Sobre Histórias by C.S.Lewis

Hoje iniciei a leitura do livro Sobre Histórias, C.S. Lewis e me chamou a atenção por sua resistência ao ceticismo literário de sua época. Era um tempo em que a fantasia e a ficção científica eram frequentemente desvalorizadas e tachadas como “escapismo”. Achei inspirador como ele permaneceu fiel à sua crença no valor dessas narrativas, recusando-se a ceder à pressão do que se considerava “bom gosto” literário. Enquanto muitos escritores e críticos preferiam focar em temas realistas, como a monotonia da vida cotidiana ou as injustiças sociais, Lewis abraçou a fantasia como uma forma legítima de explorar e expressar verdades profundas.

Isso me fez refletir sobre como, na vida, muitas vezes somos pressionados a seguir um caminho mais “sério” ou “realista”. Entretanto, há uma beleza única nas histórias que nos permitem sonhar e escapar momentaneamente do mundo concreto. Para Lewis, a imaginação era uma ferramenta vital para buscar a verdade, não algo a ser desdenhado como uma simples fuga da realidade. Ele nos ensina que, ao permitir-nos sonhar e criar, podemos acessar uma liberdade e um prazer que também trazem à tona verdades essenciais sobre a vida.

Outro ponto que me tocou profundamente foi a amizade entre Lewis e Tolkien, que emerge nas páginas do livro. Os dois partilhavam uma paixão por mitologias, especialmente as nórdicas. Contudo, foi Tolkien quem ofereceu a Lewis uma nova perspectiva sobre os mitos. Enquanto Lewis os via como “mentiras bonitas”, Tolkien enxergava neles fragmentos de uma verdade eterna e divina. Para Tolkien, a criação de mitos era uma forma de os seres humanos participarem do processo criativo de Deus, tornando-se “subcriadores”, espelhando a perfeição original da criação.

Essa visão é profundamente espiritual e poética. A ideia de que, ao contar histórias e imaginar novos mundos, estamos, de certa forma, ecoando o ato criativo divino me impressiona. A amizade entre Tolkien e Lewis foi, sem dúvida, transformadora para Lewis. Foi através dessas conversas e trocas intelectuais que ele começou a reconsiderar sua visão cética sobre os mitos, vendo-os como portadores de verdades maiores. Tolkien ajudou Lewis a encontrar esse caminho, revelando que os mitos não são meras invenções, mas reflexos de algo que transcende o mundano.

Essas reflexões me levaram a pensar não apenas no poder das histórias, mas também no valor das amizades que transformam nossa maneira de ver o mundo. Tolkien foi crucial para que Lewis entendesse a profundidade das mitologias e, em última análise, a grande verdade por trás da narrativa cristã como o “Mito Verdadeiro”.

Introdução

A metáfora dos “carcereiros literários” que nos manteriam presos ao realismo social ressalta como Lewis foi um libertador da imaginação. Ele reconhecia que a ficção fantástica e a criação de mundos alternativos eram, de fato, maneiras de explorar verdades mais profundas. Lewis sabia disso por experiência própria, já que ele mesmo foi “aprisionado” pela crítica dominante, mas conseguiu escapar, abrindo caminho para a aceitação dessas formas literárias.

O trecho também nos oferece um vislumbre pessoal da vida de Lewis, mostrando que sua inclinação para a fantasia começou na infância. Suas primeiras histórias, como To Mars and Back e o conto sobre coelhos e ratos em armadura, revelam sua imaginação fértil, que o acompanhou durante toda a vida. A morte precoce de sua mãe e o convívio com o ambiente adulto de seu pai marcaram sua escrita, mas não sufocaram seu impulso criativo.

Por fim, a menção à sua dificuldade física, que ele mesmo considerava um fator que o impulsionou a escrever, é um lembrete de que a literatura para Lewis era mais do que uma escolha – era uma necessidade. Ele encontrou no ato de escrever um prazer inabalável, e, assim como não seria possível reverter a rotação da Terra, a força de sua imaginação também não poderia ser detida.

Tolkien e sua visão sobre mitos

Tolkien, como Lewis, havia muito se divertia com mitos antigos, particularmente com os de origem nórdica. A diferença entre eles era que, enquanto Lewis definia os mitos como “mentiras sopradas através da prata”, Tolkien, já trabalhando em seu vasto mundo inventado da Terra Média, acreditava na verdade inerente da mitologia. “Assim como a fala é uma invenção sobre objetos e ideias, ” ele disse a Lewis naquela noite, “o mito é uma invenção sobre a verdade. Viemos de Deus e inevitavelmente os mitos que tecemos, apesar de conterem erros, refletem também um fragmento da verdadeira luz, da verdade eterna que está com Deus. De fato, apenas ao criar mitos, ao se tornar ‘subcriador’ e inventar histórias, é que o Homem pode se aproximar do estado de perfeição que conhecia antes da Queda”.

A analogia de Tolkien, comparando a fala como uma invenção sobre objetos e ideias e o mito como uma invenção sobre a verdade, é reveladora. Para ele, criar mitos é mais do que um simples ato de imaginação. É uma forma de se aproximar do divino, uma tentativa de captar, ainda que de maneira fragmentada, a verdadeira luz que vem de Deus. Essa concepção transforma o ato de contar histórias em um ato de “subcriação”, no qual o ser humano participa do poder criativo de Deus. Ao criar histórias e mitos, o homem reflete a perfeição original perdida com a Queda.

A interação entre Tolkien e Lewis descrita nesse trecho é comovente, pois mostra o impacto dessa visão no próprio Lewis. Foi através dessas discussões intelectuais e espirituais que Lewis começou a reconsiderar sua percepção dos mitos e abraçar a ideia de que eles carregam fragmentos da verdade, mesmo quando misturados com erros. O papel de Tolkien aqui vai além do de um amigo; ele age como um guia, ajudando Lewis a ver a mitologia sob uma nova luz — como algo que não precisa ser desprezado, mas que pode ser uma janela para a compreensão de realidades superiores.

Essa perspectiva é profundamente poética. Pensar que, ao criarmos histórias, estamos ecoando o poder criador de Deus, é um conceito que dá um novo sentido ao ato de contar histórias. Não se trata apenas de entretenimento ou escapismo, mas de uma busca por algo maior, uma forma de capturar e refletir, ainda que de maneira imperfeita, as verdades divinas. Essa interação entre Tolkien e Lewis é um belo exemplo de como a amizade e o diálogo intelectual podem nos abrir os olhos para novas formas de ver o mundo e nos ajudar a entender melhor o papel da criatividade e da imaginação em nossa jornada espiritual.

Continua…

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