A Parte Final de O Silmarillion: Luz e Sombra em Arda
Conforme avançei para os momentos finais de O Silmarillion, Tolkien nos guia por um labirinto de luz e escuridão, onde temas de esperança, sacrifício e tragédia se entrelaçam com uma profundidade que só ele poderia criar. Esta parte do livro nos leva a explorar a grande guerra dos Valar contra Melkor, a rebelião de Fëanor e a queda dos grandes reinos élficos de Beleriand. A riqueza narrativa e a complexidade dos personagens fazem deste épico um tesouro inesquecível.
O Destino dos Silmarils
Os Silmarils, joias de luz pura e inquebrantável, são o coração pulsante desta obra. Criadas por Fëanor, o mais talentoso e impetuoso dos elfos, as três joias encapsulam a luz das Duas Árvores de Valinor e representam tanto a beleza imortal quanto a tragédia do orgulho. Elas tornam-se objeto de desejo e cobiça, levando à desgraça aqueles que tentam possuí-las.
O juramento de Fëanor e seus filhos, de recuperar os Silmarils a qualquer custo, desencadeia um ciclo de guerras e sofrimento. Esta obsessão os leva a lutar contra amigos e inimigos, manchando suas mãos com sangue e, finalmente, causando a destruição de seus próprios reinos. O impacto dos Silmarils não se limita apenas aos elfos: homens, anões e até os próprios Valar são arrastados para esse redemoinho de desespero e ambição. A corrupção e a ruína que eles causam são um reflexo do destino trágico de Melkor, pois, como ele, muitos caem em desgraça tentando possuir aquilo que não lhes pertence.
A Queda de Gondolin
Um dos episódios mais memoráveis da narrativa é a queda de Gondolin, a cidade secreta dos elfos, cuja beleza era inigualável. Fundada por Turgon, um dos filhos de Fingolfin, Gondolin representa o último refúgio dos elfos contra o domínio de Melkor. No entanto, mesmo as muralhas mais imponentes e a fortaleza mais bem guardada não podem escapar da traição.
A queda de Gondolin é um dos momentos mais trágicos e heroicos do livro. É aqui que vemos a bravura de personagens como Glorfindel, que sacrifica sua vida para salvar seu povo. A destruição de Gondolin simboliza o fim da esperança dos elfos em Beleriand, mas também marca o começo de uma nova era, pois é através da fuga de Tuor, Idril e seu filho Eärendil que a semente da esperança se espalha para a Terra Média. Eärendil, mais tarde, se tornaria a estrela da esperança, navegando pelos céus e lembrando a todos da promessa de um futuro além das sombras de Melkor.

A Guerra da Ira e a Queda de Melkor
A história culmina na grande Guerra da Ira, onde os Valar finalmente decidem intervir diretamente na Terra Média, após o apelo desesperado de Eärendil. Os exércitos celestiais marcham contra Melkor em uma batalha apocalíptica que devasta Beleriand. O poder dos Valar é avassalador, e Melkor, o grande rebelde, é derrotado, acorrentado e expulso dos confins de Arda para sempre. Sua derrota, no entanto, não marca o fim do mal, pois Sauron, seu tenente mais fiel, sobrevive, planejando em silêncio o retorno da escuridão.
Essa batalha final é um eco da grande sinfonia de Eru Ilúvatar, onde até mesmo a dissonância criada por Melkor é incorporada à melodia maior. Os Valar restauram a harmonia em Arda, mas o preço é alto: Beleriand afunda no mar, e muitos dos grandes heróis e reinos élficos desaparecem para sempre.
A Partida dos Elfos e o Legado dos Silmarils
Com o fim da guerra, os Silmarils encontram destinos diferentes e simbólicos: Maedhros e Maglor, os últimos filhos de Fëanor, tomam as joias, mas são incapazes de suportar sua pureza devido aos pecados que cometeram. Maedhros, em desespero, lança-se em um abismo de fogo com seu Silmaril, enquanto Maglor, consumido pela culpa, joga a sua no mar e vagueia eternamente pela costa, cantando suas lamentações. A terceira joia, roubada por Beren e Lúthien, é transformada na estrela de Eärendil, brilhando nos céus como um símbolo de esperança para todos os povos livres.
O fim do Silmarillion nos deixa com um sentimento de perda e renovação. A era dos elfos chega ao seu crepúsculo, mas um novo amanhecer se prepara para os homens. Tolkien, com sua habilidade única de tecer mitos e história, nos lembra que, embora o mal possa dominar por um tempo, há sempre uma centelha de esperança que persiste.
A Música de Arda: Harmonia e Dissonância
Em última análise, O Silmarillion é uma sinfonia épica de luz e escuridão, onde cada nota, mesmo a mais dissonante, tem seu papel na grande obra de Ilúvatar. A música é um símbolo poderoso, tanto literal quanto metafórico, que percorre toda a obra. A criação de Arda começa com a grande canção dos Ainur, e essa mesma música continua a ecoar nos feitos de heróis e vilões, nos momentos de esperança e desespero.
Assim, Tolkien nos convida a ouvir a melodia da vida, a entender que, mesmo nas dissonâncias e nas tragédias, há beleza e propósito. O Silmarillion não é apenas uma coletânea de mitos, mas uma celebração da resiliência e da capacidade humana de encontrar esperança mesmo nas horas mais sombrias.
Até a proxima!
