Seguindo para as partes finais deste livro incrivel:
GÁLIA CISALPINA E A ESPANHA
A primeira região celta a ser completamente assimilada pelos romanos foi a Gália Cisalpina, que também foi a primeira área conquistada. A situação nesta área não foi típica do Império Romano como um todo, pois houve uma remoção considerável da população celta para abrir caminho aos colonos romanos e latinos após a guerra contra Aníbal. Em outras partes do Império, o fluxo de colonos romanos para as províncias conquistadas foi menor, e mesmo os soldados veteranos que se estabeleceram em colônias nas províncias, como Colonia Agrippina (moderna Colônia), geralmente não eram de origem romana ou italiana, mas de outras províncias. Embora muitas terras tenham sido confiscadas, os romanos não conseguiram eliminar completamente a população gaulesa. Alguns cultos celtas, como o das Matronas (trindade de deusas mães), continuaram até o período imperial, assim como nomes pessoais celtas, como Boduac. O idioma celta era falado até o século I d.C., e até mesmo alguns italianos do norte mantinham um sotaque gaulês. Na época, os gauleses cisalpinos já haviam aceitado a autoridade romana, principalmente após 49 a.C., quando a cidadania foi concedida a todos os homens livres da região. Com o tempo, o norte da Itália desenvolveu uma rica tradição literária e política, com figuras como Horácio e Catulo possivelmente tendo ascendência celta.
A romanização
Nas áreas costeiras da Espanha, que já eram influenciadas pelos gregos, fenícios e cartagineses, a romanização ocorreu de forma rápida e completa. Enquanto a região era politicamente leal ao Império, o interior celta foi apenas superficialmente romanizado, e tribos das montanhas ao norte, como os Galaicos, Cântabros e Asturianos, mantiveram pouca influência romana. A romanização foi mais evidente na religião, com cultos locais e romanos se fundindo rapidamente. O principal deus anônimo dos Celtiberos, por exemplo, foi associado a Júpiter, enquanto a deusa do submundo Ataecina foi identificada com Prosérpina e o deus da guerra Tarbucelis com Marte. As imagens de Vênus e Diana provavelmente representavam deusas-mães locais, e a adoração aos espíritos da natureza, como as xanas das Astúrias, continuou por séculos e sobreviveu no folclore local até hoje. Mesmo que templos e altares fossem construídos no estilo clássico, as crenças religiosas permaneceram menos romanizadas na Galícia, onde as divindades romanas predominavam em número nas áreas costeiras, mas o equilíbrio era quase igual no noroeste. Os mistérios orientais de cultos como Ísis, Cibele e Mitra se espalharam pela Espanha, e o cristianismo tornou-se importante no século III. O declínio dos cultos celtas acompanhou o crescimento do cristianismo, e a última inscrição dedicada a um deus celta, Erudino, foi feita em Santander em 399.
Identidades tribais
As identidades tribais celtas sobreviveram no noroeste da Espanha até o século V, quando os Vasconços, Galaicos, Asturianos e Cântabros resistiram aos invasores visigodos e suevos. Nas áreas mais romanizadas, não houve resistência significativa. Durante o domínio romano, grupos tribais conhecidos como gentes persistiram no noroeste, onde o padrão de povoamento pré-romano permaneceu inalterado. Embora os romanos vissem as cidades como sinônimo de civilização, suas tentativas de urbanização falharam nesta região, e os castros celtas (fortificações em colinas) continuaram ocupados até o final do período romano, e até depois. O castro de Mohías, perto de Oviedo, foi habitado continuamente desde a Idade do Ferro até pelo menos o século VI, possivelmente até o IX. Nesta área, não há evidências de construções públicas romanas, como teatros, e as casas redondas de pedra continuaram a ser construídas, mesmo dentro das áreas urbanas. Símbolos celtas, como discos solares, eram usados em lápides funerárias, e estilos decorativos pré-romanos ressurgiram no final do período romano, indicando uma tentativa consciente de reviver a identidade celta.
A maioria dos nomes pessoais no noroeste permaneceu celta durante todo o domínio romano. Embora não se saiba ao certo por quanto tempo o idioma celta sobreviveu após a conquista romana, ele ainda era falado no século I d.C. A presença de muitas palavras de origem celta no português moderno e no galego indica que o idioma sobreviveu até o final do período romano, quando o latim começou a se desenvolver nas línguas românicas. Não foi a conquista romana que apagou a identidade celta na Espanha, mas sim a expansão do cristianismo e as invasões germânicas e árabes subsequentes.
A GÁLIA
A Gália tornou-se a província celta mais romanizada do Império, e os gauleses passaram a se considerar os verdadeiros herdeiros da cultura romana no Ocidente. Embora mantivessem sua identidade distinta, no final do domínio romano, já haviam, em grande parte, deixado de ser celtas. A área mais romanizada foi a Gália Transalpina, conhecida como Narbonense após a conquista de Júlio César. Com contatos duradouros com os gregos de Massília e uma economia mediterrânea, os gauleses desta região perderam sua estrutura tribal e se romanizaram completamente na cultura e na língua. A romanização deu à Provença uma identidade cultural e linguística única, que permaneceu na Idade Média e resultou em uma integração complexa e às vezes violenta ao Reino da França. Enquanto isso, o norte da Gália, muitas vezes referido como Gallia Comata, ou “Gália dos Cabelos Compridos”, era visto como bárbaro.
IRLANDA
Na Irlanda, os irlandeses estabeleceram uma dinastia bem-sucedida, mas rapidamente se misturaram com os bretões nativos. Na Cornualha e em Devon, os colonos irlandeses também se assimilaram aos habitantes locais, mas a ilha de Man se tornou completamente gaélica. Em parte, o sucesso dos bretões contra os pictos e os escotos pode ter sido graças ao apoio dos mercenários saxões, que foram convidados a se estabelecer na Grã-Bretanha em troca de serviços militares. Contudo, esses aliados saxões acabaram se revelando uma ameaça.
A CHEGADA DOS SAXÕES
No século IV, as incursões de piratas saxões na costa leste da Grã-Bretanha tornaram-se tão frequentes que a região passou a ser conhecida como “A Praia dos Saxões.” Embora as defesas costeiras fossem sólidas, a retirada frequente das tropas para guerras civis no continente abriu brechas que os saxões exploravam. É possível que os anglos e jutos também participassem dessas incursões, mas isso é incerto. Os bretões não diferenciavam as tribos germânicas invasoras, chamando todas de saxões (Saesneg em galês, Sassenach em gaélico). A convenção de chamar esses invasores de “anglo-saxões” surgiu na Gália, dada pelos francos. Por sua vez, os anglo-saxões chamavam os bretões de waelisc, ou “estrangeiros”, originando os nomes “Welsh” e “Wales”.
A FORMAÇÃO DO PAÍS DE GALES
Os colonos se estabeleceram em Kent, em 449, três anos após os Bretões terem apelado a Roma sem sucesso, buscando ajuda contra os Pictos e os Escotos. A história da rebelião dos líderes saxões Hengest e Horsa, seu pedido de reforços através do mar do Norte, e a traição que culminou no assassinato dos líderes britânicos em uma conferência de paz é impressionante, mas pouco provável. Evidências arqueológicas, especialmente de necrópoles pagãs contendo sepulturas de guerreiros com armas germânicas e trabalhos em metal, indicam que os assentamentos anglo-saxões realmente começaram cerca de uma década após a Grã-Bretanha tornar-se independente. Por volta de 450, os Anglo-Saxões haviam se estabelecido em Kent, no vale do Tâmisa, em East Anglia, em Lincolnshire e em torno do estuário de Humber e York. Se Vortigern realmente trouxe os Anglo-Saxões para a Grã-Bretanha, certamente não foram os primeiros. Inicialmente, é provável que os Anglo-Saxões não fossem bem-vindos, mas pode ter havido governantes britânicos que convidaram os primeiros colonos. Com o benefício da retrospectiva, essa atitude pode parecer imprudente — Gildas comparou a situação a deixar lobos em um redil de ovelhas —, porém estabelecer tribos germânicas como “federados” (aliados) em troca de serviço militar era uma prática romana já bem estabelecida. Assim, não é surpreendente que líderes britânicos romanizados tivessem decidido imitá-la. Tampouco surpreende que, uma vez instalados, os Anglo-Saxões aproveitassem períodos de fraqueza dos Bretões para expandir seus territórios, como fizeram também Francos, Visigodos e outros confederados no Império Romano.
No final do século V, os Anglo-Saxões controlavam grande parte do sudeste da Grã-Bretanha, o que é considerável para povos tribais sem uma liderança unificada e com organização social e econômica inferior à dos Bretões, que herdaram elementos da cultura romana. Essa região, a mais rica da Grã-Bretanha, possuía as melhores terras e a maior densidade populacional, mas essa romanização parecia não beneficiar os Bretões. Os laços tradicionais da sociedade celta eram fracos, e a administração romana havia atuado mais intensamente ali, com cobradores de impostos. Já no século IV, os custos de defesa do Império Romano começaram a pesar.
A Irlanda e Seus Invasores
A Irlanda é um dos locais mais difíceis para conquistar ou subjugar devido a seu território acidentado, coberto de florestas densas, grandes lagos, brejos e áreas inabitadas. Como observa Jean Froissart em suas crônicas (c. 1410), a dificuldade de encontrar um modo eficaz de combater os Irlandeses deriva do fato de não haver cidades a conquistar ou mesmo pessoas para enfrentar, a menos que os Irlandeses desejassem o combate.
No início dos anos 1990, a descoberta de artefatos romanos em um forte próximo a Drumanagh, no condado de Dublin, fez repensar a ideia de uma possível invasão romana na Irlanda. Entretanto, verificou-se que Drumanagh era uma fortaleza nativa com laços comerciais com o Império Romano. A presença de artefatos romanos em outros locais também aponta para comércio frequente, com enterros de estilo romano-britânico indicando a presença de mercadores romano-britânicos. Apesar desses contatos, o estilo de vida romano parece não ter sido adotado pela elite irlandesa, que preferia fundir moedas romanas para criar itens ao estilo La Tène, mais alinhados com o gosto nativo. Esses contatos não tiveram impacto social significativo, e a Irlanda permaneceu com sua estrutura tribal, refletida na criação de gado e nos relatos épicos como o “Táin Bó Cúailgne”.
A Irlanda Cristã Primitiva
Os primeiros cristãos na Irlanda eram, provavelmente, escravos britânicos, em vez de missionários. Com o declínio do poder romano, os irlandeses intensificaram incursões às costas britânicas, lideradas por figuras como Niall dos Nove Reféns. São Patrício, um escravo britânico capturado e levado à Irlanda ainda jovem, retornaria como missionário por volta de 435. Essa introdução do cristianismo trouxe mudanças profundas à sociedade irlandesa, como a criação do alfabeto ogâmico, que registrava as primeiras inscrições na língua irlandesa.
A estrutura descentralizada da política irlandesa espelhava-se na Igreja. Enquanto os bispos tinham respeito, o controle pastoral estava nas mãos dos abades monásticos. Inspirado pelo modelo monástico britânico, o monarquismo na Irlanda prosperou, com monges como São Finnian liderando uma sociedade que resistiria, ao longo dos séculos, aos choques externos com forte resiliência.
O ROMANTISMO E A CELTOMANIA
Os Celtas, de repente, deram forma e definição ao que até então eram vagas noções sobre os povos da Europa pré-histórica. As misteriosas crenças e práticas dos druidas exerciam uma particular fascinação. John Aubrey propôs que os círculos megalíticos em Stonehenge e Avebury, que agora sabemos serem da época neolítica, eram templos druidas. Essas ideias foram adotadas e popularizadas na Inglaterra por William Stukeley e, na França, por Malo de la Tour-d’Auvergne e Jacques Cambry. No final do século XVIII, a associação entre os druidas e os megálitos estava firmemente estabelecida na imaginação popular: apesar dos esforços dos arqueólogos, ainda não foi completamente refutada. Havia algo nos Celtas que os europeus do século XVIII consideravam irresistível, resultando no que se tornou conhecido como “celtomania”. Embora a celtomania tenha enfraquecido antes de meados do século XIX, os Celtas continuaram a ter um grande impacto na imaginação histórica europeia.
A celtomania foi uma manifestação do movimento romântico, uma rebelião cultural contra o racionalismo e o materialismo do Iluminismo. O romantismo exaltava a imaginação, o irracionalismo, o individualismo, a rebeldia, o amor pela natureza selvagem, o misterioso e o exótico. As sensibilidades estéticas dos europeus foram radicalmente alteradas em consequência disso, impactando todos os aspectos das artes. Essas mudanças estéticas também afetaram a percepção dos Celtas. Tudo o que se conhecia sobre os Celtas antigos vinha de textos de escritores gregos e romanos hostis, que os viam como bárbaros perigosos. Esses escritores construíram um estereótipo desfavorável dos Celtas, retratando-os como violentos, orgulhosos, indisciplinados e supersticiosos. Para os românticos, tal estereótipo correspondia ao ideal do “nobre selvagem” — indivíduos não corrompidos pela civilização decadente. Apesar de quase nada se saber sobre suas crenças, os druidas foram idealizados como exemplos de espiritualidade, inspirando intelectuais desencantados com a religião organizada e revoltados com a feiura da revolução industrial. A imagem dos druidas foi incorporada em poesia, pintura e até mesmo em óperas. Proprietários de terras, como William Danby de Swinton Hall, em Yorkshire, adornaram suas propriedades com templos druidas megalíticos e pequenos bosques de carvalho. Houve tentativas de reavivar o druidismo, com a fundação da Ordem dos Bardos, Ovates e Druidas em Londres, em 1717. Edward Williams, mais conhecido como Iolo Morgannwg, chegou a inventar rituais e a forjar documentos para dar autenticidade às práticas neodruidas.
Um dos primeiros e mais influentes trabalhos desse período foi o ciclo poético Ossian, de James Macpherson (1736-1796). Nascido em Ruthven, perto de Inverness, Macpherson publicou, em 1760, Fragmentos de Antiga Poesia, que afirmava serem traduções de manuscritos gaélicos antigos, atribuídos ao bardo Ossian. Seus poemas tiveram enorme sucesso, inspirando românticos, nacionalistas e artistas por toda a Europa. Entre seus admiradores estavam Goethe, Napoleão, Wordsworth, Walter Scott e Mendelssohn. A controvérsia sobre a autenticidade das traduções, no entanto, não diminuiu seu impacto cultural. Os poemas de Macpherson acabaram estimulando o interesse pela genuína literatura celta e pelas tradições orais, em uma época de grandes mudanças econômicas.
A IDENTIDADE CELTA E O RENASCIMENTO GALEGO
A mais importante consequência da celtomania foi o fortalecimento do orgulho e da identidade cultural entre os povos de línguas celtas. Esse renascimento cultural, iniciado no País de Gales, resultou em uma nova valorização da língua e das tradições galesas. A publicação de gramáticas e dicionários no início do século XVIII e o aumento da alfabetização através do trabalho da Sociedade para a Promoção do Conhecimento Cristão ajudaram a estabelecer as primeiras gráficas em Gales, promovendo uma literatura na língua galesa. A primeira eisteddfod formal (uma assembleia de poetas) ocorreu em Corwen, em 1789. Expatriados galeses em Londres fundaram sociedades, como a Sociedade dos Antigos Bretões e a Sociedade Honrada de Cymmrodorion, para preservar a língua e cultura galesas e destacar a singularidade de seu povo. Embora o renascimento cultural não tenha levado a um nacionalismo político, o movimento deu aos galeses uma nova confiança em sua identidade, dificultando sua assimilação cultural pelos ingleses.
A CELTIFICAÇÃO DA ESCÓCIA
A relação tensa entre os escoceses de língua inglesa das Terras Baixas e os escoceses gaélicos das Terras Altas atingiu o auge após a Rebelião Jacobita de 1745. Enquanto os escoceses das Terras Baixas viam os habitantes das Terras Altas como selvagens e rebeldes, os escoceses das Terras Altas usavam o termo gaélico “Sassenach” para se referir de maneira pejorativa aos falantes de inglês. Após a Primeira Guerra Mundial e os conflitos com os ingleses no início do século XX, o Reino Unido manteve uma difícil estabilidade na Irlanda do Norte até o ressurgimento dos protestos civis e da violência entre as comunidades católica e protestante em 1969.
Os celtas, embora comumente incluídos na agenda do movimento pan-celta, não necessariamente se identificam assim. Esta questão levanta uma reflexão sobre a importância da língua para a identidade celta moderna.
As Línguas Celtas Atuais
Atualmente, quatro línguas celtas — galês, bretão, irlandês e gaélico escocês — ainda são usadas no cotidiano. Outras duas, manx e córnico, que desapareceram recentemente, estão em processo de revitalização. É difícil determinar o número exato de falantes de línguas celtas; aproximadamente dois milhões e meio de pessoas afirmam que têm conhecimento dessas línguas, mas a quantidade de falantes regulares é bem menor, provavelmente menos de 500 mil.
É um equívoco, deliberadamente promovido por nacionalistas, atribuir o declínio das línguas celtas exclusivamente à repressão dos governos britânico e francês. Embora isso tenha sido um fator no caso do bretão, o governo britânico foi mais indiferente que hostil. O declínio das línguas celtas se deve a razões complexas: emigração, imigração de falantes de outras línguas e a falta de oportunidades sociais, econômicas e educacionais. Por exemplo, punir o uso do galês nas escolas era mais uma prática culturalmente endossada pelos próprios pais galeses, que viam o inglês como uma chave para melhores oportunidades para seus filhos.
Um exemplo interessante é o declínio do gaélico irlandês. Em torno de 1800, havia cerca de quatro milhões de falantes na Irlanda, mas a fome da década de 1840 e a emigração em massa contribuíram para uma drástica redução. Na independência da Irlanda, restavam apenas 55 mil falantes. Fatores adicionais incluem a relutância da Igreja Católica em traduzir as Escrituras para o gaélico, diferente do que aconteceu com o galês no País de Gales. Após a independência, o gaélico tornou-se uma língua oficial e recebeu apoio estatal, mas sua utilização diária continua em declínio, com apenas 22 mil pessoas afirmando usá-lo regularmente em 1991.
Na Escócia, o gaélico escocês também está em queda. Em 2001, havia cerca de 58 mil falantes, e mesmo com o apoio estatal, o futuro da língua parece incerto. Em contraste, nas Hébridas, uma região escocesa, o gaélico possui uma comunidade mais forte e engajada, e as novas gerações mostram interesse em aprender a língua para integrar-se à cultura local.
A Identidade Celta na Modernidade
O crescimento da identidade celta na Galiza, na Espanha, mostra uma das razões para o ressurgimento da celtomania: preservar uma identidade distinta em face de culturas dominantes. Para os galegos, adotar a identidade celta ajuda a reforçar uma autonomia cultural, não sendo completamente assimilados pela cultura espanhola. A identidade celta moderna também se fortalece com políticas da União Europeia, que permitem que minorias busquem reconhecimento e apoio além dos governos centrais.
Um fator interessante é a ligação da celtomania moderna ao movimento ambientalista. Desde a publicação de “Silent Spring” por Rachel Carson em 1962, a celtomania ecoa ideais de harmonia com a natureza e um certo romantismo sobre os celtas como povos em comunhão com o meio ambiente. A imagem idealizada dos celtas, aliada ao surgimento de novas sensibilidades culturais e ambientais, contribuiu para a popularidade da identidade celta como uma alternativa simbólica à modernidade materialista e ao nacionalismo.
Assim, apesar dos avanços acadêmicos em arqueologia e história celta, a imagem que se tem dos celtas modernos muitas vezes é romantizada e derivada da visão dos primeiros revivalistas, mais do que do conhecimento histórico exato.
Os Celtas nos Dias de Hoje
A maior expressão da moderna “celtomania” está no crescente interesse pelo neodruidismo, wicca e outras religiões pagãs que exaltam a harmonia com a natureza. Ao contrário dos primeiros neodruidas do século XVIII, que acreditavam estar ressuscitando uma antiga religião, muitos dos druidas modernos reconhecem que sua prática é uma recriação do espírito druídico, com forte foco no respeito pela natureza. Não existe uma teologia rígida, e o movimento permite liberdade de crença e experimentação. É justamente essa flexibilidade que atrai pessoas que questionam o capitalismo contemporâneo ou que não se identificam com religiões organizadas. Esse fenômeno foi especialmente notável nas celebrações dos solstícios em Stonehenge, que, na década de 1990, reuniram os chamados “viajantes da Nova Era”, embora o governo conservador britânico tenha limitado seu acesso ao local.
Essa celtomania moderna tem, de fato, gerado algumas excentricidades, como o tarô celta e até sacos de chá celtas. No entanto, seus impactos são em grande parte benignos, promovendo o turismo nas regiões celtas e aumentando a conscientização sobre sua cultura, especialmente a música e a arte. Contudo, essa onda de idealização também fomentou uma visão unidimensional e muitas vezes irreal dos celtas como vítimas históricas, ignorando seus próprios momentos de expansão e dominação. Essa simplificação tem sido explorada tanto por nacionalistas em países como o País de Gales, a Escócia e a Irlanda quanto por produções de Hollywood. Durante os conflitos na Irlanda do Norte, por exemplo, grupos como o IRA apresentaram suas ações como uma continuação da resistência celta à opressão inglesa.
Terão os Celtas Futuro?
Embora as línguas celtas estejam em declínio, a ideia de uma identidade celta tem se mantido viva. Contudo, identidades que surgem por escolhas conscientes podem igualmente ser abandonadas. A Irlanda, por exemplo, transformou-se em um “Tigre Celta” de alta tecnologia, onde o gaélico é pouco falado e o catolicismo perdeu influência. Embora acolha imigrantes, o país enfrenta dificuldades com a integração. Assim como a Irlanda, outros países celtas têm mudado à medida que conquistam maior poder político e prosperidade econômica e se tornam mais integrados à União Europeia.
Essas mudanças podem, com o tempo, levar as populações celtas a reconsiderar sua identidade, que, em um futuro distante, pode vir a ser uma referência cultural e pessoal, e não mais uma identidade nacional. Para muitos, a celtomania moderna serve como um adorno que traz atratividade à identidade celta. A celtomania também faz parte do motivo pelo qual a diáspora celta — muitas vezes de ascendência mista — se identifica com essas raízes, mantendo viva a herança de um povo cuja história se estende por milênios.
