Os Celtas e a Origem de Suas Lendas

Imagine-se entre florestas úmidas e vales verdejantes do Oeste europeu, sob um céu amplo e misterioso. Em tempos antigos, o som das harpas ecoava pelas colinas, e as fogueiras iluminavam rostos atentos reunidos para ouvir histórias — mitos e lendas que moldariam não apenas o espírito de um povo, mas também a cultura de um continente.

Os celtas, povos indo-europeus que habitaram vastas regiões da Europa — das Ilhas Britânicas à Gália e partes da Península Ibérica — deixaram um legado profundo. Sua presença se estendeu de cerca de 800 a.C. até o início da Era Cristã. O que os torna fascinantes é sua forma de viver e transmitir o conhecimento: pela palavra falada, pela música e pela memória.

As origens da palavra viva

Antes da escrita, as histórias celtas eram transmitidas pela tradição oral. Poetas e músicos conhecidos como bardos viajavam entre aldeias e fortalezas, narrando feitos de deuses e heróis, ensinando valores e preservando a genealogia das tribos.

Esses guardiões da memória eram também educadores espirituais. Suas palavras transmitiam sabedoria, coragem e o respeito à natureza — centro da visão celta de mundo. Nos festivais, as histórias ganhavam vida entre harpas e danças, unindo a comunidade num elo entre o humano e o divino.

Os antigos Ciclos Mitológicos, como o Ciclo de Ulster e o Ciclo Feniano, revelam heróis como Cúchulainn e Fionn mac Cumhaill e mostram uma espiritualidade profunda, onde o tempo é cíclico e a natureza é sagrada.

Os bardos e druidas: mestres da memória

Na sociedade celta, o conhecimento era considerado sagrado. Os bardos eram responsáveis por preservar a história, louvar heróis e manter viva a honra das tribos. Já os druidas, além de sacerdotes, eram juízes e filósofos, depositários dos saberes mitológicos e das leis da natureza.

📜 Os bardos passavam anos memorizando milhares de versos. A oralidade era tão valorizada que a escrita, para muitos, era vista como algo inferior, incapaz de conter a força viva da palavra. A voz era o veículo do espírito — e narrar era, em si, um ato sagrado.

Por que histórias de povos “bárbaros”?

Durante a Idade Média, o cristianismo apagou boa parte das antigas lendas populares europeias. Restavam apenas as vidas dos santos e os Evangelhos. Os celtas, porém, souberam conviver com a nova fé. Suas histórias ancestrais foram preservadas dentro do cristianismo, e muitas lendas se fundiram às tradições cristãs — não como ameaça, mas como complemento espiritual.

Assim, suas narrativas sobreviveram graças a bardos e trovadores que, mesmo após as invasões normandas e a queda das cortes celtas, continuaram transmitindo essas histórias em feiras e estradas. Foi por meio deles que poemas como Tristán e Isolda e Perceval atravessaram fronteiras, chegando à França, Espanha e Alemanha.

As conexões intercélticas também eram amplas: Gales, Irlanda, Escócia e Cornualha compartilhavam mitos semelhantes, unidos por uma mesma sensibilidade espiritual.

Do mito ao manuscrito

Com a chegada da escrita e a expansão dos mosteiros cristãos, parte desse legado oral começou a ser registrada. O exemplo mais célebre é o Livro de Kells, do século IX — uma das obras mais belas da Idade Média. Produzido por monges irlandeses, ele combina a arte celta com os Evangelhos, transformando o texto sagrado em um verdadeiro tapete de cores e símbolos.

Outro tesouro é o Mabinogion, compilado entre os séculos XI e XIV, que reúne contos galeses de origem muito mais antiga. Neles aparecem figuras como Arthur e Merlin (Myrddin), castelos envoltos em névoa e donzelas encantadas — elementos que dariam origem à “Matéria de Bretanha”, o grande ciclo das lendas arturianas.


Um legado que ainda canta

A música sempre acompanhou a narrativa. Geoffroy de Monmouth, em sua Vita Merlini (século XII), descreve o mago enlouquecido após a guerra que encontra consolo no som suave de uma harpa. Essa cena revela o que a tradição celta sempre soube: a música é uma força de cura e de memória.

Na Idade Média, as canções célticas tornaram-se moda. Os últimos “bardos bretões” percorriam as cortes feudais cantando histórias exóticas e misteriosas. Eram vistos como os últimos poetas selvagens do Ocidente. Um deles, Bleheri, cantou na corte de Guilherme IX, o primeiro trovador conhecido — símbolo de uma linhagem poética que atravessou séculos.

Com o passar do tempo, as vozes dos bardos se transformaram em literatura, mas sua essência permaneceu. Poetas como W. B. Yeats e músicos contemporâneos redescobriram nessas antigas melodias a ligação entre arte, espiritualidade e identidade. O legado celta sobrevive não como ruína, mas como canção. Ele nos lembra que toda cultura começa com uma voz ao redor do fogo — e que, antes de ser escrita, a história foi cantada.

O Retorno das Vozes: Quando o Mundo Celta Renasceu da Memória

Depois da queda do Império Romano, a palavra celta quase desapareceu. Durante toda a Idade Média, esse termo foi substituído por designações regionais — bretões, gaélicos, galeses, escotos. Ainda assim, a alma celta continuou viva sob outras formas: nos cânticos que cruzavam o Atlântico, nas peregrinações de monges, e nas histórias que se misturaram às novas tradições cristãs.

Os monges irlandeses, herdeiros da tradição oral, foram responsáveis por uma das maiores pontes culturais da Antiguidade tardia. Essas travessias marítimas não foram exceção, mas parte de uma rede de trocas constante entre o norte e o sul. Mesmo nas ruínas e nas pedras antigas, a continuidade é perceptível — como se cada canto da costa carregasse ainda ecos de salmos e cânticos de navegantes que, cantavam em alta voz pelos oceanos a fora.

Com o passar dos séculos, essa herança se ocultou sob camadas de história, mas não desapareceu. Durante o Renascimento, estudiosos e humanistas começaram a redescobrir antigas fontes medievais e manuscritos irlandeses. O que antes era visto como “mito bárbaro” ganhou valor como documento das origens europeias. A chamada “Matéria de Bretanha” — os ciclos arturianos e as lendas de Avalon — tornou-se símbolo dessa redescoberta, uma ponte entre o sagrado e o imaginário.


📚 Referências

HAYWOOD, John. Os Celtas: a história e a cultura de um povo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.

BLANC, Claudio. “‘O grande livro da mitologia celta”Brasil’, um nome celta que habitava o imaginário medieval.” Barueri\ São Paulo, 2021

literatura celta- www.britannica.com


Texto: Priscilla Novaes
📍 Música&Linguagens | Cultura celta — Setembro de 2024

Publicado por Priscilla Rubio Novaes

Priscilla Rubio Novaes é musicista e historiadora com raízes hispano-americanas. Sua música e escrita se entrelaçam para criar uma experiência sensorial única, uma jornada através do tempo, onde história e arte se encontram. Priscilla compartilha suas reflexões em seu blog, explorando a interseção entre história, literatura e arte. Seu desejo é conectar as pessoas ao poder transformador da música e da narrativa, trazendo à tona memórias ancestrais e histórias que ecoam através do tempo.