Assim falou Zaratustra by Friedrich Nietzsche

Demorou um pouco para eu iniciar a próxima leitura, pois eu estava sem fundos para comprar outro livro, mas consegui encontrar no Kindle on limit um livro da minha lista de leitura: Assim falou Zaratustra, o famoso livro de Nietzsche.

Nietzsche usa Zaratustra como um profeta que clama pela superação dos valores convencionais e anuncia a chegada do “Super-homem”, uma nova forma de existência humana que se eleva além das normas e limitações morais tradicionais.

Como estou farto do meu bem e do meu mal. Tudo isso é pobreza, imundície e conformidade lastimosa!”

Aqui, Zaratustra lamenta um tempo de “mesquinhez” e “conformidade lastimosa,” em que os valores humanos se tornaram obsoletos e anêmicos, como virtude, justiça, piedade e felicidade. Ele afirma que, com o tempo, esses valores perderam o poder transformador, virando apenas um conformismo estéril, o que gera um estado de apatia e desprezo próprio. Segundo Zaratustra, é necessário um caos interior — um estado de paixão, desordem, criatividade — para que surja uma “estrela cintilante,” uma metáfora para a transformação ou criação genuína.

Eu vo-lo digo: é preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante. Eu vo-lo digo: tendes ainda um caos dentro de vós outros.

O Super-homem, então, é aquele que transcende essa mesquinhez. Ele não busca sentido ou justificação em algo “supra-terrestre” (uma crítica à religião ou idealismo); ele encontra o significado na própria existência, fiel à “terra.” Ao permanecer conectado à vida, às paixões e ao crescimento contínuo, o Super-homem incorpora a evolução constante e o autodomínio, tornando-se um “mar” capaz de receber os “rios turvos” da humanidade sem ser corrompido.

Zaratustra também provoca os ouvintes a pensar sobre seu próprio corpo e alma, sugerindo que os valores devem estar enraizados na própria natureza humana e na vida, e não numa busca transcendental que renuncia à existência. Essa perspectiva é central ao niilismo ativo de Nietzsche, onde o homem cria seus próprios valores, em vez de aceitar passivamente aqueles que o tornam conformista e passivo.

Essa passagem desafia a humanidade a abraçar o caos criativo e se transformar em algo mais pleno e potente: o Super-homem, aquele que encontra o sentido da vida dentro de si mesmo e na fidelidade à terra. Esse livro é libertador!

As três transformações do espírito

Nietzsche apresenta, nesse trecho, as “três transformações do espírito” como uma metáfora para o desenvolvimento humano e a evolução espiritual. Ele descreve como o espírito se transforma em camelo, depois em leão e, finalmente, em criança, cada etapa representando uma fase de libertação e autossuperação.

Aqui está uma análise de cada estágio:

  1. Camelo: O camelo representa a fase em que o espírito é forte, mas se submete aos valores e normas impostas pela sociedade, pela cultura ou pela moral tradicional. O camelo “carrega” essas coisas pesadas, ajoelhando-se voluntariamente e aceitando o “fardo” de valores, crenças e obrigações herdadas. Esse espírito busca coisas que o sobrecarreguem para testar sua força, aceitando o peso do “tu deves” (ou seja, o conjunto de valores e deveres que lhe foram impostos).
  2. Leão: No segundo estágio, o espírito do camelo se transforma em leão, que representa a busca pela liberdade. O leão quer libertar-se do “grande dragão” chamado “tu deves”. Esse dragão é uma metáfora para os valores tradicionais, que brilham nas suas escamas e repetem incessantemente: “Todos os valores foram já criados”. O leão, porém, desafia esse dragão, dizendo “Eu quero!”, ou seja, afirmando sua própria vontade contra os valores impostos. O leão é forte o suficiente para rejeitar a obediência, mas ele ainda não cria novos valores; ele se limita a destruir os antigos, a abrir caminho para algo novo.
  3. Criança: Após o espírito destruir os valores antigos (na fase do leão), ele se transforma em criança, que simboliza a inocência, a criatividade e a capacidade de criar novos valores. A criança representa um “novo começo”, a liberdade para criar sem as amarras do passado, com o “esquecimento” das obrigações e das restrições. Para Nietzsche, a criança é a fase final do espírito, em que se torna possível dizer um “sim” criativo à vida e ao mundo, criando seu próprio sentido e propósito.

Cada estágio implica um avanço na jornada do autodescobrimento: o camelo aceita o peso, o leão quebra as correntes, e a criança transcende ambos, alcançando a liberdade verdadeira de criar novos valores. Nietzsche sugere que, para se alcançar o verdadeiro potencial, é preciso romper com as normas estabelecidas e, enfim, viver de forma autêntica, afirmando-se como criador do próprio caminho.

A crença em “além-mundos”

Queriam fugir da sua miséria, e as estrelas estavam demasiado longe para eles. Então suspiraram: “Oh! Se houvessem caminhos celestes para alcançar outra vida e outra felicidade!

Neste capitulo ( 4) de Assim Falou Zaratustra, Nietzsche critica a crença em “além-mundos” (ou seja, realidades sobrenaturais ou espirituais que transcendem o mundo físico) e rejeita a ideia de que o ser humano deva buscar um propósito ou uma realização fora do próprio corpo e da Terra.

Vamos explorar alguns pontos importantes:

  1. O Fantasma e a Superação: Nietzsche, através de Zaratustra, descreve o “fantasma” como uma criação do próprio ser humano. Esse fantasma não vem de outro mundo; ele é fruto das próprias “cinzas” e “chamas” da alma humana, ou seja, uma ilusão criada a partir de sofrimento, fraqueza e, sobretudo, da insatisfação com a própria existência. Quando Zaratustra supera seu próprio sofrimento, o fantasma desaparece. Aqui, Nietzsche sugere que, ao encarar e superar os próprios tormentos, uma pessoa se liberta de ilusões ou crenças no além-mundo.
  2. Crítica aos “Além-mundos” e à Criação dos Deuses: Nietzsche argumenta que a criação de deuses, do além e das realidades transcendentais são produtos da “fadiga”, da falta de capacidade e da “incompetência” dos homens em lidar com o sofrimento e com as limitações da vida. Em vez de enfrentar a própria dor e superar suas limitações, esses homens inventaram “outros mundos” para escapar daquilo que os atormenta. Assim, Nietzsche vê esses conceitos como tentativas de fugir da realidade e rejeitar o corpo e o mundo material.
  3. O Corpo e o Eu Criador: Nietzsche valoriza o “Eu” como fonte de criação e de sentido. Para ele, o corpo e o mundo físico são fundamentais para o desenvolvimento do “Eu”, sendo o corpo a base de toda experiência humana. A rejeição do corpo, tão comum na filosofia espiritualista ou religiosa que ele critica, é, na visão de Nietzsche, uma rejeição do próprio Eu e da vida. Ao contrário, ele sugere que o “Eu” deve aprender a honrar o corpo e a Terra, valorizando-os como fonte de poder e de expressão.
  4. A Nova Vontade: Nietzsche propõe uma nova abordagem para o desejo e a vontade. Em vez de seguir o caminho dos que desprezam o corpo e a Terra em favor de um além-mundo idealizado, ele encoraja as pessoas a valorizar sua existência física e concreta. Ele se opõe àqueles que criam ideais de “vida após a morte” ou “céus” como fuga da vida. Nietzsche afirma que é do corpo e da Terra que vêm todas as experiências de êxtase, prazer e realização, mesmo para aqueles que acreditam na transcendência.
  5. “Criem um Corpo Superior”: Nietzsche não está pedindo uma negação do espírito, mas uma aceitação plena do corpo como fonte de potencial. Ele acredita que, ao rejeitar o corpo em nome de ideais espirituais, as pessoas se enfraquecem. Ao invés disso, ele convida à criação de um “corpo superior”, uma existência mais elevada, mas sempre baseada na valorização da vida e do corpo físico.

Essencialmente, Nietzsche está propondo um rompimento com as ideias tradicionais de transcendência e além-mundo, sugerindo que a verdadeira realização vem de viver plenamente na Terra, honrando o corpo e aceitando o próprio “Eu” como fonte de criação e poder. Essa visão, para ele, é uma forma de superação dos antigos valores que depreciavam a vida e o corpo humano em favor de um além inatingível.

Acredito na importância de uma espiritualidade encarnada, que valorize o presente e as complexidades humanas. O cristianismo verdadeiro é uma escolha de viver em amor e liberdade. É preciso coragem para romper com normas que sufocam o verdadeiro sentido de existir.

Continua…

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