inferiores”, quase como sub-humanos, o que justificava, em suas mentes, os atos de extrema violência. No entanto, mesmo dentro desse grupo, havia vozes discordantes, como Bartolomé de las Casas, que denunciava os abusos e lutava pela dignidade dos nativos. Isso mostra que, mesmo entre os colonizadores, havia quem enxergasse a humanidade dos povos conquistados.
Meu pensamento é de que ambos precisavam evoluir. A evolução, no sentido humano e espiritual, é uma necessidade constante, tanto para o passado quanto para o presente. O que me parece importante é equilibrar o reconhecimento das virtudes e dos erros de cada lado. Os indígenas defendiam sua terra e lar e que, muitas vezes, não havia outro meio senão a força. Ao mesmo tempo, também é verdade que os espanhóis trouxeram avanços, mas esses vieram a um custo altíssimo e, muitas vezes, de forma desumana. O desafio é olhar para essas histórias com empatia e humildade, entendendo que tanto a selvageria quanto a brutalidade estavam profundamente enraizadas nos sistemas de crenças e valores da época. No final, reconhecer a complexidade humana de ambas as partes – suas lutas, seus medos, suas motivações – é o caminho para uma compreensão mais verdadeira e transformadora.
