Neste segundo capitulo do livro, Koselleck menciona e aborda a famosa expressão “historia magistra vitae”, cunhada por Cícero, e explora como essa ideia influenciou a compreensão e o uso da história ao longo dos séculos.
Historia magistra vitae
” Cícero, referindo-se a modelos helenísticos, cunhou o emprego da expressão historia magistra vitae. A expressão pertence ao contexto da oratória; a diferença é que, nesse caso, o orador é capaz de emprestar um sentido de imortalidade à história como instrução para a vida, de modo a tornar perene o seu valioso conteúdo de experiência. Além disso, o uso da expressão está associado a outras metáforas, que reescrevem as tarefas da história. Historia vero testis temporum, lux veritatis, vita memoriae, nuntia vetustatis, qua voce alia nisi oratoris immortalitati commendatur [A história é a testemunha dos tempos, a luz da verdade, a vida da memória, a mensageira da velhice, por cuja voz nada é recomendado senão a imortalidade do orador].
A tarefa principal que Cícero atribui aqui à historiografia é especialmente dirigida à prática, sobre a qual o orador exerce sua influência. Ele se serve da história como coleção de exemplos — plena exemplorum est historia [a história é cheia de exemplos]31 — a fim de que seja possível instruir por meio dela. Faz isso, sem dúvida, de forma ainda mais vigorosa do que o fez Tucídides, ao chamar a atenção para o proveito que emanava de sua obra, quando legou para sempre sua história como patrimônio, como um bem inextingüível, para que se pudessem reconhecer os futuros casos semelhantes. O círculo de influência de Cícero perdura até a experiência histórica cristã. O corpus de sua obra filosófica não raro foi catalogado, nas bibliotecas dos mosteiros, como coletânea de exemplos, sendo amplamente disseminado.
Como se vê, a possibilidade de se interpretar a expressão ao pé da letra sempre esteve presente, mesmo que a autoridade da Bíblia e dos Pais da Igreja suscitasse no início uma certa resistência contra a historia magistra pagã. Em seu difundido compêndio etimológico, Isidoro de Sevilha fez uso constante do tratado De oratore, de Cícero, mas a expressão historia magistra vitae, especificamente, foi suprimida de suas definições de história. Ele criou não pouca dificuldade aos apologetas do cristianismo, ao transmitir como exemplares os eventos da história profana, ou mesmo da história pagã.No que se refere àquilo que nós mesmos não podemos vivenciar, devemos recorrer à experiência de outros”, encontramos na Grande enciclopédia universal de Zedler, em 1735.25 Assim, a história seria um cadinho contendo múltiplas experiências alheias, das quais nos apropriamos com um objetivo pedagógico; ou, nas palavras de um dos antigos, a história deixa-nos livres para repetir sucessos do passado, em vez de incorrer, no presente, nos erros antigos.26 Assim, ao longo de cerca de 2 mil anos, a história teve o papel de uma escola, na qual se podia aprender a ser sábio e prudente sem incorrer em grandes erros.
1. “Historia Magistra Vitae” e o Contexto de Cícero
- Cícero e o Modelo Helenístico: Cícero foi um grande orador e filósofo romano que se inspirou nos modelos gregos para formular suas ideias sobre a história. A expressão “historia magistra vitae” significa literalmente “a história é a mestra da vida”. Para Cícero, a história não era apenas um relato dos acontecimentos passados, mas uma fonte de exemplos que ensinavam lições valiosas para a vida e para a prática política.
- Função da História na Oratória: A frase pertence ao contexto da oratória, pois Cícero, como orador, via na história um recurso para ilustrar e legitimar argumentos. Ele acreditava que a história tinha o poder de transmitir experiências passadas de maneira quase imortal, servindo como um guia para as ações presentes e futuras.
2. A História como Repositório de Exemplos
- Testemunha dos Tempos e Luz da Verdade: Cícero usa várias metáforas para descrever a função da história. Ele a chama de “testemunha dos tempos”, “luz da verdade”, “vida da memória”, “mensageira da velhice”. Essas metáforas ressaltam a importância da história como um testemunho confiável que ilumina a verdade, preserva a memória dos eventos e comunica a sabedoria dos antigos.
- História como Coleção de Exemplos: A história, para Cícero, é uma “coleção de exemplos” (plena exemplorum est historia), que pode ser usada para instruir e orientar. Ele a via como um repertório de casos que servem para educar sobre como agir de forma prudente e sábia.
3. Comparação com Tucídides
- Função Didática: Cícero parece atribuir à história uma função didática ainda mais intensa do que Tucídides, o historiador grego que escreveu sobre a Guerra do Peloponeso. Enquanto Tucídides acreditava que sua obra proporcionaria um benefício eterno, ajudando a reconhecer situações semelhantes no futuro, Cícero via a história como uma fonte prática e imediata de lições para evitar erros e promover boas ações.
4. Influência Cristã e Resistência à “Historia Magistra Vitae” Pagã
- História Cristã vs. História Pagã: Na Idade Média, a influência de Cícero perdurou. No entanto, houve uma certa resistência inicial da Igreja ao conceito de “historia magistra vitae”, pois ele se originava em um contexto pagão. A história cristã tinha como foco a salvação e a providência divina, enquanto a história pagã, como a de Cícero, enfatizava a moralidade e a prudência humana.
- Isidoro de Sevilha e a Supressão do Conceito: Isidoro de Sevilha, em seu trabalho etimológico, usou muitas ideias de Cícero, mas evitou mencionar diretamente a expressão “historia magistra vitae”. Isso reflete a tensão entre o uso pedagógico da história pagã e a autoridade dos textos sagrados e dos Pais da Igreja.
5. A Função Pedagógica da História
- Apropriação de Experiências: O trecho final menciona como a história foi, durante séculos, vista como um “cadinho de experiências”, uma espécie de repositório de lições de vida que não poderíamos vivenciar diretamente. Ela nos permite aprender com o passado, evitando repetir erros e imitando sucessos.
6. Síntese Final: História como Escola de Sabedoria
- História como Escola: Ao longo de quase 2 mil anos, a ideia de que a história serve como uma escola de sabedoria e prudência, ajudando-nos a aprender sem incorrer em grandes erros, foi uma noção central. Através dos exemplos do passado, podíamos nos preparar para agir melhor no presente e no futuro.
Bom, resumindo,o texto explora como a história foi utilizada por Cícero e depois adaptada ao longo dos séculos como uma ferramenta para ensinar e guiar a ação humana, especialmente no campo da política e da moralidade.
Continuaa…
