Chegar ao final de Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Nietzsche, é uma experiência transformadora. Esse é um livro que, muito além das suas palavras e temas, faz um convite ao leitor a um profundo encontro consigo mesmo e com as grandes questões da existência. Com sua linguagem poética e simbólica, Zaratustra — o personagem central e mensageiro das ideias nietzschianas — nos guia em uma jornada onde são desafiadas nossas certezas e confortos mais profundos. Ao final dessa travessia, ficam algumas mensagens que ecoam com força: a superação constante, a criação de novos valores, o amor pelo destino e a força de viver plenamente.
1. O Caminho do Super-Homem
A busca pelo “Super-Homem” é talvez o tema mais emblemático da obra. Nietzsche desafia o leitor a olhar além de si mesmo, a transcender a ideia tradicional de humanidade em busca de algo maior. Zaratustra não prega o contentamento ou a conformidade, mas a superação de si próprio e o desenvolvimento de uma existência baseada em potencial ilimitado. O Super-Homem não é um estado fixo, mas um processo contínuo de transformação e autossuperação, em que o ser humano não apenas vive, mas cria e recria a si mesmo.
2. A Morte de Deus e a Criação de Novos Valores
Nietzsche, através de Zaratustra, declara que “Deus está morto”, um conceito poderoso e desafiador que questiona as bases da moralidade e da religião da época. Essa “morte” não é uma rejeição da espiritualidade, mas sim uma chamada para que cada indivíduo se liberte das amarras dos valores herdados, criando para si mesmo uma nova tábua de valores. Zaratustra, ao longo do livro, convida-nos a sermos os criadores dos nossos próprios princípios, redefinindo o que é bom e ruim, certo e errado, de acordo com nossa própria experiência e vontade de poder.
3. A Eterna Recorrência
Um dos temas mais misteriosos e instigantes da obra é a ideia da “Eterna Recorrência”. E se tudo o que vivemos se repetisse infinitamente? Zaratustra nos desafia a abraçar a vida em sua totalidade, amando cada alegria e sofrimento, cada conquista e perda, como se tivéssemos de vivê-los eternamente. Esse pensamento nos convida a uma aceitação radical da vida, onde todas as experiências — boas ou ruins — são igualmente significativas e valiosas. Abraçar a eterna recorrência é afirmar a vida com todos os seus paradoxos, é encontrar beleza até nos momentos mais desafiadores.
4. Amor Fati: O Amor ao Destino
No final da jornada, Zaratustra abraça o conceito de Amor Fati, o amor ao destino. Esse princípio é uma aceitação plena da vida tal como ela é, incluindo as adversidades e os erros. Para Nietzsche, aceitar o destino é não lutar contra a realidade, mas, sim, acolher cada parte dela como parte do nosso crescimento. Amar o destino é uma forma de se reconciliar com a vida, acolhendo cada aspecto de nossa jornada como algo que contribui para nossa realização e expansão. Esse é o passo final do nosso crescimento: aceitar, amar e agradecer por tudo o que nos trouxe até aqui.
5. A Criança e o Espírito de Liberdade
Zaratustra fala sobre três transformações do espírito: o camelo, o leão e, finalmente, a criança. A criança representa a fase mais elevada do desenvolvimento humano, a essência da liberdade e da criação. Enquanto o camelo carrega fardos e o leão desafia e luta, a criança é a liberdade pura — o renascimento em seu estado mais genuíno. A criança representa um novo começo, a capacidade de dizer “sim” ao mundo com uma disposição genuína para explorar e criar. Essa última etapa representa a total emancipação de tudo o que nos prendia, o início de uma vida em que podemos criar o nosso próprio destino com alegria e espontaneidade.
Assim Falou Zaratustra é um convite ousado para uma vida mais autêntica e intensa. Nietzsche, por meio de Zaratustra, desafia o leitor a questionar suas verdades, a desapegar-se de crenças confortáveis e a tornar-se o próprio autor de sua existência. Ao fim dessa jornada, Zaratustra nos deixa não com respostas, mas com um chamado para nos tornarmos criadores e, acima de tudo, para amarmos a vida em toda a sua complexidade.
Com Zaratustra, aprendemos que cada desafio é uma oportunidade para nos recriarmos, cada perda é uma chance de fortalecer nosso espírito, e cada momento é precioso em nosso caminho para o desconhecido. Amar a vida, a despeito de tudo, talvez seja a mensagem mais poderosa que Zaratustra deixa — um convite para que vivamos com coragem, criando e recriando, sempre buscando nos tornar aquilo que realmente somos.
