Os Celtas, da Idade do Bronze aos Nossos Dias”, de John Haywood

Capitulo 3- Grandes Migrações

Hoje, aprofundei-me nas referências históricas sobre a presença celta na Itália, especialmente através dos relatos de conflitos e migrações de tribos gaulesas.

Cenas de Batalha e a Presença Etrusca
É fascinante ver como as estelas funerárias dos etruscos de Bolonha, datadas do século V a.C., retratam cenas de batalha com guerreiros celtas. Isso sugere que os etruscos resistiram às invasões gaulesas, conforme corroborado por fontes romanas, que mencionam esses conflitos com as tribos celtas, também chamadas de gaulesas.

A Migração dos Sénones e Outras Tribos Celtas
Uma das últimas migrações celtas significativas à Itália foi a da tribo Sénone, por volta de 400 a.C., que se estabeleceu ao sul, em uma faixa da costa adriática perto de Rimini. Outras tribos, como os Insubres, parecem ter se fixado em regiões como Piemonte e Lombardia. A rica cultura funerária da área sugere uma sociedade aristocrática guerreira com fortes laços culturais com os chefes de Hallstatt.

O Enigma da Cultura de Golaseca
Ainda antes dessa migração, a cultura de Golaseca, que remonta a cerca de 900 a.C., indica a possível presença de um povo celta ou proto-celta no norte da Itália. Livio menciona essa migração, mas o texto de Haywood levanta a questão: os povos de Golaseca já falavam o celta, ou esse idioma teria sido adotado mais tarde, através de contatos transalpinos? Não há uma resposta definitiva, mas é provável que, se não eram celtas originalmente, a cultura celta influenciou-os profundamente.

A Marcha de Belloveso e os Cenomanos
A figura de Belloveso liderando grupos gauleses, como os Cenomanos, sobre os Alpes até a Itália é quase lendária. Eles se estabeleceram em torno de Brescia e Verona. No entanto, faltam evidências arqueológicas para confirmar essa colonização fora dos limites da cultura de Golaseca nessa época. Curiosamente, os primeiros artefatos celtas na Itália pertencem à cultura de La Tène, um estilo bem característico do mundo celta.

Influência Grega e Decisão de Emigrar
Os celtas, assim como os gregos, enfrentaram desafios de superpopulação em suas terras, o que os levou a buscar novas regiões para habitar. Algumas colônias gregas, como Massilia, fundadas no Mediterrâneo, exerceram forte influência sobre as elites celtas de Hallstatt. Diferentemente dos gregos, que selecionavam colonos por sorteio, não se sabe como os celtas decidiam quem emigraria. Fica a dúvida se essas decisões eram impostas ou se os próprios emigrantes tinham algum poder de escolha.

A Primeira Migração Registrada
A primeira migração celta confirmada historicamente ocorreu através dos Alpes até a Itália. Segundo o historiador romano Tito Lívio, essas migrações começaram durante o reinado de Tarquínio Prisco (aproximadamente 616-579 a.C.), o quinto rei de Roma. Lívio menciona o povo dos Bituriges como dominante nessa época, liderado por seu rei Ambicato, que, ao perceber o problema de superpopulação em seu reino, decidiu enviar seus sobrinhos Belloveso e Segoveso em busca de novas terras. Após consultar os deuses, Segoveso foi direcionado ao sul da Alemanha, enquanto Belloveso seguiu rumo à Itália, liderando um grande grupo de tribos, incluindo os Bituriges, Sénones, Éduos, Arvernos, Carnutos, Aulercos e Ambianos.

A Atração por Itália e o Papel do Vinho
Fontes clássicas apontam o vinho italiano, o azeite e o clima como grandes atrativos para os celtas. Plínio relata que um artesão gaulês, Hélico, ao retornar de uma viagem a Roma com figos secos, uvas e recipientes de vinho e azeite, despertou o interesse de seus compatriotas pelos encantos da Itália.

A Rota dos Alpes e o Encontro com os Etruscos
Inicialmente, os celtas encontraram dificuldades em atravessar os Alpes. Por isso, avançaram ao longo da costa até o Mediterrâneo, onde ajudaram colonos gregos a fundar Massilia. Esse sucesso parece ter sido tomado como um presságio positivo, e os celtas redobraram os esforços para encontrar uma rota segura pelos Alpes, possivelmente o desfiladeiro do monte Genèvre. Eles finalmente alcançaram o vale superior do rio Pó, onde enfrentaram e derrotaram os etruscos, que já reivindicavam a região. As tribos celtas se estabeleceram ao norte do rio Pó, nas regiões de Piemonte e Lombardia, fundando Milão como um de seus centros principais.

Essa leitura foi especialmente reveladora sobre como os celtas buscavam novas oportunidades e se adaptavam a novos territórios. Além disso, mostra o quanto as influências externas – dos gregos, dos etruscos e dos romanos – moldaram suas decisões e expansões. Essas migrações refletem a complexidade das interações culturais na antiguidade e a importância de fatores como recursos naturais e clima na escolha de novas terras.

Part. II

Cap. 3 –O Mundo de La Tène

Hoje me aprofundei no fascinante universo de La Tène, período importante para a cultura celta.

Costumes e Modo de Vida
Segundo o historiador Políbio, os celtas viviam em aldeias sem muralhas e sem construções permanentes, dormindo em camas de palha ou folhas. Eram dedicados à guerra e à agricultura, sem muito foco em acumular bens permanentes. A posse mais valiosa de um homem era seu ouro e seu gado, itens facilmente transportáveis nas constantes mudanças de residência. A amizade era um valor fundamental, pois o homem com mais companheiros e dependentes era visto como o mais poderoso e influente na tribo.

Percepções Clássicas e o Estereótipo dos Celtas
Grande parte do que sabemos sobre os costumes celtas vem dos relatos de escritores gregos e romanos, que criaram uma imagem estereotipada dos celtas como supersticiosos, selvagens e atrasados economicamente. Eles os viam como guerreiros apaixonados, arrogantes, que gostavam de festas, canções e bebedeiras. Embora os celtas fossem admirados por sua coragem, os escritores clássicos os consideravam culturalmente inferiores e uma ameaça ao mundo mediterrâneo “civilizado”.

Com o tempo, porém, essa visão mudou. O movimento romântico ressignificou a imagem do celta, transformando-o em um “selvagem nobre”, incorruptível e imbatível diante da civilização decadente. Hoje, influenciados pelo movimento ecologista e crenças espiritualistas, os celtas são vistos como símbolo de virtudes que parecem faltar na sociedade moderna, como espiritualidade e respeito pela natureza. Em alguns lugares, como no centro de Celtica no País de Gales, os celtas chegaram a ser retratados como figuras quase míticas, lembrando os personagens de “Middle Earth”.

Comparação com Outras Civilizações Antigas
É importante lembrar que os celtas antigos eram, na realidade, muito semelhantes aos seus contemporâneos – gregos, romanos e germanos. Embora a civilização ocidental admire muito o legado grego e romano, tendemos a enxergar esses povos como “modernos” em suas opiniões. Na verdade, celtas, gregos e romanos compartilhavam muitas semelhanças culturais e sociais.

Estrutura Social e Organização dos Clãs
O mundo celta não era homogêneo, e suas estruturas sociais variavam de acordo com o ambiente e os recursos locais. Nas terras menos férteis da Grã-Bretanha e da Irlanda atlântica, por exemplo, persistiam por mais tempo formas de organização social menores e menos hierárquicas, ao contrário das regiões do sul da Grã-Bretanha e da Europa continental, onde havia mais terras férteis para cultivo. No período de La Tène, a principal organização social celta era baseada nos clãs, um tipo de sociedade hierárquica, onde posição e status frequentemente eram definidos pela linhagem e herança. Em muitas dessas comunidades, os líderes geralmente vinham de linhagens superiores, consolidando uma estrutura hierárquica que continuaria viva nas Terras Altas da Escócia e na Irlanda até depois da Idade Média.

Vi nessa parte da leitura a complexidade das sociedades celtas, quebrando mitos e idealizações. A organização dos clãs, o estilo de vida simples e a forte lealdade entre os companheiros mostram uma sociedade que, embora diferente do modelo romano ou grego, possuía sua própria estrutura e valores. A análise desses relatos históricos nos permite entender como o tempo e as influências culturais moldaram a imagem dos celtas na percepção moderna.

Part. III

Cap 4-B-Espanha: A Mais Dura Conquista

aprofundei a partir dessa parte do capitulo, no intenso e duradouro conflito entre os Celtiberos e os Romanos na Península Ibérica. Este capítulo revela a complexidade e brutalidade da conquista romana da Espanha, que se desenrolou ao longo de quase dois séculos.

A Ascensão de Roma e os Primeiros Conflitos
Após derrotar Cartago na Segunda Guerra Púnica, Roma se tornou a superpotência do Mediterrâneo. Com a vitória, herdou as colônias cartaginesas na costa mediterrânica da Espanha, enquanto os povos Celtiberos do interior eram controlados indiretamente por alianças com líderes locais. Durante a guerra, os Celtiberos ficaram conhecidos por sua inconstância, frequentemente mudando de lado, o que apenas reforçou a visão romana de que os celtas eram instáveis e traiçoeiros.

Os Celtiberos e a Luta pela Independência
Depois da retirada cartaginesa, os Celtiberos retomaram sua independência, mas a presença romana cresceu. A insegurança mútua logo levou ao conflito: os romanos temiam a ameaça dos povos “bárbaros”, enquanto os Celtiberos viam sua liberdade ameaçada pela expansão de Roma. A captura de Numância, importante cidade celta, marcou o início de uma longa luta. Os Romanos, buscando “fronteiras seguras”, avançaram cada vez mais para o interior, travando inúmeras batalhas e enfrentando feroz resistência.

A Guerra e o Preço Pago por Roma e pelos Celtas
Roma pagou um preço alto por sua ambição na Hispânia. Estima-se que os romanos perderam milhares de soldados nas batalhas contra Celtiberos e Lusitanos, necessitando manter cerca de 20.000 a 25.000 soldados estacionados na região anualmente. Uma das campanhas mais devastadoras foi liderada pelo general Tibério Graco, que destruiu mais de 300 aldeias celtiberas entre 179 e 178 a.C., simbolizando a brutalidade e o impacto das guerras.

Resistência e Traição
Após essas campanhas iniciais, a Espanha parecia pronta para a colonização, mas a opressão romana reacendeu a resistência em 155 a.C., com Celtiberos e Lusitanos lutando separadamente. Os romanos reagiram vigorosamente e, em 151 a.C., os Celtiberos se renderam após o cerco de Numância. Os Lusitanos, ao aceitarem uma proposta de paz com Roma, sofreram uma traição chocante: durante um acordo para realocação, foram desarmados e massacrados. Essa traição levou à renovação das hostilidades.

Viriato, o Herói da Resistência
A traição romana provocou uma nova fase de resistência lusitana, liderada por Viriato, que se tornou símbolo de resistência contra Roma e herói nacional em Portugal. Pastor e, às vezes, fora-da-lei, Viriato personificava a luta pela liberdade e a resiliência dos lusitanos diante da opressão romana.


Tudo isso mostra como o processo de conquista romana foi marcado por estratégias implacáveis e pelo sacrifício humano em ambos os lados. A Espanha se tornou, de fato, um “sorvedouro” de homens e recursos para Roma. A resistência lusitana, inspirada pela figura de Viriato, representa a luta por liberdade contra um invasor poderoso, trazendo um capítulo trágico e heroico da história celta na Península Ibérica.

Estrutura Social e Militar dos Celtas

Neste trecho, pude compreender mais sobre a estrutura social dos celtas, incluindo aspectos relacionados ao papel das mulheres, ao sistema de escravidão e à organização dos fortes tribais.

O Estatuto das Mulheres Celtas
Ao contrário das civilizações mediterrânicas, onde as mulheres geralmente viviam confinadas ao espaço doméstico, as mulheres celtas desfrutavam de um status social mais elevado e participavam ativamente da sociedade. Em algumas regiões, como na Grã-Bretanha, havia até mulheres governantes. Para os escritores gregos e romanos, que viam a liberdade feminina como sinal de “barbárie”, essa autonomia era algo desconcertante. No entanto, o estudo afirma que, apesar de sua relativa liberdade, a sociedade celta ainda era dominada pelos homens. Não há evidências concretas de uma sociedade matriarcal ou de uma linhagem matriarcal entre os celtas, algo frequentemente discutido por historiadoras feministas.

Estruturas Defensivas: Fortes nas Colinas
A residência típica de um chefe celta era o forte sobre uma colina, que servia como um reduto tribal em tempos de conflito e, muitas vezes, também como centro religioso. A construção desses fortes variava, mas a versão mais simples era composta por um fosso, uma muralha de terra e uma paliçada de madeira. Com o tempo, os celtas aprimoravam as defesas, adicionando plataformas e portas complexas, dificultando o acesso em caso de ataque. Uma técnica de construção notável era o murus gallicus (muralha gaulesa), que envolvia o uso de madeira amarrada em uma estrutura complexa, combinando praticidade e resistência.

Sistema de Escravidão e Comércio
Embora os celtas também mantivessem e comercializassem escravos, o faziam em menor escala em comparação com as civilizações mediterrânicas. Essa prática, embora significativa, não tinha o mesmo impacto econômico e social que no Mediterrâneo, onde o trabalho escravo sustentava boa parte das atividades agrícolas e urbanas.


Havia um equilíbrio entre a autonomia das mulheres celtas e as limitações impostas pela sociedade patriarcal. Também revela o sistema de fortificação e defesa dos celtas, que era engenhoso e estratégico, com métodos de construção que variavam conforme as necessidades e recursos de cada tribo.

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